Há fotografias antigas que sobrevivem como simples registros de uma época. Outras começam a ganhar novos significados conforme os anos passam e diferentes gerações voltam a observá-las. A 47ª edição do Oscar, realizada em 8 de abril de 1975, reúne vários exemplos desse segundo caso.
A cerimônia aconteceu no Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles, e premiou os filmes lançados em 1974. Mais de meio século depois, ainda chama atenção por uma combinação difícil de separar: grandes nomes do cinema, disputas políticas em pleno palco, críticas à própria Academia e imagens que hoje são interpretadas de maneiras bastante diferentes das que provavelmente provocavam na época.
Entre essas imagens está uma fotografia de Jon Voight e Raquel Welch nos bastidores da premiação. O registro voltou a circular pelas redes sociais e passou a receber interpretações opostas. Para alguns, trata-se de uma fotografia típica de uma cerimônia hollywoodiana dos anos 1970. Para outros, a maneira como Voight segura Welch desperta desconforto.
A discussão em torno da imagem, porém, é só uma pequena parte de uma noite que já era marcada por tensão enquanto acontecia.
Dustin Hoffman concorria ao prêmio de Melhor Ator por Lenny, cinebiografia do comediante Lenny Bruce dirigida por Bob Fosse. Antes mesmo da cerimônia, porém, o ator havia manifestado pouco entusiasmo pela competição.
Hoffman descreveu o Oscar como “feio” e “grotesco” e comparou a premiação a um concurso de beleza. A declaração acabou virando material para Bob Hope, um dos apresentadores da noite, que fez uma piada relacionando Hoffman a George C. Scott, ator que quatro anos antes havia recusado o Oscar recebido por Patton.
Hoffman acabou derrotado por Art Carney, vencedor por Harry and Tonto. O próprio Lenny, apesar de ter recebido seis indicações, terminou a noite sem estatuetas.
A troca de provocações já mostrava que a cerimônia estava longe daquela lembrança romantizada segundo a qual artistas de décadas passadas simplesmente apareciam, sorriam para as câmeras e evitavam qualquer assunto incômodo.
O momento politicamente mais delicado aconteceu quando Hearts and Minds venceu como Melhor Documentário.
Produzido por Peter Davis e Bert Schneider, o filme analisava de maneira crítica a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Ao receber a estatueta, Schneider comentou que havia certa ironia em estar naquele palco justamente quando o conflito se aproximava de um desfecho.
Em seguida, leu uma mensagem enviada por Dinh Ba Thi, representante do Governo Revolucionário Provisório do Vietnã do Sul nas negociações de paz de Paris. A mensagem agradecia ao movimento contrário à guerra nos Estados Unidos. A própria Academia registra atualmente esse episódio entre os momentos mais marcantes daquela edição.
A manifestação irritou Bob Hope, conhecido por suas posições favoráveis à atuação norte-americana no conflito.
Mais tarde, Frank Sinatra leu uma resposta afirmando que a Academia não se responsabilizava pelas manifestações políticas feitas durante o programa e lamentava que elas tivessem ocorrido.
Só que a tentativa de encerrar o assunto produziu outra discussão.
Shirley MacLaine, que também apresentava a cerimônia, contestou a ideia de que aquela resposta representasse todos os integrantes da Academia. Warren Beatty também reagiu com ironia a Sinatra.
Em outras palavras, debate político no Oscar está bem longe de ser uma invenção recente. Em 1975, com a Guerra do Vietnã chegando aos seus últimos dias, ele acontecia ao vivo diante de milhões de espectadores.
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Outro momento marcante veio com Ingrid Bergman.
A atriz sueca venceu como Melhor Atriz Coadjuvante por sua interpretação em Assassinato no Expresso Oriente. Era seu terceiro Oscar e uma nova consagração para uma atriz que, décadas antes, enfrentara forte rejeição nos Estados Unidos por causa de seu relacionamento com o diretor Roberto Rossellini.
Ao receber o prêmio, Bergman surpreendeu ao dedicar boa parte do discurso à italiana Valentina Cortese, indicada por A Noite Americana, de François Truffaut.
Em vez de tratar sua vitória como algo incontestável, Bergman afirmou que Cortese também merecia enorme reconhecimento. A Academia até hoje destaca esse discurso entre os momentos lembrados da cerimônia.
A situação tinha uma camada adicional. Bergman acreditava que parte da receptividade que voltara a receber em Hollywood estava relacionada a uma espécie de reparação tardia depois da forma como havia sido tratada no fim dos anos 1940.
Boa parte do fascínio exercido pela edição de 1975 também pode ser explicada pelos títulos envolvidos.
O Poderoso Chefão II e Chinatown lideraram as indicações, com 11 cada. O filme dirigido por Francis Ford Coppola acabou como grande vencedor da noite, conquistando seis estatuetas, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor.
Robert De Niro venceu como ator coadjuvante pela interpretação do jovem Vito Corleone. Francis Ford Coppola e Mario Puzo ficaram com o prêmio de roteiro adaptado. A trilha de Nino Rota e Carmine Coppola também foi premiada.
A vitória em Melhor Filme ainda produziu um feito histórico: O Poderoso Chefão II tornou-se a primeira continuação a conquistar a principal categoria do Oscar, depois que o primeiro O Poderoso Chefão havia vencido dois anos antes.
Art Carney derrotou nomes como Al Pacino, Jack Nicholson, Albert Finney e Dustin Hoffman na disputa de Melhor Ator. Ellen Burstyn venceu como Melhor Atriz por Alice Não Mora Mais Aqui.
Já a fotografia premiada foi a de Inferno na Torre, assinada por Fred Koenekamp e Joseph Biroc.
E é justamente essa categoria que leva a uma das fotografias da cerimônia que continua circulando décadas depois.
Jon Voight e Raquel Welch foram os responsáveis por apresentar o Oscar de Melhor Fotografia. Nos bastidores, os dois também posaram juntos para o fotógrafo Michael Montfort.
O registro é datado de 8 de abril de 1975 e integra o arquivo Michael Ochs Archives. A identificação original da fotografia confirma que ambos haviam acabado de apresentar a categoria.
Na imagem, Voight aparece de smoking enquanto mantém o braço ao redor de Welch, que veste um longo traje rosa.
Décadas depois, a fotografia passou a provocar reações bastante diferentes nas redes sociais. Alguns usuários interpretam a proximidade física dos dois como desconfortável ou inadequada. Outros argumentam que o gesto precisa ser analisado considerando os hábitos sociais e a linguagem corporal normalmente aceita em eventos públicos daquele período.
Não há, porém, elemento documental na própria fotografia que permita determinar o que Welch pensava naquele instante. A imagem registra uma pose. As conclusões sobre consentimento, desconforto ou intimidade partem essencialmente da leitura de quem a observa hoje.
Esse ponto ajuda a explicar por que fotografias históricas provocam discussões tão intensas: elas permanecem iguais, mas as referências usadas para interpretá-las mudam.
Outra fotografia feita na mesma ocasião mostra Welch e Voight ao lado de Fred Koenekamp, um dos vencedores do Oscar de fotografia por Inferno na Torre. O arquivo da Getty Images também identifica o registro como realizado nos bastidores da 47ª edição.
Quando registros do Oscar dos anos 1970 reaparecem, é comum surgir uma leitura nostálgica daquele período. Vestidos, smokings, penteados e uma estética distante das cerimônias atuais ajudam a reforçar essa impressão.
Mas o Oscar de 1975 também lembra que Hollywood nunca foi tão comportada quanto certas fotografias podem sugerir.
Havia um indicado chamando a premiação de grotesca antes de entrar no teatro. Um documentário sobre o Vietnã provocou uma manifestação política capaz de dividir a plateia. Bob Hope respondeu. Shirley MacLaine discordou publicamente. Warren Beatty entrou na discussão. Ingrid Bergman venceu e usou seu discurso para dizer que outra atriz merecia reconhecimento.
Enquanto tudo isso acontecia, alguns dos filmes mais influentes do cinema norte-americano disputavam estatuetas no mesmo palco.
Talvez seja exatamente por isso que aquela noite continue rendendo discussão tanto tempo depois. O Oscar de 1975 deixou fotografias elegantes, certamente. Mas, por trás delas, havia vaidade, divergência política, provocação, desconforto, competição e mudanças culturais acontecendo diante das câmeras.
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