Psicologia-diversos

Terapia EMDR: uma abordagem para se libertar do peso dos traumas

Algumas experiências terminam no calendário, mas continuam acontecendo dentro da pessoa. Um acidente já passou, uma relação abusiva terminou há anos, uma situação de violência ficou para trás ou uma perda aconteceu em outra fase da vida. Ainda assim, determinadas imagens, sensações, medos e reações parecem permanecer tão intensos como se o perigo estivesse presente.

É justamente nesse território que a terapia EMDR ganhou espaço nas últimas décadas.

Sigla para Eye Movement Desensitization and Reprocessing, ou Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, o EMDR é uma abordagem psicoterapêutica utilizada principalmente no tratamento de experiências traumáticas e do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Mais do que simplesmente conversar sobre aquilo que aconteceu, a proposta é favorecer o processamento de memórias que continuam associadas a sofrimento emocional intenso.

Nesse sentido, falar no EMDR como uma abordagem “libertadora” não significa prometer que uma lembrança será apagada. A libertação possível é outra: lembrar sem continuar vivendo emocionalmente aquela experiência como se ela estivesse acontecendo agora.

O que é a terapia EMDR?

O EMDR é uma abordagem estruturada de psicoterapia desenvolvida originalmente pela psicóloga norte-americana Francine Shapiro no final da década de 1980.

Durante o tratamento, determinadas lembranças relacionadas a acontecimentos perturbadores podem ser trabalhadas enquanto o paciente realiza uma forma de estimulação bilateral.

Os movimentos dos olhos de um lado para o outro são provavelmente a característica mais conhecida do método, mas não são a única possibilidade. Dependendo da situação e da técnica empregada pelo profissional, também podem ser utilizados estímulos alternados, como toques ou sons.

As diretrizes britânicas do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), por exemplo, descrevem o emprego repetido de estimulação bilateral durante as sessões de EMDR, normalmente por movimentos oculares, podendo também ser utilizados toques ou sons quando apropriado.

O objetivo não é provocar esquecimento. A memória continua existindo.

O que pode mudar é a maneira como aquela experiência é sentida e interpretada.

Por que uma lembrança do passado ainda pode provocar tanto sofrimento?

Uma memória comum pode ser desagradável e, mesmo assim, ser claramente reconhecida como parte do passado.

Experiências traumáticas, por outro lado, podem permanecer associadas a imagens, pensamentos, emoções e sensações corporais extremamente intensas.

Por isso, determinados estímulos do presente podem funcionar como gatilhos.

Um cheiro, uma frase, uma discussão, determinado lugar, uma notícia, uma pessoa fisicamente parecida com alguém do passado ou até uma sensação corporal podem despertar medo, angústia ou estado de alerta.

Em alguns casos, a reação parece desproporcional ao que está acontecendo naquele momento justamente porque parte da resposta emocional está ligada a uma experiência anterior.

É nesse contexto que o EMDR busca favorecer o reprocessamento das lembranças traumáticas.

EMDR não significa apagar o trauma

Existe uma diferença importante entre apagar uma memória e diminuir o sofrimento provocado por ela.

O EMDR não pretende fazer alguém esquecer aquilo que viveu.

Uma pessoa que sofreu um acidente continuará sabendo que sofreu o acidente. Quem perdeu alguém continuará lembrando daquela pessoa. Quem passou por violência continuará conhecendo sua própria história.

A mudança esperada é que a recordação possa deixar de provocar a mesma intensidade emocional.

A pessoa pode passar de uma experiência interna semelhante a:

“Estou novamente em perigo.”

para uma percepção muito mais compatível com a realidade presente:

“Aquilo aconteceu comigo, mas terminou.”

Essa diferença pode parecer pequena quando escrita em duas frases. Psicologicamente, porém, ela pode ser enorme.

É justamente aí que surge a ideia de libertar-se do peso do trauma sem precisar apagar a própria história.

A Organização Mundial da Saúde recomenda EMDR?

Sim, com uma ressalva importante que costuma desaparecer quando o assunto chega às redes sociais: as recomendações da Organização Mundial da Saúde estão relacionadas especialmente ao tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Na atualização de 2023 de suas recomendações, a Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui o EMDR entre as intervenções psicológicas que devem ser consideradas para adultos com TEPT.

Para crianças e adolescentes com TEPT, a OMS também inclui EMDR entre as intervenções psicológicas recomendadas, classificando a recomendação desse conjunto de intervenções como forte e a certeza das evidências como moderada.

Esse detalhe é importante porque evita uma conclusão exagerada.

O reconhecimento da OMS não significa que todo sofrimento emocional deva ser tratado com EMDR ou que a técnica seja automaticamente indicada para qualquer pessoa. Significa que existe evidência científica suficiente para que a abordagem faça parte das opções terapêuticas recomendadas para situações específicas, particularmente o TEPT.

Outros órgãos e instituições também reconhecem o EMDR

A presença do EMDR em diretrizes clínicas não se limita à Organização Mundial da Saúde.

NICE, do Reino Unido

O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), órgão britânico responsável pela elaboração de diretrizes clínicas baseadas em evidências, recomenda EMDR no tratamento de adultos com diagnóstico ou sintomas clinicamente importantes de TEPT em determinadas situações.

Para adultos que apresentam TEPT por mais de três meses após um trauma não relacionado a combate, a diretriz determina que o EMDR seja oferecido como possibilidade de tratamento.

O NICE também estabelece critérios para sua realização, incluindo tratamento realizado por profissionais treinados, abordagem estruturada, psicoeducação, manejo do sofrimento relacionado às memórias e utilização de estimulação bilateral.

Departamento de Assuntos de Veteranos e Departamento de Defesa dos Estados Unidos

As diretrizes clínicas conjuntas do Department of Veterans Affairs e Department of Defense dos Estados Unidos (VA/DoD), atualizadas em 2023, também colocam o EMDR entre as psicoterapias recomendadas para o TEPT.

Ao lado do EMDR aparecem abordagens como a Terapia de Processamento Cognitivo (Cognitive Processing Therapy – CPT) e a Exposição Prolongada (Prolonged Exposure – PE).

A recomendação tem especial relevância porque essas diretrizes são elaboradas a partir de revisão sistemática das evidências disponíveis sobre o tratamento do transtorno.

International Society for Traumatic Stress Studies

Outra instituição relevante é a International Society for Traumatic Stress Studies (ISTSS), organização internacional especializada no estudo e tratamento do trauma psicológico.

Suas diretrizes classificam o EMDR entre as intervenções com forte recomendação para o tratamento de adultos com TEPT, juntamente com outras psicoterapias focadas no trauma.

Portanto, não se trata simplesmente de uma técnica popularizada por terapeutas ou pelas redes sociais. O EMDR está presente em diferentes diretrizes internacionais fundamentadas em pesquisa científica.

Para quais traumas o EMDR pode ser utilizado?

Embora a produção científica e as principais recomendações institucionais sejam particularmente robustas para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, profissionais capacitados podem avaliar o emprego da abordagem em pessoas que apresentam sofrimento relacionado a diferentes experiências potencialmente traumáticas.

Entre elas podem estar:

  • acidentes;
  • violência física;
  • violência sexual;
  • relacionamentos abusivos;
  • situações de abandono;
  • experiências de humilhação;
  • bullying;
  • perdas traumáticas;
  • situações de ameaça;
  • desastres;
  • experiências médicas difíceis;
  • acontecimentos traumáticos vividos durante a infância;
  • exposição a episódios de violência.

Nem toda pessoa que passa por uma dessas situações desenvolverá TEPT.

Da mesma forma, ter vivido um acontecimento doloroso não significa automaticamente que o EMDR seja a abordagem mais indicada. A avaliação clínica individual continua sendo indispensável.

Como funciona uma sessão de EMDR?

O tratamento não começa simplesmente colocando o paciente para movimentar os olhos enquanto pensa no pior momento de sua vida, embora versões simplificadas da técnica na internet às vezes façam parecer exatamente isso. Psicoterapia seria consideravelmente mais fácil se seres humanos funcionassem como arquivos que bastasse arrastar para a lixeira.

O EMDR é uma abordagem estruturada.

Antes do reprocessamento propriamente dito, o profissional precisa conhecer a história da pessoa, avaliar suas necessidades, estabelecer objetivos terapêuticos e analisar se existem condições adequadas para iniciar o trabalho com determinadas memórias.

O processo tradicional do EMDR é organizado em diferentes fases, envolvendo aspectos como:

levantamento da história e planejamento do tratamento;

preparação do paciente;

identificação das memórias que serão trabalhadas;

avaliação de imagens, pensamentos, emoções e sensações associadas à experiência;

dessensibilização e reprocessamento;

fortalecimento de cognições mais adaptativas;

observação das respostas corporais;

encerramento e reavaliação.

Isso ajuda a entender por que EMDR não deve ser reduzido simplesmente aos movimentos dos olhos.

A estimulação bilateral faz parte da técnica, mas existe todo um protocolo psicoterapêutico ao redor dela.

Como acontece o reprocessamento de uma memória?

Durante determinadas etapas, o paciente pode ser orientado a acessar aspectos específicos de uma experiência perturbadora enquanto realiza séries de estimulação bilateral.

Entre uma série e outra, o terapeuta acompanha o que surge.

Podem aparecer novas lembranças, pensamentos, emoções, imagens, associações ou modificações na intensidade do sofrimento.

Ao longo do processamento, aquilo que inicialmente parecia emocionalmente presente pode começar a ser percebido de maneira diferente.

Não significa convencer racionalmente alguém de que “está tudo bem”.

Uma pessoa pode saber intelectualmente durante anos que determinada situação terminou e, ainda assim, continuar reagindo emocionalmente como se estivesse ameaçada.

O trabalho terapêutico busca justamente diminuir essa distância entre saber racionalmente que acabou e sentir emocionalmente que acabou.

O que significa se libertar de um trauma?

Libertar-se não é esquecer.

Também não significa passar a considerar aceitável aquilo que aconteceu.

A recuperação pode aparecer de formas muito mais concretas:

lembrar-se sem entrar imediatamente em estado de alerta;

falar sobre determinado acontecimento sem sentir a mesma intensidade emocional;

perceber que a situação pertence ao passado;

diminuir comportamentos de evitação;

questionar crenças negativas construídas a partir da experiência;

deixar de interpretar determinadas situações atuais exclusivamente pelas lentes do trauma.

Uma pessoa que desenvolveu a crença “não estou segura” após uma situação de violência, por exemplo, pode intelectualmente saber que atualmente se encontra protegida e ainda assim experimentar medo constante.

O reprocessamento busca permitir que informações mais adaptativas tenham espaço.

A história não muda.

A relação emocional com a história pode mudar.

O EMDR funciona para traumas antigos?

Uma dúvida comum é imaginar que traumas ocorridos há muitos anos estariam definitivamente cristalizados.

O tempo transcorrido, isoladamente, não determina se uma memória pode ou não ser trabalhada em psicoterapia.

Experiências da infância, adolescência ou de décadas anteriores podem continuar influenciando emoções, crenças e comportamentos no presente.

Por isso, a avaliação terapêutica considera menos a pergunta “há quanto tempo aconteceu?” e mais questões como:

  • o que aquela experiência representa atualmente?
  • quais emoções continuam associadas a ela?
  • existem gatilhos?
  • quais crenças foram construídas a partir daquela vivência?
  • quanto essa memória ainda interfere na vida atual?

Uma experiência antiga pode continuar psicologicamente muito presente.

EMDR pode ser realizado online?

O atendimento psicológico remoto ampliou consideravelmente o acesso à psicoterapia, inclusive para pessoas que vivem longe de profissionais especializados ou brasileiros residentes em outros países.

O EMDR também pode ser adaptado ao contexto online quando o profissional considera que existem condições clínicas e técnicas adequadas.

Nesse formato, diferentes estratégias de estimulação bilateral podem ser empregadas.

Entretanto, assim como no atendimento presencial, o principal não é simplesmente reproduzir movimentos oculares diante de uma tela.

A qualidade do tratamento depende da avaliação do caso, preparação, acompanhamento clínico e formação adequada do terapeuta em EMDR.

Quem pode se beneficiar da terapia EMDR?

Não existe uma resposta universal.

Duas pessoas podem passar por acontecimentos semelhantes e desenvolver respostas psicológicas completamente diferentes.

A indicação precisa levar em conta fatores como:

  • natureza da experiência traumática;
  • sintomas presentes;
  • estabilidade emocional;
  • capacidade de regulação;
  • presença de outros transtornos;
  • histórico psicológico;
  • condições atuais de segurança;
  • objetivos do tratamento.

Por isso, assistir a vídeos sobre EMDR ou identificar-se com relatos de outras pessoas não substitui uma avaliação profissional.

Como escolher um profissional para fazer EMDR?

O primeiro cuidado é procurar um profissional de saúde mental legalmente habilitado e com formação específica na abordagem EMDR.

Também vale perguntar sobre:

  • formação profissional;
  • experiência com trauma psicológico;
  • capacitação específica em EMDR;
  • experiência com casos semelhantes;
  • organização e objetivos do tratamento;
  • funcionamento das sessões;
  • acompanhamento e reavaliação da evolução.

Uma abordagem reconhecida cientificamente continua dependendo de uma aplicação clínica responsável.

O método importa. A qualificação de quem o utiliza também.

EMDR é uma solução rápida para qualquer trauma?

Não.

Embora existam casos nos quais determinadas memórias apresentem mudanças importantes em poucas sessões, não existe quantidade universal de atendimentos.

O próprio NICE descreve que tratamentos com EMDR para TEPT em adultos costumam envolver aproximadamente 8 a 12 sessões, podendo ser necessários períodos maiores quando clinicamente indicado, inclusive diante de múltiplos traumas.

Histórias complexas exigem avaliações igualmente complexas.

Transformar a terapia em promessa de “cura do trauma em uma sessão” pode criar expectativas pouco realistas e não corresponde à maneira responsável de apresentar a abordagem.

EMDR: deixar o passado no passado sem precisar apagá-lo

Talvez uma das melhores maneiras de compreender a proposta do EMDR seja abandonar a ideia de que superar um trauma exige esquecer.

Nem sempre é possível esquecer. E nem sempre seria desejável.

Algumas experiências fazem parte da história de uma pessoa e continuarão fazendo.

O sofrimento aparece quando o passado parece continuar determinando automaticamente o presente.

O EMDR oferece uma possibilidade diferente: reprocessar a experiência para que aquilo que aconteceu possa ser lembrado como algo que aconteceu, e não continuamente sentido como algo que ainda está acontecendo.

Sua inclusão em recomendações internacionais da Organização Mundial da Saúde, NICE, VA/DoD e International Society for Traumatic Stress Studies demonstra que o método conquistou espaço relevante entre os tratamentos baseados em evidências para o TEPT.

Isso não transforma o EMDR em solução universal, nem dispensa avaliação profissional.

Mas mostra que existe ciência por trás de uma ideia que, para muitas pessoas, é profundamente significativa: o passado não precisa desaparecer para deixar de controlar o presente.

 

CONTI outra

As publicações do CONTI outra são desenvolvidas e selecionadas tendo em vista o conteúdo, a delicadeza e a simplicidade na transmissão das informações. Objetivamos a promoção de verdadeiras reflexões e o despertar de sentimentos.

Recent Posts

Mulher ignorou uma dor que parecia vir do sutiã e descobriu um câncer de cólon avançado

Uma dor localizada logo abaixo do seio direito parecia ter uma explicação banal para Radwah…

19 horas ago

O fotógrafo só percebeu o que havia registrado depois de revelar o negativo da foto de Diana

Uma fotografia de Diana em meio à chuva poderia passar despercebida no rolo de um…

2 dias ago

Depois de anos longe das telas, o astro de uma série policial famosa reapareceu muito diferente

Durante anos, David Caruso foi um daqueles rostos que pareciam inseparáveis da televisão. Seu jeito…

2 dias ago

Aos 79 anos, ela continua impressionando o público com uma beleza que atravessa gerações

Jacqueline Bisset chegou aos 79 anos mantendo uma característica que a acompanha desde o início…

2 dias ago

Uma ousada série fotográfica desafia os padrões de beleza em relação aos pelos femininos

Durante décadas, pelos nas axilas femininas foram tratados como algo que deveria ser escondido. A…

2 dias ago

Quantos rostos você consegue identificar nesta árvore? A resposta revelará um traço intelectual da sua personalidade

À primeira vista, há uma árvore diante dos seus olhos. Tronco, galhos, folhas e algumas…

2 dias ago