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Ahh… esse nosso ofício de sentir saudade.

Eu tenho saudade, sim. Mas é saudade de tanta coisa, saudade de tanta gente que eu já nem sei dizer de quem. É saudade que não cabe na lembrança. Porque saudade não se guarda na memória mesmo. Saudade vive é no coração da gente.

E o coração quando lembra é só sentimento. Faz a gente dar de cara com saudade que nem sabe de onde vem, a quem pertence. Não se pergunta “alguém esqueceu uma lembrança aqui?”, assim, feito guarda-chuva. Saudade vem e fica ali, zanzando qual cachorro que caiu da mudança. Coração sente cada saudade estranha!

Vez em quando aperta uma saudade tão funda aqui dentro que a gente nem pensa. A gente para, sente e espera passar. Alguém pergunta as horas e a gente responde baixinho, faz gesto de silêncio, caminha na ponta do pé, vai embora quieto, se cala, se fecha, cerra as cortinas, desliga a tv, apaga as luzes da casa. Não por nada. É só silêncio de ninar saudade.

Mentira. É só a gente andando devagar pra não cair no choro.

Saudade, quando dá, carrega a gente pra longe ou até ali do lado. Não importa. Não importa porque é tudo lugar que só existe aqui dentro. E aqui dentro tem tanto lugar bonito! Tanta gente linda caminhando devagar, de tardinha, tanta manhã conversando na cama, tanta noite atravessada na alegria e na tristeza.

Na casa da minha infância não tinha geladeira. Tinha um pé de dama-da-noite, uma flor que Deus encarregou de borrifar perfume na gente. Minha mãe fazia gelatina depois do almoço e levava gelar na casa de uma vizinha generosa, Dona Carmem, mulher do Seu Antonio. Mais tarde ficava pronta, bem na hora da dama se perfumar para a noite. Até hoje, gelatina para mim tem gosto de flor. E tudo, casa, vizinha, família, noitinha, tudo tem perfume de saudade.

É tanta saudade, minha gente! Tanta saudade antiga abraçando lembranças novas. Saudades adolescentes virando jovens adultas. Saudades envelhecendo quietas, sem perceber. Tanta saudade nascendo agorinha.

Eu tenho saudade, sim. Tanta que eu já não sei de quem, não sei de onde. Não importa. Saudade não é só de onde. É de quando. Nem é só de alguém. É da gente. Saudade é sempre da gente.

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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