Marcel Camargo

O problema dos erros é que, às vezes, eles beijam bem

“Se a gente for parar para pensar no que faz mal, não come nada, não vive nada e não ama ninguém.” (Rosi Coelho)

Tudo nesta vida pede um pouco mais de calma, pois exceder-se não é bom, em nada e para ninguém. É preciso cautela, tanto nas atitudes que tomamos, quanto nos sentimentos que acumulamos, ou carregaremos consequências amargas e pesos inúteis. Algumas vezes, será preciso, inclusive, nem chegar perto de pessoas e de situações, pois quanto menos daquilo tivermos, mais felizes estaremos. A palavra-chave é equilíbrio.

Tem gente que trabalha demais, tem gente que trabalha de menos. Tem gente que pensa demais, enquanto outros nem pensam. Tem gente que ama demais, já outros exageram na medida da frieza. Uns se exercitam além da conta, mas há quem não se mexa. É muito difícil sabermos a dose exata de tudo o que trazemos para nossas vidas, porque as aparências enganam, as pessoas enganam e a gente se engana muito. Nem tudo aquilo que é gostoso faz bem, ao passo que nem tudo o que faz mal é ruim.

Da mesma forma que nos entregarmos a tudo sem precaução pode ser perigoso, negarmos qualquer coisa que não esteja incluída na lista de itens saudáveis pode nos privar de alguns prazeres que fariam diferença na qualidade de vida que temos. Comer bacon todos os dias acabará certamente com nossa saúde, mas nunca se permitir experimentar um doce soa a exagero. Porque não dá para ser feliz e tranquilo se policiando vinte e quatro horas por dia. Quem presta demais atenção em si mesmo não terá tempo de curtir muito do que acontece lá fora.

E outra, temos que ousar, de vez em quando, para que erremos e aprendamos, porque sentir na pele as dores das consequências em muito nos ajuda, tornando-nos melhores e mais convictos do que somos, de nossos sonhos, de quem realmente vale a pena manter por perto e de quem tem que ficar bem longe. Passar do ponto, vez ou outra, ajuda-nos a sermos mais fortes do que os nossos medos, ajuda-nos a sair do lugar, a não estacionarmos enquanto a vida vai passando em volta de nossa estagnação.

Quem muito escolhe acaba ficando sem nada, quem se preocupa demais contando calorias não sente o gosto, quem nunca erra não aprende, pois já sabe tudo. Ninguém, aqui, está afirmando que é besteira preocupar-se com a saúde ou com as atitudes tomadas, vivendo perigosamente todos os dias, nada disso. Apenas é aconselhável não se privar de tudo o que faz mal, nem de todos que não são perfeitos, porque, dessa forma, também poderemos estar nos afastando de prazeres e de pessoas interessantes. Como dizem, afinal, existem certos erros que beijam tão bem…

Imagem de capa:  shutterstock/Orla

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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