A batalha por um ideal de corpo

Para além das questões da moda, é preciso refletir sobre o tipo de corpo que é admirado atualmente e quais são seus atributos. Da televisão às bancas de jornais, é fácil descobrir o que se deve desejar: as medidas, as formas e como consegui-las. E o corpo magro é o objetivo a ser conquistado, a perda de peso significando comprovação de força de vontade. A obesidade deixou de ser problema de saúde, pelas doenças que pode provocar, e se tornou defeito, prova de baixa autoestima, vontade fraca. O peso, ou melhor, o excesso dele define quem o carrega.

O sobrepeso é quase um crime passível de punição, julgado pela balança, pela fita métrica e condenado pelo olhar do outro, seja família, vizinhos, amigos, namorados. Ele não discrimina ninguém, impondo suas penas a crianças, mulheres, homens, jovens, velhos, anônimos ou famosos. Outros delitos são estrias, celulites, calvície, e, principalmente no caso das mulheres, cabelos grisalhos. O processo de envelhecimento tornou-se algo a ser combatido, rugas e cabelos brancos são testemunhos de derrota para o tempo, este invencível vilão sem rosto.

Como para o ser humano nada é impossível, profissionais, cientistas, empresas lançam-se à procura de modos de tornar o corpo perfeito e atemporal, de acordo com o modelo vigente. Intervenções cirúrgicas prometem o corpo desejado como num passe de mágica.

Cosméticos milagrosos limpam, alisam, transformam, com suas fórmulas de nomes impronunciáveis, mas avalizadas pela ciência. Exercícios físicos moldam e domesticam o todo ou partes do corpo que teimam em aumentar, despencar, escapar do controle estético. Próteses de silicone preenchem faltas em seios, panturrilhas, bumbuns; lipoaspirações fazem desaparecer barrigas e culotes.

Estar gordo ou magro deixou de ser matéria de interesse unicamente da medicina e passou a fazer parte das preocupações de todos. A obesidade ganhou espaço nos meios de comunicação, sendo desvendada e explicada à exaustão, dos programas com base mais científica aos populares. Isto fica evidente numa rápida visita às bancas de jornais, com uma quantidade inacreditável de revistas que estampam em suas capas de dicas infalíveis a receitinhas naturais. Segundo algumas publicações, emagrece-se dormindo, bebendo chás, pulando refeições, cada semana traz uma solução milagrosa.

A mensagem subliminar chega a ser cruel. Basta seguir as indicações para perder peso, quem tem força de vontade consegue, é só querer. Pode-se imaginar a frustração de quem se submete a estes métodos e não perde um grama, por não conseguir manter uma dieta restritiva e sem sentido, ou volta a ganhar peso em pouco tempo, por não ter feito as mudanças necessárias para manter o corpo magro. Tanto o fracasso em perder peso quanto o efeito sanfona aumentam a frustração, mas novos métodos surgirão e serão tentados.

O culto ao corpo fez surgir uma indústria bilionária, que inclui fórmulas emagrecedoras, aparelhos que miraculosamente diminuem medidas, cintas modeladoras, cremes redutores etc. Conseguir o corpo objeto de desejo implica não ter preconceitos em relação aos tratamentos ou métodos para consegui-lo. Omite-se que nenhuma intervenção pode mudar a constituição e a predisposição genética, as características físicas e o biotipo. O corpo ideal das capas de revista e outdoors ainda é um sonho distante. Mas entender o porquê da insatisfação que se reflete no próprio corpo e aceitar a si mesmo significa recuperar o controle da vida e ser livre de modelos. É preciso resgatar o corpo refém das imposições externas, pois o preço a pagar pode ser alto demais.

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.



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