Existem várias maneiras de acabar com a própria vida sem morrer

O suicídio é um assunto sério e que deve ser discutido e combatido amplamente, porém, existem formas de se suicidar, sem que se morra. Tem gente que continua vivendo, após ter se matado por dentro, e isso também é prejudicial demais. É preciso que se combata a tristeza generalizada, que parece se abater sobre grande parcela da população sem escolher faixa etária, classe social, gênero, nada.

Talvez um dos aspectos mais problemáticos, atualmente, seja a manutenção de uma autoestima positiva. Os parâmetros de felicidade, de estética, de felicidade, parecem estar a cada dia mais inalcançáveis, haja vista que muito daquilo que se dissemina como gerador de alegria depende de um alto padrão de vida, de um farto cartão de crédito. O poder de compra determina grande parte do que a mídia espalha como itens para ser feliz, tais como viagens internacionais, corpos torneados, dentes branquinhos, cabelos sedosos.

Com isso, muita gente acaba se achando menos, muito menos do que na verdade é. Se não conseguirem, por exemplo, comprar o smartphone de última geração, fazer academia, ostentar grifes, frequentar restaurantes e hotéis cinco estrelas, muitas pessoas se sentem incapazes de alcançar a felicidade. Além disso, há uma frieza tomando conta do coração de muita gente, tornando-as incapazes de manter vínculos, de regar afeto, de se colocar no lugar do outro.

A máxima apregoada incessantemente nos dita o desapego emocional, o tanto faz, o não estar nem aí para ninguém, o chutar o balde e cortar as pessoas da vida. Logicamente, teremos que assim agir em muitos momentos, para não sermos fantoches de pessoas tóxicas. Porém, tem muita gente se negando a amar, a confiar no outro, a dividir afeto, a acolher e a doar-se, por medo de se machucar, por temer passar pelo que já passou e machucou fundo.

Infelizmente, negar-se ao compartilhamento afetivo impede as pessoas de reunirem amor dentro de si. E é o amor a melhor proteção que teremos nessa vida contra as maldades, contra o desânimo, contra o que é ruim e quer ficar por perto. Precisamos nos abrir, ou explodimos, ou adoecemos. Quanto mais sentimentos pudermos preencher, mais estaremos completos e capazes de gostar de quem somos, mesmo que não sejamos nada daquilo que a mídia estampa nas capas, nos sites, na TV.

Como se vê, existem várias maneiras de acabar com a própria vida, sem que se morra: sabotar a si mesmo, expulsar quem ama, trancar-se dentro de si, negligenciar o amor-próprio. Nesses casos, porém, a morte é em vida. Lembre-se: enquanto houver vida dentro de si, haverá esperança, propósito, motivo, objetivo. Vivamos!

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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