Você abre os olhos, percebe o quarto, sabe que está acordado e tenta virar o corpo. Nada acontece. Tenta chamar alguém, mas a voz também não sai. Para piorar, algumas pessoas sentem uma pressão no peito ou têm a impressão de que existe alguém por perto. A experiência pode parecer longa e assustadora, embora geralmente dure de poucos segundos a alguns minutos.
Esse fenômeno tem nome: paralisia do sono. Ela acontece durante a transição entre o sono e a vigília, quando a consciência desperta enquanto o corpo ainda mantém características do sono REM. Apesar da sensação alarmante, episódios isolados costumam ser inofensivos.
Durante o sono REM, fase em que os sonhos costumam ser mais intensos, o cérebro reduz temporariamente a atividade dos músculos responsáveis pelos movimentos voluntários. Esse mecanismo, conhecido como atonia muscular, ajuda a impedir que uma pessoa reproduza fisicamente os movimentos de seus sonhos.
Na paralisia do sono, há uma espécie de desencontro nessa transição: a pessoa recupera a consciência antes de a atonia desaparecer completamente. Ela consegue perceber o ambiente e pensar normalmente, porém permanece temporariamente incapaz de movimentar o corpo ou falar.
O episódio pode ocorrer tanto quando alguém está adormecendo quanto durante o despertar. Segundo o NHS, a pessoa pode estar consciente e, ainda assim, não conseguir se mover, falar ou, em alguns casos, abrir os olhos.
A incapacidade de se mexer já seria desconfortável por si só, mas existe outro componente que torna certos episódios especialmente assustadores: as alucinações.
Algumas pessoas relatam enxergar figuras, ouvir sons, sentir alguém se aproximando ou perceber uma presença no quarto. Outras descrevem pressão sobre o peito ou a impressão de que alguma coisa está segurando seu corpo. Essas sensações podem surgir porque elementos relacionados aos sonhos continuam ativos enquanto a pessoa já recuperou parte da consciência.
É justamente essa mistura entre percepção do ambiente e componentes do sonho que ajuda a explicar experiências descritas durante séculos como presenças sobrenaturais, ataques ou figuras misteriosas.
Para quem está vivendo aquilo, porém, o medo é bastante concreto. A Cleveland Clinic ressalta que a paralisia do sono não costuma representar perigo físico, mas pode provocar forte angústia emocional durante o episódio.
Ela também pode aparecer durante a paralisia.
A pessoa continua respirando, mas a combinação entre imobilidade, medo e alterações próprias do sono REM pode provocar uma percepção incômoda de pressão ou dificuldade para respirar normalmente. O NHS cita justamente a sensação de algo pressionando o corpo como uma das experiências relatadas durante episódios.
Como o cérebro tenta interpretar o que está acontecendo enquanto o corpo permanece imóvel, essa sensação física pode acabar incorporada à alucinação. Daí surgem relatos de alguém sentado sobre o peito, de estar sendo segurado ou de existir alguma presença impedindo os movimentos.
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As estimativas variam bastante conforme a população e o método usado em cada pesquisa.
A Cleveland Clinic informa que aproximadamente 30% das pessoas no mundo podem experimentar pelo menos um episódio ao longo da vida.
Uma revisão sistemática bastante citada, porém, chegou a números mais baixos para a população geral. Ao reunir dados de 36.533 participantes, pesquisadores encontraram prevalência ao longo da vida de 7,6% na população geral, 28,3% entre estudantes e 31,9% entre pacientes psiquiátricos.
Portanto, não existe um percentual único e definitivo. O que os estudos deixam claro é que a experiência está longe de ser uma ocorrência excepcional.
Nem sempre é possível apontar uma causa específica para uma ocorrência isolada. Ainda assim, alguns fatores aparecem com frequência associados à paralisia do sono.
Privação de sono, horários irregulares para dormir, estresse e alterações do ciclo de sono podem aumentar a probabilidade de episódios em algumas pessoas. Distúrbios do sono também podem estar relacionados.
Isso ajuda a entender por que alguém pode passar anos sem apresentar o problema e, de repente, ter novamente uma experiência semelhante durante uma fase de sono desregulado ou maior cansaço.
Também existe associação entre paralisia do sono e narcolepsia, condição neurológica que interfere no controle adequado dos períodos de sono e vigília. Pessoas com narcolepsia podem apresentar episódios de paralisia ao adormecer ou despertar, embora ter paralisia do sono, isoladamente, esteja longe de significar que alguém tenha narcolepsia.
A percepção de quem passa pelo episódio costuma enganar bastante. Alguns segundos podem parecer muito mais longos quando a pessoa está consciente e tentando desesperadamente mover o corpo.
Segundo a Cleveland Clinic, episódios normalmente duram de alguns segundos a poucos minutos. O NHS também informa que as sensações podem permanecer durante vários minutos antes de desaparecerem.
A mobilidade retorna espontaneamente conforme o cérebro completa a transição para o estado de vigília.
Entender previamente o fenômeno pode ajudar bastante. Saber que aquela incapacidade de movimento é temporária reduz a chance de interpretar a situação imediatamente como uma emergência ou ameaça externa.
Durante um episódio, vale tentar controlar a respiração e concentrar a atenção em recuperar pequenos movimentos, como mexer um dedo das mãos ou dos pés. Técnicas de relaxamento também são utilizadas por algumas pessoas para diminuir o medo enquanto aguardam o fim da paralisia.
Para reduzir a possibilidade de novos episódios, medidas simples de higiene do sono podem ajudar: manter horários relativamente regulares para dormir e acordar, dormir tempo suficiente e reduzir fatores que fragmentem o sono.
Quando os episódios se tornam frequentes, causam medo de dormir, prejudicam o descanso ou aparecem acompanhados de sonolência excessiva durante o dia e outros sintomas, é recomendável procurar avaliação médica. Em alguns casos, a recorrência pode estar associada a outro distúrbio do sono que merece investigação.
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