Celebridades

Chamado de cópia de Roberto Carlos, ele virou ídolo nacional e morreu cedo demais, aos 36 anos

Em 1968, enquanto Roberto Carlos começava a explorar novos caminhos musicais, outro cantor de voz semelhante ganhava espaço nas rádios brasileiras. Seu nome era Paulo Sérgio, um capixaba que conquistou milhares de admiradores com interpretações românticas e se tornou um dos grandes vendedores de discos de sua geração.

A semelhança com o Rei, entretanto, transformou sua ascensão em motivo de controvérsia. Acusado de copiar o estilo do artista mais popular da época, Paulo Sérgio enfrentou críticas na imprensa e chegou a ser confrontado publicamente em programas de televisão.

Apesar da resistência de parte do meio artístico, construiu uma carreira de sucessos. Sua trajetória terminou em 29 de julho de 1980, quando morreu aos 36 anos, vítima de um derrame cerebral. A notícia causou comoção entre os fãs e deu origem a rumores que continuariam circulando por décadas.

Da alfaiataria do pai aos primeiros discos

Paulo Sérgio de Macedo nasceu em 10 de março de 1944, na cidade de Alegre, no Espírito Santo. Filho do alfaiate Carlos Beath de Macedo e de Hilda Paula de Macedo, cresceu em uma família numerosa e teve contato com a profissão paterna ainda criança.

A música, porém, despertou seu interesse muito cedo. Segundo relatos biográficos, ele tinha apenas seis anos quando participou de um concurso de calouros organizado durante a visita de uma caravana artística à sua cidade. Sua apresentação agradou e abriu caminho para que passasse a cantar em festas e eventos locais.

A família se mudou posteriormente para o Rio de Janeiro, onde o jovem dividiu seu tempo entre os estudos, o trabalho e as apresentações musicais. No bairro de Brás de Pina, chegou a cantar em atividades recreativas ao lado de Wanderléa, que também se tornaria conhecida nacionalmente durante a Jovem Guarda.

A oportunidade de gravar surgiu em 1967, na gravadora Caravelle. Uma versão bastante difundida sobre sua descoberta conta que Paulo Sérgio havia ido ao local para acompanhar um amigo em um teste. Ao saberem que ele também cantava, os responsáveis decidiram ouvi-lo.

O resultado foi um contrato e o lançamento de um compacto com as músicas “Benzinho” e “Lagartinha”. A primeira chamou a atenção do público e começou a abrir espaço para o novo intérprete.

O reconhecimento nacional viria pouco depois.

O sucesso de “Última Canção” e a comparação com Roberto Carlos

Composta por Carlos Roberto, “Última Canção” se transformou no grande marco da carreira de Paulo Sérgio. Lançada no final dos anos 1960, a gravação conquistou as rádios com uma interpretação carregada de emoção e uma letra sobre despedida amorosa.

Segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, o disco vendeu mais de 60 mil cópias em apenas três semanas. O desempenho colocou o cantor entre os nomes em ascensão da música popular e impulsionou sua presença em programas de auditório.

O sucesso veio acompanhado de uma discussão que ultrapassou as páginas das revistas de celebridades. A voz de Paulo Sérgio lembrava a de Roberto Carlos, assim como alguns aspectos de seu visual e de seu repertório.

Em uma época em que Roberto já era tratado como o Rei da música jovem, a chegada de outro intérprete com características semelhantes provocou reações intensas.

A revista Intervalo, em uma reportagem publicada em 1968 com o título “O Outro Roberto”, registrou a posição de Paulo Sérgio diante das acusações. O cantor reconhecia que a semelhança poderia ter favorecido sua popularidade, mas rejeitava a ideia de que tivesse construído deliberadamente a carreira copiando outro artista.

A situação chegou a ser particularmente desconfortável em uma participação no programa “Quem Tem Medo da Verdade”, da TV Record. Conforme uma reportagem da Intervalo de 1970, jurados questionaram duramente sua originalidade e o acusaram de reproduzir o estilo de Roberto Carlos.

Paulo Sérgio, por sua vez, continuou defendendo sua identidade artística e conquistando público. Na mesma reportagem, a revista descrevia auditórios lotados de admiradores que procuravam autógrafos e tentavam se aproximar do cantor.

A rivalidade ganhou outro capítulo em 1968, quando Roberto Carlos lançou o álbum “O Inimitável”. O título foi associado à presença de Paulo Sérgio no mercado musical.

Anos depois, o pesquisador Paulo César de Araújo, biógrafo de Roberto Carlos, afirmou em entrevista à Vice que o produtor Evandro Ribeiro havia confirmado a relação entre a escolha do nome do disco e o incômodo provocado pela semelhança entre os dois cantores.

Segundo o relato, o próprio Roberto não queria aquele título, mas o produtor insistiu na escolha.

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Um repertório que conquistou os ouvintes

Embora “Última Canção” tenha sido seu cartão de visitas, Paulo Sérgio emplacou diversas gravações ao longo dos anos seguintes.

Entre elas estavam “No Dia em Que Parti”, “Desiludido”, “Eu Te Amo Tanto, Tanto” e “Não Creio em Mais Nada”, esta última lembrada pela interpretação intensa e pelo tom de desencanto.

Seu repertório ajudou a popularizar uma vertente da música romântica brasileira que posteriormente seria associada ao chamado estilo brega. As letras abordavam relacionamentos, separações, saudade e frustrações amorosas em uma linguagem acessível, facilmente reconhecida pelos ouvintes.

A popularidade também lhe garantiu espaço na televisão. No final da década de 1960, chegou a integrar o elenco de atrações musicais ligadas a Silvio Santos, ampliando sua exposição nacional.

Ao longo dos anos 1970, continuou gravando discos e realizando apresentações. Mesmo com as mudanças no mercado musical e a chegada de novos artistas, manteve um público identificado com suas canções.

Fora dos palcos, Paulo Sérgio se casou com Raquel Telles Eugênio, em 1972. Dois anos depois, nasceu Rodrigo, seu filho, que acabaria participando de uma das homenagens póstumas mais conhecidas ao cantor.

Os últimos dias e a morte inesperada

No domingo, 27 de julho de 1980, Paulo Sérgio esteve nos estúdios da TV Bandeirantes, em São Paulo, para participar do programa apresentado por Bolinha, uma das atrações populares da televisão brasileira.

Naquele momento, ainda cumpria compromissos profissionais e fazia apresentações pelo país.

Os relatos sobre as horas que antecederam sua internação apresentam diferenças. Uma versão menciona uma discussão na saída da emissora, durante a qual uma mulher teria atirado uma pedra contra o para-brisa do carro do cantor. Outras reconstituições fazem referência a um incidente de trânsito.

Essas circunstâncias, entretanto, não estão suficientemente documentadas para estabelecer uma relação direta com o problema de saúde que o matou.

O que se relata com maior consistência é que Paulo Sérgio passou a sentir fortes dores de cabeça e teve seu estado de saúde agravado rapidamente.

Ele recebeu atendimento hospitalar em São Paulo, mas sofreu um derrame cerebral e entrou em coma. Morreu em 29 de julho de 1980, apenas dois dias depois de sua participação no programa de Bolinha.

Tinha 36 anos.

A morte interrompeu uma carreira iniciada profissionalmente em 1967 e deixou um filho de apenas seis anos. A despedida reuniu admiradores e colegas do meio artístico.

Depois do velório em São Paulo, o corpo foi levado ao Rio de Janeiro, onde foi sepultado no Cemitério do Caju, em 30 de julho de 1980.

A canção que o havia consagrado, “Última Canção”, ganhou um significado especial para os fãs que acompanharam sua despedida.

O boato de que teria sido enterrado vivo

Com o passar dos anos, uma versão perturbadora começou a circular sobre a morte de Paulo Sérgio: a de que ele teria sofrido um episódio de catalepsia, sido considerado morto por engano e sepultado ainda com vida.

A hipótese aparece em relatos populares e publicações sobre a vida do artista, mas não possui comprovação documental confiável.

Não há evidências médicas conhecidas que sustentem a afirmação de que Paulo Sérgio tenha sido enterrado vivo. Os registros biográficos consultados identificam o derrame cerebral como a causa de sua morte.

A circulação desse boato acabou acrescentando uma camada de especulação à biografia do cantor, embora os fatos conhecidos sobre sua internação e falecimento não confirmem essa narrativa.

A homenagem que reuniu pai e filho seis anos depois

Em 1986, a memória de Paulo Sérgio ganhou um capítulo especialmente significativo para sua família.

O projeto musical “Paulo Sérgio & Amigos” reuniu artistas em uma homenagem póstuma e contou com a participação de Rodrigo, que tinha 12 anos na época.

Por meio de recursos de gravação em estúdio, a voz do menino foi combinada à do pai na música “Quero Ver Você Feliz”.

O resultado permitiu que os dois dividissem uma gravação mesmo depois da morte do cantor. Rodrigo, que havia perdido o pai ainda criança, participou da homenagem cantando sobre a saudade, enquanto a interpretação original de Paulo Sérgio permanecia preservada.

Décadas depois de seu falecimento, gravações como “Última Canção”, “Não Creio em Mais Nada” e “Eu Te Amo Tanto, Tanto” continuam disponíveis em relançamentos e plataformas digitais. Em novembro de 2024, o Jornal da USP dedicou uma edição do programa Mosaicos Culturais ao artista, destacando a dimensão existencial de suas canções e sua importância para a música romântica brasileira.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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