Por Nara Rúbia Ribeiro

Quando crianças, somos tomados pela alegria das incessantes descobertas. Nesse tempo, o deslumbramento nos instiga a sondar e a conhecer, a tocar o não sabido, a explorar o incerto. Na medida em que vamos crescendo, tomamos um caminho contrário. Cercamo-nos de certezas diversas na ilusão de que essa redoma nos deixará seguros. Então passamos a desejar que o conhecido e amado se perpetue no tempo e no espaço, e nos fechamos para o novo.

Passamos, assim, a escolher caminhos com a intenção de perenidade, firmamos compromissos com prazos a perder de vista, desenhamos o nosso destino, celebramos contratos, juramos amores selados de eternidade. Contudo, todo para sempre é provisório. Os planos, as metas, as juras eternas, eles são o cenário perfeito para que a vida se mostre maior do que toda e qualquer previsão.

É que o verdadeiro viver só acontece no improviso. Ele acontece quando um “quase”  nos resvala a alma. Quando um “se” nos exaspera. Quando você olha um desconhecido e percebe que ele o observa e que os olhos dele brilham. Quando você finalmente constata que a profissão dos seus sonhos não era tão a profissão dos seus sonhos assim e que você pode criar alternativas. Ele acontece quando tudo transborda ou quando tudo falta, e você sente que algo dentro de si se agiganta e que você pode ser maior do que é.

A vida não tem relógio de ponto. Não se apresenta de hora marcada. Ela não vem com manuais. Não tem garantias. Mas é  uma aventura a ser levada a sério, pois tudo só é  enquanto não se esvair. E tudo se esvai de nós, embora em nós ainda possa eternizar-se.

O bonito é regressar às infâncias e ver, com a maturidade dos nossos olhos já vividos, que existe beleza nesse caos. Perceber que existem flores e perfumes nesse tumulto. Saber que não fomos feitos para o tédio, que não nascemos para ser mornos. Certamente se a beleza de ontem fosse eterna já não encontraria o mesmo eco em nossas almas. Afinal, aquele que em nós viveu já não é vivo. Somos, a cada dia, a nossa mais nova reinvenção.

Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

Nara Rúbia Ribeiro

Escritora, advogada e professora universitária.

Recent Posts

Josie Conti explica: por que algumas memórias continuam doendo?

Algumas lembranças parecem pertencer ao passado, mas continuam despertando medo, tristeza, ansiedade ou desconforto no…

15 horas ago

Ele tomou 4L de água por dia durante um ano e o efeito no corpo surpreendeu médicos

O que 4 litros de água por dia durante 365 dias fizeram com o corpo…

3 dias ago

Você lembra da menina mais bonita do mundo? Ela cresceu, se casou e as fotos impressionam

A menina mais bonita do mundo cresceu: veja como ela estava no dia em que…

3 dias ago

Você provavelmente já fez algumas destas coisas que a Bíblia condena sem saber

Você faz alguma delas? A Bíblia condena atitudes que hoje parecem completamente normais

3 dias ago

Você desperta, tenta se mexer, mas nada acontece: o motivo pode ser mais comum do que parece

Já sentiu o corpo travado ao acordar, mesmo estando consciente? Veja o que isso significa

3 dias ago

Homem que vivia tendo acessos de raiva desabou ao ver o que médicos encontraram em seu cérebro

Ele sofria com explosões de raiva sem explicação até uma imagem do cérebro revelar algo…

3 dias ago