Algumas lembranças parecem pertencer ao passado, mas continuam despertando medo, tristeza, ansiedade ou desconforto no presente. Por que isso acontece? E de que maneira a terapia EMDR pode ajudar no processamento dessas experiências?
A psicóloga Josie Conti aborda o tema do trauma e das memórias dolorosas a partir de uma perspectiva que considera a relação entre experiências vividas, emoções e formas de processamento da memória. Entender esse funcionamento pode ser um primeiro passo para compreender por que determinadas situações permanecem emocionalmente tão presentes.
Nem toda memória é armazenada e acessada da mesma maneira. Experiências que envolvem situações de ameaça, medo intenso, perdas ou outros acontecimentos emocionalmente marcantes podem permanecer associadas a sensações, emoções e pensamentos negativos.
Por isso, uma pessoa pode saber racionalmente que determinado acontecimento terminou, mas ainda sentir como se parte daquela experiência estivesse acontecendo no presente.
Uma lembrança pode ser ativada por uma situação aparentemente simples: uma música, um cheiro, uma conversa, um lugar ou até mesmo uma sensação corporal. O gatilho atual pode trazer de volta emoções relacionadas à experiência original.
Quando falamos em trauma psicológico, é importante considerar não apenas o acontecimento em si, mas também a maneira como ele foi vivido e processado pela pessoa.
Duas pessoas podem passar por situações semelhantes e apresentar respostas completamente diferentes. Enquanto uma consegue integrar a experiência à sua história de vida, outra pode permanecer profundamente afetada pelo acontecimento.
Isso ajuda a explicar por que frases como “isso já passou” ou “você precisa esquecer” raramente são suficientes para eliminar o sofrimento associado a uma memória.
O objetivo não é simplesmente apagar uma lembrança, mas possibilitar que ela seja integrada de uma maneira menos dolorosa.
A terapia EMDR, sigla para Eye Movement Desensitization and Reprocessing — em português, Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares — é uma abordagem psicoterapêutica utilizada no tratamento de traumas e outras experiências emocionalmente perturbadoras.
Durante o processo terapêutico, o profissional ajuda o paciente a acessar determinados aspectos da experiência enquanto utiliza procedimentos específicos de estimulação bilateral, que podem envolver movimentos oculares ou outras formas de estimulação.
A proposta é favorecer o processamento de memórias que permanecem associadas a respostas emocionais intensas.
Um dos objetivos do EMDR é ajudar a pessoa a modificar a forma como uma memória perturbadora é vivenciada.
Isso não significa apagar o acontecimento. A lembrança continua fazendo parte da história da pessoa, mas pode deixar de provocar a mesma intensidade de sofrimento.
Com o tratamento, determinadas pessoas passam a conseguir pensar sobre uma experiência difícil sem sentir que estão novamente dentro dela. Pensamentos negativos associados ao acontecimento também podem ser trabalhados durante a terapia.
Falar em “ressignificar” uma experiência traumática não significa transformar algo doloroso em algo positivo ou fingir que aquilo não aconteceu.
A ideia é permitir que a experiência seja compreendida e integrada de uma maneira diferente, reduzindo o impacto que ela exerce sobre o presente.
Uma pessoa que antes pensava “eu estou em perigo” pode, por exemplo, desenvolver uma percepção mais compatível com a realidade atual: “aquilo aconteceu, mas agora estou segura”.
Essa mudança pode envolver pensamentos, emoções, sensações corporais e comportamentos.
Gatilhos emocionais são estímulos que podem ativar respostas relacionadas a experiências anteriores.
Um cheiro, uma expressão facial, uma determinada situação ou até uma sensação corporal pode funcionar como um lembrete da experiência original. Nem sempre a pessoa identifica conscientemente essa conexão.
É por isso que alguém pode reagir de maneira aparentemente desproporcional a uma situação cotidiana. A intensidade da resposta pode estar relacionada não apenas ao que está acontecendo agora, mas também ao significado que aquela situação adquiriu a partir de experiências anteriores.
O EMDR é especialmente conhecido por sua aplicação no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático e de experiências traumáticas. A utilização da abordagem, entretanto, pode fazer parte do tratamento de diferentes demandas clínicas, dependendo da avaliação do profissional.
A indicação deve ser individualizada. Nem toda pessoa ou situação exige o mesmo tipo de intervenção, e o tratamento psicoterapêutico precisa considerar a história, as necessidades e as condições atuais de cada paciente.
Conviver durante muito tempo com uma memória dolorosa pode afetar relacionamentos, autoestima, sono, concentração e qualidade de vida.
Quando uma experiência do passado continua interferindo significativamente no presente, buscar avaliação de um profissional de saúde mental pode ajudar a compreender o que está acontecendo e quais caminhos terapêuticos são mais adequados.
A terapia não muda o que aconteceu. O que pode mudar é a maneira como essa experiência continua sendo vivida.
A reflexão proposta por Josie Conti sobre EMDR e memórias dolorosas chama atenção para uma questão fundamental: algumas experiências não deixam de afetar uma pessoa simplesmente porque o tempo passou.
Compreender a relação entre trauma, memória e emoções pode abrir espaço para novas formas de cuidado. Em vez de lutar para esquecer o passado, a psicoterapia pode ajudar a pessoa a construir uma relação diferente com aquilo que viveu.
No caso da terapia EMDR, o foco está no processamento de experiências que permanecem perturbadoras, sempre dentro de um processo conduzido por um profissional capacitado.
Por que algumas memórias continuam doendo? Porque determinadas experiências podem permanecer associadas a emoções, pensamentos e respostas corporais que continuam sendo ativadas no presente.
A terapia EMDR é uma das abordagens utilizadas para trabalhar essas experiências e pode ajudar algumas pessoas a processar memórias traumáticas de maneira menos perturbadora.
Mais do que esquecer o passado, a possibilidade é poder lembrá-lo sem continuar vivendo suas consequências da mesma forma.
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