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“Ainda vamos rir disso tudo depois”.

Pode até ser, mas não é agora.

Consolar um amigo com frases feitas é aumentar os decibéis do choro. Quem foi não vai voltar com ajuda desses arranjos verbais mal feitos.

Um amigo costuma silenciar na hora do choro gritado do outro, pois compreende que a palavra nesse momento, pode equivaler a um “eu avisei” na hora da raiva. A tendência é piorar a situação. O jeito é ficar ao lado, quieto e evitar a cara de paisagem.

Demonstre que está pronto para fazer qualquer coisa, inclusive passar o café no coador de pano, que o seu amigo tanto gosta. Evite comentários idiotas sobre o lançamento da versão magnífica do coador com tecnologia de ponta disponível no mercado. Isso não é importante e ele não quer saber. Sirva o café. Seja generoso. Compre as bolachas que ele adora. Traga aquele bolo com recheio de calda de morango e não fale sobre as taxas de glicose no sangue. Não é da sua conta. Ele gosta assim.

Se tem uma coisa que a tristeza costuma fazer com louvor é abrir as comportas do apetite. Uma pessoa triste encontra ânimo no alimento de sua preferência. A palavra do amigo sobre a situação nem sempre ajuda. A companhia, sim. Esteja disposto a dividir a dor e o lanche. Responda apenas o que for perguntado e opine somente se ele pedir. Evite as frases: “vai passar”, “vamos rir disso tudo depois” e “a vida é assim mesmo”. O que pode passar é a vontade de ele manter um amigo inconveniente e falastrão.

Comporte-se com a destreza de quem já viveu situação semelhante, mas não faça comparações. Seja flexível se o seu amigo disparar a falar demais, como se quisesse rebobinar o passado e encontrar o erro. Lembre-se que ele está sofrendo e você é o melhor amigo dele. O responsável por manter o coração dele sóbrio. Seja um bom ouvinte. Ouça a ladainha do relacionamento falido sem demonstrar incômodo. Quem perde um amor precisa contar a história diversas vezes para convencer a si mesmo que não faz mais parte dela.

Ofereça o ombro, lenços e os ouvidos sem titubear. Saiba que você está numa importante missão de resgate, qualquer erro pode colocar tudo a perder.

Se o seu amigo lembrar de um acontecimento feliz da infância, embarque nessa viagem. Sempre dá certo. Fale sobre como ele era habilidoso com a bola nos pés, o herói do time. O aluno mais dedicado e inteligente da turma.

Daqui a pouco, você vai perceber que o choro se mistura ao riso e já é possível falar sobre outros assuntos sem resvalar na mágoa exposta.

Cuidar de um amigo que jura ter perdido um amor é saber devolvê-lo a ele mesmo, antes que ele se perca de vez.

Ester Chaves

ESTER CHAVES é uma escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participa de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

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