Um retorno à casa da infância

Não é por acaso que quando retornamos à casa onde crescemos, tudo parece menor. Os cômodos são vistos por diferentes perspectivas e o que parecia uma caverna secreta sob a escada, nada mais é do que um pequeno vão estrutural.

Assim como a nossa visão da casa transmuta-se em novas formas, mudam também as memórias e os sentimentos relacionados a elas.

Na casa da minha infância, o pai não era bem-vindo. Como ele sempre teve seus negócios em outros estados, sua chegada era um momento de tristeza e perda da liberdade para brincar e sonhar sem censura. Muitas de suas falas eram brindadas com um sorriso irônico e palavras de desdém e humor debochado que sempre desvalorizava a esposa e aos filhos. Era daquele tipo clássico: bom para as pessoas de fora e ruim para a família.

Apesar de tudo, havia em sua chegada uma esperança que surgia da minha ingenuidade infantil: ganhar um brinquedinho novo! Do sofá da sala, ele ouvia meus pedidos. Às vezes comprava, em outras, negava e em outras ainda, em atitude de humilhação, amassava a uma nota de dinheiro e jogava para eu correr pegar. Minha mãe, já com o olhar de sonho desgastado, intervinha e interrompia o ciclo do abuso. Com seu salário suado de professora, dava um jeito e comprava o brinquedinho, assim como sustentava a casa sozinha.

Na época, a sequência de atitudes como essa, traçava suas marcas na carne, mas o tempo apaga os rancores e, das lembranças de maior crueldade, só restou o desinteresse afetivo pela figura paterna.

Naquela casa, entretanto, existia amor de mãe e, atravessando a rua, todo o aconchego do afeto dos avós. Embora também não houvesse cumplicidade fraterna, pois a irmã saiu ao pai, no quintal reinava um espaço de sonhos para satisfazer a imaginação de qualquer criança. Muita terra, galinheiro, balanço na árvore. A distração das tardes era seguir carreira de formiga, brincar com os gatos e fazer expedições aos pontos mais distantes do quintal – desafiando todo o medo que a empreitada exigia. Com relação ao taquaral, a mãe avisava do risco de cobra ou de alguém escondido. Mas sabe como é criança, vai onde não pode e vê para crer. Quem construiu o balanço? Claro que foi o avô!

No quintal da minha infância, desvendei mistérios, encontrei pedras que, para mim, eram preciosas, testei os limites do fogo, tive contato e respeito pela natureza em encontros com lagartos, cobras, gambazinhos e um dia até um tatu-bola que pensei ser um gato enrolado. Cresci, balançando em pé de ameixa, comendo a goiaba na árvore e fazendo milhares de bolinhos de barro. Eram bem servidas as minhas bonecas.

Crescer, trouxe a consciência das atitudes perversas, mas como um plano distante. Não há perfeição em família e é só essa compreensão que permite que o espaço vago seja destinado ao cultivo de pequenas margaridas. Onde um dia foi encontrada terra seca e infértil, é possível achar os caminhos para a criação dos sonhos pelo afeto que transborda de outros familiares. No brincar, extravasar frustrações e construir novos sonhos. Em outras pessoas queridas, encontrar as figuras substitutas que nos regam com amor e exemplo.

Para olhos tristes, violetas na janela. Para o suspiro pesado do desabafo, brisa com cheiro de mato. Para os momentos tensos, abraço de mãe e o mimo dos avós.

Passeando pela casa da minha infância, conheci nuanças da maldade humana, mas, encontrei abrigo na fantasia e na proteção familiar. As marcas não tão bonitas de desamor paterno cicatrizaram devagarinho. Não sei exatamente se trouxeram alguma maturidade, mas, com certeza banharam-me de poesia.

Hoje já não há pai, mas, a casa continua repleta de sonhos.

Josie Conti

JOSIE CONTI é psicóloga com enfoque em psicoterapia online, idealizadora, administradora e responsável editorial do site CONTI outra e de suas redes sociais. Sua empresa ainda faz a gestão do site Psicologias do Brasil. Contato para Atendimento Psicoterápico Online e EMDR com Josie Conti pelo WhatsApp: (55) 19 9 9950 6332

Recent Posts

Um dia ele foi o queridinho de Hollywood, agora, aos 41 anos, está irreconhecível, com chifres de diabo tatuados na testa

Redmond O’Neal nasceu cercado por dois dos nomes mais conhecidos do entretenimento americano. Filho único…

19 horas ago

Casal cristão acolhe e adota bebê sobrevivente de pais que tinham ‘coisas melhores para fazer’ do que alimentá-lo

Quando LeAnne e Eric Stadler receberam uma ligação dos serviços de proteção à infância, em…

19 horas ago

Sofreu um AVC na infância e tinha pais horríveis: hoje é uma grande estrela com fortuna de 440 milhões de dólares

Judith Susan Sheindlin se tornou conhecida por milhões de pessoas como Judge Judy, a juíza…

20 horas ago

Essas bolhas escuras na pizza chamam atenção, mas não significam o que muita gente pensa

Quem costuma pedir pizza provavelmente já reparou em pequenas áreas estufadas e douradas espalhadas pelo…

23 horas ago

Qual desses seis sapatos você escolheria primeiro? A resposta pode ter mais significado do que parece

Algumas escolhas são feitas quase no automático. Basta olhar uma vitrine, uma foto ou uma…

24 horas ago

Você pode resolver todas as contas certas e ainda errar este enigma por um único detalhe

À primeira vista, o desafio parece exigir apenas algumas contas básicas. São fones de ouvido,…

1 dia ago