A alma roubada: Reflexões sobre o curta-metragem de animação “Alma”

“Sabendo-se onde mora o perigo e onde fica, o mundo se torna mais possível e tranquilo. O pior medo é despertado quando não conhecemos o contorno do que nos apavora, por isso, o terror habita na escuridão (Corso & Corso, 2006).

Com toques de suspense e terror, o curta-metragem “Alma” de Rodrigo Blaas (2009) é no mínimo instigante! Alma, a pequena personagem, trilha sua saga através de uma busca incessante pelo contato com uma boneca idêntica a ela e que ao final, acaba roubando a de si mesma.

A história desperta inúmeras reações em quem assiste: curiosidade, ansiedade, medo, espanto, aflição. Parece que sentimos em nossa própria pele o aprisionamento da personagem. Sua respiração ofegante de dentro da boneca nos aflige. Assim, nos identificamos com ela de maneira bastante instintiva e inconsciente. “Alma” nos impacta de modo profundo e assustador!

A história desperta inúmeras reações em quem assiste: curiosidade, ansiedade, medo, espanto, aflição. Parece que sentimos em nossa própria pele o aprisionamento da personagem. Sua respiração ofegante de dentro da boneca nos aflige. Assim, nos identificamos com ela de maneira bastante instintiva e inconsciente. “Alma” nos impacta de modo profundo e assustador!

O drama começa com “Alma” passeando distraída pelas ruas desertas e geladas até se deparar com uma parede repleta de assinaturas de outras pessoas e crianças. Nosso nome e nossa assinatura são símbolos da nossa identidade. Isso faz com que ela também sinta vontade de deixar sua marca naquele lugar. Neste momento, do outro lado da calçada surge na vitrine de uma loja, uma boneca idêntica a ela, que a seduz de modo surpreendente.

Lembramos aqui da personagem de contos de fadas Chapeuzinho Vermelho. A menina que deveria seguir o caminho orientado pela mãe até a casa da avó se distraí pelo caminho e por não ter consciência dos perigos, se envolve com o lobo, seu possível devorador. Assim, semelhante a esta personagem, a ingenuidade e a impulsividade também são marcas características de “Alma”.

Quantas vezes, mesmo já adultos, somos intensamente atraídos para situações perigosas que não conseguimos evitar ou nos desvencilhar. Seguimos nossos mais profundos impulsos e beiramos à inconsequência. Inicialmente, assim como foi para “Alma”, o cenário pode parecer somente instigante, curioso e não ameaçador. Mas, à medida em que a história evolui nos vemos numa verdadeira enrascada. Pode ser uma compra, uma aventura amorosa ou financeira, enfim, qualquer coisa que desejamos fortemente.

As doenças já foram comparadas ao roubo da alma, e portanto, o curta-metragem nos fala metaforicamente de uma enfermidade, associada ao desejo e a imagem.

No caso de “Alma”, quando a garota se depara com uma boneca idêntica a ela numa vitrine, sente uma curiosidade inicial. Passa a querer “possuir” o objeto a qualquer custo. Mesmo percebendo que a boneca mudava de lugar durante a sua procura, ela ainda insistia em ao menos ter o prazer de tocá-la.

Será que ao vermos uma “boneca idêntica a nós”, ficamos com a sensação de que aquele objeto desfruta de sentimentos parecidos com os nossos? De que, finalmente encontramos alguém ou alguma coisa com quem podemos nos identificar?

Neste caso, não há como não associar a personagem ao mito de Narciso. Em sua história, o belo jovem apaixona-se por sua própria imagem e ao tentar beijá-la cai na água e se afoga. Quando o personagem mitológico encontra sua imagem refletida na água se vê revelado por meio do seu reflexo. Porém, por não conseguir diferenciar e compreender o que vê, confunde sua imagem projetada fora de si como um OUTRO que deseja possuir e seu encantamento faz com que isso lhe custe sua própria vida.

O mesmo ocorre com Alma, que encantada com a boneca idêntica a ela não resiste a querer possuí-la. Ao tocá-la, a personagem é transportada para dentro do objeto e quando percebe o ocorrido, de dentro da sua nova casa, entende que outras almas também foram roubadas. Uma nova boneca é elevada na vitrine, à espera da próxima vítima.

Como ficamos quando atingimos algo que queremos tanto? O que acontece naquele momento do encontro entre o desejo e o alvo desejado. O que no curta-metragem é explicitado quando a mão da “Alma” toca a boneca idêntica a ela?

O toque físico, o encontro entre a matéria e a alma, faz com que a personagem seja tragada para um corpo sem vida. Será que não é isto que acontece, no momento que nossas almas tocam algo material que queremos muito, sem ao menos pensar o porquê queremos?

Hoje em dia, com a facilidade de acesso a tudo, acabamos nos confundindo entre o queremos e o que realmente necessitamos para a nossa sobrevivência. Aquele carro de luxo, a casa dos sonhos, os brinquedos mais variados e tecnológicos que nossos filhos tanto querem ou uma sensação de euforia e de adrenalina extremas que podem ser buscadas no consumo de substâncias psicoativas ou aventuras radicais. Objetos e situações em que depositarmos toda nossa felicidade. Quanto mais desejamos algo de fora de nós, menos estamos conectados com nossa essência.

Para C. J. Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro, desperta.”

No curta, a garota olha para fora, a procura da boneca em quem ela depositou toda sua esperança, ao invés de sentir e procurar o que dentro dela poderia satisfazê-la. Ela poderia somente apreciar o fato de que existia uma boneca igual a ela. Mas, isto não era suficiente. Ela queria tomar posse daquele material parecido com ela. E ao possuir é possuída, perde o controle e a sua liberdade.

Na psicologia Junguiana, a palavra alma é compreendida como a totalidade humana, fonte de todo e qualquer princípio de vida e ação (Chevalier). A personagem perde sua capacidade de ação ao ser levada para dentro da boneca.

Nossa alma fica aprisionada quando ficamos enredados em gaiolas invisíveis de insegurança, medo e falta de amor próprio e projetamos fora de nós a solução para nossos conflitos e necessidades de amor e pertencimento.

Bibliografia:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 1986, V. 2.

CHEVALIER, J. GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos – Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 24ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000.

Corso, D. L. & Corso, M. Fadas no divã: Psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.

JUNG, C. G. Obras Completas. 7ª Edição. Petrópolis: Vozes, [1971], 2011

TASHEN. Livro dos símbolos: Reflexões sobre Imagens Arquetípicas. Tashen, 2012.

Autoras:

marcela alice biancoMarcela Alice Bianco – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana formada pela UFSCar. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Sedes Sapientiae. CRP: 06/77338

 

marina reinchenberMarina Pilar Reichenberger – Psicóloga e Psicoterapeuta graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pós-graduada em Aconselhamento em Saúde Mental com especialidade em Terapia Expressiva pela Lesley University nos EUA. CRP: 06/ 119769

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