Tanto se diz sobre a realidade e o sonho. Dizem que um é terra e que o outro é céu. Que sonho e realidade não caminham juntos. Mas e se você levantar os pés, moça?
Quando seus pés saem do chão tocam outros mundos. O sair do chão guarda um deslumbre mágico, como se nós, seres de carne e osso, pudéssemos ser tocados pelo que é fantasticamente bom. Na ponta dos pés enxergamos mais longe e mergulhamos desnudos em nós.
Há quem diga que os sapatos de salto devem ser queimados. Que os saltos são a marca da opressão no que há de mais feminino em nós. Há quem nunca tenha notado que um sapato de salto é só mais uma tentativa humana de trazer para a realidade o êxtase do amor.
A posição dos pés, quando içados e suspensos, remete ao ápice do prazer feminino. Pés, pernas, quadris e mente, confluem para lembrar a epifania de uma noite de amor.
Apaguem os gemidos, as peripécias, as expressões típicas do prazer e restarão pés femininos, silenciosos e suspensos, como se estivessem andando não no chão, mas nas nuvens.
Que exista todo o resto, mas não dois pés içados pelo gozo sincero, então não haverá um gozo, mas apenas uma tentativa de tocar o mágico com os pés no chão.
Hoje é fácil encontrar um mundo de textos sobre o poder que alguns calçados detêm sobre o imaginário masculino. Sobre o que uma mulher, na ponta dos dedos ou do salto, desperta nos homens, mas bem pouco é falado sobre essa mulher que declama silenciosa que descobriu o caminho das pedras. Que sabe quantos passos deve dar para alcançar o prazer.
Ninguém conta que tirar os pés do chão, apesar de ter uma plateia notória de admiradores, não vem da vontade de agradar, mas sim da vontade de prolongar o mais profundo dos gemidos.
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Atribuição da imagem: pexels.com – CC0 Public Domain
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