Antes de se tornar presença frequente em grandes produções de Hollywood, Jessica Chastain cresceu em uma família com sérias dificuldades financeiras na Califórnia. A atriz já contou que foi criada por uma mãe solteira e que, em determinados períodos da infância, faltava até comida em casa.
Décadas depois, Chastain conquistaria espaço entre os nomes mais reconhecidos de sua geração, com trabalhos em filmes como Histórias Cruzadas, A Hora Mais Escura e Interestelar. Em 2022, recebeu o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em Os Olhos de Tammy Faye.
O contraste entre essas duas fases de sua vida ajuda a explicar alguns dos temas que a atriz passou a abordar publicamente ao longo da carreira, entre eles desigualdade social, acesso à educação e oportunidades para mulheres.
Jessica Chastain nasceu em Sacramento, na Califórnia, em 24 de março de 1977. Em entrevistas, costuma ser bastante reservada ao falar sobre determinadas partes de sua infância e de sua estrutura familiar.
Ao The Irish Times, porém, ela descreveu esse período de maneira direta. Segundo Chastain, sua mãe trabalhou intensamente para sustentar a família e houve noites em que não havia comida suficiente em casa.
“Não tínhamos dinheiro”, afirmou na entrevista de 2017. Ela também relatou que, em várias ocasiões, a família precisou dormir sem comer.
A atriz cresceu em Sacramento ao lado da mãe e dos irmãos. Michael Hastey, bombeiro citado durante anos como seu pai, era na realidade seu padrasto. Reportagem do The Guardian também registrou a relação familiar complexa envolvendo Michael Monasterio, apontado como pai biológico de Chastain. A própria atriz, contudo, sempre evitou fazer afirmações definitivas sobre o assunto e disse que nenhum pai consta em sua certidão de nascimento.
Foi uma infância distante da estabilidade financeira normalmente associada à vida que ela teria anos mais tarde.
As dificuldades não ficaram restritas à situação econômica.
Chastain contou à revista Glamour que começou a enfrentar comentários cruéis ainda criança. Ruiva, com cabelo curto e muitas sardas, ela afirmou que, aos oito anos, ouvia diariamente na escola que era “feia” e que ninguém queria ser sua amiga.
O teatro acabou oferecendo um ambiente diferente.
Na mesma entrevista, Chastain explicou que sua vida mudou quando entrou para um grupo de teatro e encontrou outras pessoas com interesses semelhantes aos seus. A escola tradicional, por outro lado, nunca havia sido um ambiente no qual ela se sentisse particularmente adaptada.
Ela também contou ao The Irish Times que chegou a acreditar durante muito tempo que não era inteligente porque tinha dificuldades no ensino regular. Sua percepção começou a mudar quando passou a estudar disciplinas como filosofia e humanidades na Juilliard School, em Nova York.
Chastain tornou-se a primeira pessoa de sua família a frequentar uma universidade. Depois de ser aceita na Juilliard, uma das instituições de artes mais conhecidas dos Estados Unidos, surgiu um problema bem menos glamouroso: como pagar os estudos.
Nos primeiros anos, ela recorreu a empréstimos e ao apoio da família. A situação mudou quando recebeu uma bolsa financiada por Robin Williams, que havia estudado na própria Juilliard.
Em entrevista à CBS, Chastain disse que a ajuda permitiu que ela permanecesse na faculdade até a formatura. A bolsa cobria despesas que iam muito além das aulas e teve importância decisiva naquele período.
Os dois nunca chegaram a se conhecer pessoalmente.
Chastain enviou cartas agradecendo ao ator e, depois da morte de Williams, em 2014, afirmou publicamente que a ajuda dele havia mudado sua vida. O Los Angeles Times registrou que ela concluiu sua formação na Juilliard em 2003.
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O diploma de uma escola prestigiada não provocou uma entrada automática em Hollywood. Depois de concluir o curso, Chastain conseguiu pequenas participações na televisão e continuou trabalhando como atriz enquanto procurava oportunidades maiores.
Um ponto importante veio quando Al Pacino a escalou para interpretar Salomé em uma montagem da peça de Oscar Wilde. O trabalho ampliou sua exposição profissional e acabou rendendo também uma versão para o cinema.
Seu crescimento nas telas se tornou especialmente evidente em 2011.
Naquele período, ela apareceu em produções como A Árvore da Vida, O Abrigo e Histórias Cruzadas. Este último lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, na categoria de atriz coadjuvante.
No ano seguinte, interpretou Maya, agente da CIA no centro da operação retratada em A Hora Mais Escura. A atuação resultou em nova indicação ao Oscar, desta vez como protagonista, e lhe deu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama em 2013.
Em poucos anos, uma atriz que havia passado boa parte da carreira fazendo trabalhos relativamente discretos passou a ocupar papéis centrais em produções de grande orçamento.
Em 2014, Chastain participou de Interestelar, dirigido por Christopher Nolan, no papel da versão adulta de Murph, filha do personagem interpretado por Matthew McConaughey.
Vieram depois filmes como Perdido em Marte, A Colina Escarlate, Armas na Mesa, A Grande Jogada e O Enfermeiro da Noite. Paralelamente, ela manteve trabalhos no teatro e na televisão.
O reconhecimento mais importante da carreira no cinema chegou com Os Olhos de Tammy Faye. No longa, Chastain interpretou a televangelista Tammy Faye Bakker, trabalho que lhe garantiu sua terceira indicação ao Oscar.
Na cerimônia realizada em 27 de março de 2022, ela venceu a categoria de Melhor Atriz.
A conquista aconteceu pouco mais de duas décadas depois de sua entrada na Juilliard e após duas indicações anteriores sem vitória.
Sua trajetória profissional também trouxe outros reconhecimentos. Em 2012, quando seu crescimento em Hollywood ainda era recente, Chastain foi incluída pela revista Time na lista das 100 pessoas mais influentes daquele ano.
Ao longo da carreira, ela passou ainda a se posicionar sobre disparidade salarial e oportunidades para mulheres dentro da indústria cinematográfica. Em entrevista ao The Irish Times, defendeu que atores e atrizes com níveis equivalentes de experiência e carga de trabalho deveriam receber salários equivalentes.
A própria atriz costuma relacionar parte dessa visão à realidade econômica que conheceu quando criança. Mesmo depois de alcançar estabilidade profissional, ela continuou falando publicamente sobre os anos em que dinheiro e oportunidades eram questões concretas dentro de sua família.
A ajuda que recebeu no começo da carreira também permaneceu como uma referência pessoal. Ao recordar a bolsa financiada por Robin Williams, Chastain afirmou que pretendia usar aquela experiência como incentivo para ajudar outras pessoas, da mesma maneira que alguém que ela sequer conhecia havia contribuído para que ela terminasse a faculdade.
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