Énia Lipanga

Preciso de mim como nunca precisei

Cheguei a uma fase da minha vida que aos olhos do mundo pareço não dar valor ao que me rodeia nem ao que devia constituir preocupação.

A postura afeminada, um tom de voz mais baixo, um andar mais cauteloso, livros menos radicais, amizades comportadas, ter os pés no chão, e etc.

Recentemente, estranhei a ausência de lágrimas ao sair de uma relação amorosa onde tanto me dediquei, amei e fiz planos. Namoro terminou e no dia seguinte segui sorrindo, leve e solta e com uma vaga para o próximo (aceitei um convite antigo para jantar). Sempre escolho amar embora os recomeços sejam doídos e difíceis.

Já não me importo com o que vão pensar ao verem-me descalça a caminhar na estrada. Na verdade, o lugar da minha mente onde armazenava o peso na consciência tende a reduzir. Para mim, desde que não faça mal ao outro, a liberdade é ainda um campo virgem por se experimentar.

Cheguei a esta fase onde quando as lágrimas me invadem permito que elas beijem meu rosto, me permito sentir dor e chorar, gritar e abraçar.

Distribuo elogios aos rostos que me transmitem energias positivas, colho flores na rua, ajudo pessoas a atravessar, converso com a senhora das badjias, em fim, os meus dias são sim finalmente poesia.

E ainda bem que estou assim e aqui.

Preciso de mim como nunca precisei e este exercício de me pertencer e ser inteiramente minha tem evoluído todos os dias

Tenho um “check list” de auto cuidado e sigo este ritual diário de amor próprio de forma minuciosa, tirando os dias da ressaca, claro!

Estou numa relação tão intensa, tão saudável e tão madura e responsável comigo mesma, tenho realizado o que desejei que pudesse ser um amor dado, fazendo de mim o amor da minha própria vida.

Cuido do meu corpo, seleciono meus pensamentos, escolho o que dar valor, dou-me prazer e por vezes escolho amar o outro sem que este amor signifique tirar um pouco de mim.

Estou egoísta sim e tenho me amado, ligado pra mim mesma, saído sozinha pra apreciar o sol, tomado cerveja no quarto e rido dos meus tombos, tenho lido tudo e todos. Tenho rezado, me encontrado e construído a cada dia as mulheres que fui, as mulheres que sou e os seres humanos que hão de vir de mim.

Enia Lipanga

Enia Lipanga

Enia Lipanga, nasceu no dia 04 de Abril, é rapper, poetisa e activista social para a defesa dos Direitos humanos da Mulher e inclusão social. É mentora do Evento Palavras São Palavras, que há 12 anos, mensalmente, une a poesia e outras artes e promove novos talentos na área da poesia. Integra o grupo de RAP Revolução feminina, que insta as mulheres a se empoderarem bem como a lutarem pelos seus direitos, através da música e da poesia. Faz parte do Colectivo Uqhagamishelwano, um grupo de artistas e ativistas sociais do mundo que luta contra as práticas sociais nocivas. Énia lidera o movimento Incluarte que promove a inclusão das pessoas com deficiência através da arte. É embaixadora da Better World, uma agremiação de jovens e adolescentes que luta contra a violência sexual e busca soluções para mudanças de comportamento nas comunidades. É coordenadora e criadora do movimento Incluarte, que trabalha para conscientização social para uma arte mais inclusiva. Em 2019 Enia foi homenageada pela marca brasileira Gdarkestampas com a criação de uma linha de roupas inspiradas no poema Sou África. Foi nomeada como uma das 10 mulheres mais inspiradoras de Moçambique em 2018 pela Hamasa Magazine, uma revista tanzaniana. Tem dois livros publicados “Sonolência e Alguns Rabiscos” que é o primeiro livro de poesia em tinta e braille em Moçambique e Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos publicado em 2020. Enia acredita numa juventude que luta pela igualdade e que entenda que o benefício é para a sociedade no geral pois uma sociedade precisa homens e mulheres para o seu desenvolvimento.

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