Celebridades

A menina que dormia com os cães cresceu e se tornou uma das vozes mais intensas da América Latina

Antes de ser reconhecida pela voz rouca, pelo poncho vermelho e por interpretações capazes de transformar uma ranchera em quase uma confissão, Chavela Vargas conheceu uma infância marcada por rejeição. Décadas mais tarde, quando já havia se tornado uma figura singular da música latino-americana, ela ainda falava daquele período com dor. A menina que buscava companhia entre animais acabaria cantando justamente sobre solidão, abandono e desejo para plateias do mundo inteiro.

María Isabel Anita Carmen de Jesús Vargas Lizano nasceu em 17 de abril de 1919, em San Joaquín de Flores, na Costa Rica. Desde pequena, destoava do comportamento que sua família esperava de uma menina: gostava de roupas consideradas masculinas para a época, tinha modos próprios e não se encaixava facilmente nas convenções ao seu redor.

Esse estranhamento teve consequências duras.

Segundo relatos recuperados no documentário Chavela, dirigido por Catherine Gund e Daresha Kyi, seus pais chegavam a escondê-la quando recebiam visitas em casa por considerarem incomuns sua aparência e seu comportamento. Depois da separação dos pais, ela passou a viver com outros familiares.

Chavela também lembrava que conversava com animais porque tinha poucos amigos. A sensação de não ser querida dentro da própria casa permaneceria como uma das feridas mais recorrentes em suas lembranças. O jornalista mexicano José Alfredo Rodríguez registra que ela chorava ao recordar a infância e carregava a convicção de que precisaria sair dali para encontrar outro tipo de vida.

México virou o lugar onde ela decidiu se inventar

Ainda adolescente, Chavela deixou a Costa Rica e foi para o México.

Ela costumava dizer que fez a mudança aos 17 anos, embora pesquisadores ressaltem que algumas datas de sua juventude não possam ser determinadas com absoluta precisão. Essa incerteza combina, aliás, com uma característica recorrente de sua biografia: Chavela tinha enorme habilidade para misturar acontecimentos reais, memória e construção de personagem.

Os primeiros anos mexicanos passaram longe do reconhecimento.

Antes de conseguir espaço profissional, cantou nas ruas e dependeu durante períodos da ajuda de amigos. Tentou também se enquadrar na imagem esperada das cantoras daquele momento, usando vestidos e salto alto. Segundo ela mesma contou, aquilo simplesmente não funcionava.

A solução foi parar de tentar parecer com as outras.

Chavela adotou calças, cabelo curto e os ponchos que acabariam associados à sua imagem. Em uma sociedade mexicana profundamente conservadora em relação aos papéis de gênero, sua aparência já chamava atenção antes mesmo que começasse a cantar.

E sua maneira de interpretar também fugia do padrão.

Ela mudou o jeito de cantar rancheras

A ranchera havia sido consolidada principalmente por intérpretes masculinos, frequentemente acompanhados por grandes formações de mariachi. Chavela fez outro caminho.

Sua voz aparecia acompanhada muitas vezes por uma ou duas guitarras. As canções eram desaceleradas e ganhavam espaços de silêncio que ampliavam o peso de cada frase.

O escritor mexicano Carlos Monsiváis resumiria mais tarde esse efeito dizendo que Chavela acrescentou à ranchera uma espécie de “solidão radical”.

Canções conhecidas passaram a soar diferentes em sua voz.

Ela interpretava letras escritas originalmente por homens para mulheres sem alterar necessariamente o gênero do destinatário. Isso permitia que uma mulher cantasse diretamente para outra em uma época na qual a homossexualidade feminina raramente aparecia de maneira tão explícita nos palcos.

Sua proximidade com José Alfredo Jiménez, um dos compositores fundamentais da música mexicana, também foi decisiva. Os dois dividiram amizade, noites de bebida e afinidade artística. Chavela se tornaria uma das intérpretes mais identificadas com as composições dele.

Na década de 1950 e no início dos anos 1960, sua fama cresceu. O Carnegie Hall registra que ela alcançou projeção justamente nesse período como intérprete de rancheras e outros gêneros latino-americanos.

O álcool interrompeu uma carreira que parecia consolidada

A relação de Chavela com a bebida foi intensa e destrutiva.

Ao longo dos anos 1970, o alcoolismo começou a comprometer seriamente seu trabalho e sua vida pessoal. Ela acabou desaparecendo dos grandes palcos durante mais de uma década.

O afastamento foi tão longo que muita gente acreditava que ela havia morrido.

A própria Chavela falaria depois do alcoolismo como uma doença ligada à solidão e ao abandono. Ao reconstruir sua biografia, porém, o documentário de Gund e Kyi também mostra que algumas versões contadas pela cantora sobre como abandonou a bebida eram mais elaboradas do que os acontecimentos relatados pelas pessoas próximas a ela.

Chavela dizia ter conseguido parar após experiências com xamãs. Alicia Pérez Duarte, sua companheira naquele período, contou outra história: teria imposto um ultimato depois de um episódio perigoso envolvendo Chavela, álcool, uma arma e seu filho pequeno.

O fato essencial permaneceu o mesmo: ela conseguiu ficar sóbria.

E então aconteceu algo pouco comum na música.

Sua carreira mais internacional começou quando a maioria dos artistas de sua geração já estaria pensando em aposentadoria.

Quando todos achavam que havia acabado, ela voltou

No fim dos anos 1980 e início dos 1990, Chavela reapareceu em pequenos palcos da Cidade do México.

Sua volta chamou a atenção de produtores espanhóis. Em 1993, apresentou-se na Sala Caracol, em Madri, e começou a construir um novo público europeu.

Pedro Almodóvar teve papel importante nessa segunda fase.

O cineasta incorporou músicas de Chavela a seus filmes, tornou-se amigo da cantora e ajudou a aproximá-la de uma nova geração de espectadores. Ela o chamava de sua “alma gêmea”, enquanto Almodóvar tratava Chavela como uma de suas grandes referências musicais.

Aquela mulher que passara anos quase esquecida começou então a ocupar alguns dos palcos mais prestigiados de sua carreira.

Cantou no Olympia, em Paris, e no Palacio de Bellas Artes, na Cidade do México. Em 2003, aos 84 anos, fez sua estreia no Carnegie Hall, em Nova York. A apresentação foi gravada e posteriormente lançada como álbum.

Era uma inversão curiosa: o período de maior reconhecimento internacional chegou quando sua voz já carregava visivelmente as marcas da idade.

Isso acabou funcionando a favor de suas interpretações.

Cada pausa, respiração e rouquidão reforçava letras sobre ausência, paixão e perda. Canções como La Llorona, Paloma Negra e En el último trago ficaram profundamente associadas à sua voz.

Chavela falou abertamente sobre ser lésbica aos 81 anos

Sua orientação sexual nunca foi exatamente um segredo nos círculos artísticos mexicanos, mas Chavela evitou durante décadas fazer uma declaração pública direta.

Isso mudou em 2000.

Aos 81 anos, falou abertamente sobre ser lésbica em entrevistas e disse que não havia aprendido a ser daquela forma: simplesmente havia nascido assim.

O anúncio formal veio tarde, mas sua postura pública já havia desafiado convenções durante décadas.

Chavela usava roupas masculinas, cantava letras de amor dirigidas a mulheres e vivia de uma maneira pouco compatível com as expectativas sociais destinadas às mulheres de sua geração.

Ao longo da vida também surgiram histórias sobre relacionamentos com figuras famosas, incluindo Frida Kahlo. Algumas delas se tornaram parte da mitologia em torno da cantora, embora pesquisadores e pessoas próximas ressaltem que Chavela gostava de ampliar certos episódios de sua própria história.

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Ela voltou ao México para morrer

A última apresentação pública de Chavela ocorreu em julho de 2012, na Residencia de Estudiantes, em Madri.

Sua saúde já estava bastante debilitada.

Pouco depois, decidiu retornar ao México. Morreu em 5 de agosto de 2012, aos 93 anos.

Sua trajetória terminou muito distante daquela infância na Costa Rica em que se sentia rejeitada pela própria família.

A menina que procurava companhia nos animais tornou-se uma intérprete capaz de lotar teatros em Paris, Madri, Cidade do México e Nova York. E fez isso cantando, durante décadas, justamente sobre sentimentos que conhecera cedo demais: abandono, desejo, ausência e solidão.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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