XXY, o filme que fala sobre identidade de gênero e sexualidade

Por Bruna Arakaki e Karina Ishimori

XXY (2008) é um filme dirigido por Lucia Puenzo e que nos convida a refletir sobre identidade de gênero e sexualidade, temas estes que têm ganhado evidência graças às mudanças sociais e culturais na contemporaneidade. Hoje, mesmo que de maneira tênue, as questões da transexualidade e da intersexualidade são colocadas a postos e não mais escondidas e encalacradas nos fundos dos porões da humanidade. Oportunidade que temos para trazer à luz e consciência a diversidade e complexidade humana.

Alex, protagonista da trama, nasceu com a Síndrome de Klinefelter que lhe confere uma genitália ambígua devido a uma mutação genética. Essa síndrome ocoore quando uma pessoa do sexo masculino nasce com um comossomo X a mais. Por sua condição, Alex é considerada uma intersexo. Diferentemente de várias crianças que nascem com essa síndrome, seus pais optaram por não realizar a cirurgia de “redesignação de sexo”, que neste caso retiraria as características masculinas, transformando Alex em uma menina. Ao invés disso, decidiram-se mudar para um vilarejo no Uruguai mantendo a condição de Alex em segredo, mas a educando como se fosse uma menina.

Alex  está com 15 anos e como qualquer adolescente passa pelas inúmeras transformações biopsicossocias desta fase, acrescentando-se a questão da intersexualidade. Percebe-se que toma hormônios femininos e que tal fato lhe traz incômodo, pois não sabe se quer continuar a tomar os medicamentos. Concomitantemente a isso, a convite de sua mãe, sua família recebe em casa a família de um médico que quer estudar o caso de Alex a fundo para uma possível cirurgia de redesignação. Esse médico vem com sua mulher e filho (Álvaro) da mesma idade que Alex.

Alex vivencia um momento de descoberta não só de sua identidade, mas também de sua sexualidade. Esse processo torna-se angustiante principalmente por sua condição ser vivida em segredo, especialmente no ambiente extra-familiar. Para todos no vilarejo, Alex é uma menina. Aqui as questões se mostram bastante complexas por diversos motivos. A questão de gênero está intrinsecamente relacionada com a construção da identidade, isto é, da descoberta de “quem eu sou”. Apesar desse processo não se relacionar com a sexualidade, Alex também está se descobrindo nesse aspecto. Assim, possuir uma condição corporal ambígua, diante de uma sociedade que só engloba o sexo e gênero feminino ou masculino, faz com que a personagem se sinta bastante solitária e excluída no processo de definição de sua identidade.

Há uma pressão para que o indivíduo se defina homem ou mulher e nada mais além disso. Caso não se defina nessas duas condições, há grande probabilidade de viver sob o véu do preconceito. Assumir a ambiguidade é correr o risco de ser visto pelos outros como “freak”, uma aberração.

Por isso, a família de Alex foge para o vilarejo e mantém sua condição em segredo com intuito de protegê-la. Mas, como nos lembra Ana Maria Galrão Rios, os segredos têm grande poder emocional, são sempre revelados num discurso paralelo, por alterações do clima emocional, lapsos e evitações. Eles produzem uma linguagem estranha por mais que os silenciamos, pois fazemos com que as coisas falem sobre eles. Interessante é que aqueles em volta, geralmente, se asseguram de não ouvir nada. Essas pessoas possuem todo o necessário para entender, exceto o desejo de fazê-lo. Sendo assim, por um lado, Alex se protege ao não revelar o segredo (se protege dos outros), mas por outro, isso a torna estranha pra si mesma (tornando-a desprotegida de si). Este fato nos leva a compreender também a questão de Alex não querer mais tomar os hormônios femininos como uma tentativa de se encontrar, descobrir quem é verdadeiramente. Fazendo isso, parece ir em direção ao Self (centro regulador da personalidade total), o que lhe traria maior proteção, pois aí sim, habitaria seu próprio corpo e a si mesma. Uma vida dupla é, em última instância, exaustiva e trágica, porque não se pode ser amado se não se é conhecido.

A mãe de Alex chama o médico e sua família para passarem um tempo em sua casa, com o intuito de investigar melhor a possibilidade da cirurgia de resignação. Torna-se claro que para o médico, este procedimento era o mais acertado, pois embasava sua opinião a partir da perspectiva biológica/orgânica e da visão da necessidade de escolha entre os gêneros. Ele realmente acreditava que faria o bem dessa maneira, mas deixava de enxergar Alex em sua humanidade e complexidade emocional e subjetiva. Alex não dava o nome desse procedimento de cirurgia de resignação, mas de amputação, deixando claro esse procedimento como um ato de crueldade e mutilação. Por que ela não poderia ser inteira?

Vale aqui ressaltarmos como o corpo é visto na atualidade. Ana Galrão Rios pontua que o corpo é entendido como uma parte “maldita” da condição humana e por isso, a ciência e sua técnica concordam em remodelá-lo e refazê-lo para liberar o homem do seu embaraçoso enraizamento com a carne. Dessa maneira, o corpo se torna coisa em si e vira mercadoria, pois pode ser vendido em peças avulsas. O corpo, quando visto como uma coleção de órgãos fica dissociado do homem que ele encarna e deixa de ser identidade humana.

Alex percebia que seu problema não se resolveria cortando e remodelando seu corpo, pois o que se arranca ou acrescenta modifica uma existência inteira. O que mostra que corpo, homem e alma são indissociáveis. Assim, as questões apresentadas no filme nos convida a refletir, e ampliar nossa concepção de corpo, no sentido de percebermos seu inesgotável significado se olhado sob o aspecto simbólico, cultural e social.

Nesse jogo todo, a mãe de Alex apresenta-se muito perdida, não sabendo o que fazer. Chamar o médico foi uma tentativa de ter um aval técnico, um alicerce para resolver a questão. Isto é, a sua decisão será pautada numa entidade superior que sabe mais, assim, assegura-se que está fazendo o correto. Principalmente porque, sua decisão também será reconhecida socialmente.

Por outro lado, o pai de Alex se mostra bastante sensível, consegue enxergá-la de maneira mais profunda e por isso, compreendê-la. Sabe que a cirurgia não é só uma questão física, mas algo que definirá toda a vida e subjetividade de sua filha. Importante ressaltar que ele dizia que, desde o nascimento de Alex, sempre a achou perfeita, do jeito que ela era. Essa afirmação é o reconhecimento e aceitação incondicional à Alex, que pode ser o que é e o que desejar ser, dando-lhe liberdade e suporte para a sua construção pessoal.

Esse pai que acolhe é de suma importância, pois como Ana Galrão Rios nos alerta, na adolescência, a imagem corporal é formada prioritariamente a partir do externo e o adolescente quer passar despercebido em suas diferenças, que são ameaçadoras. Dessa maneira, quando os pais criticam, rejeitam ou consertam um traço corporal é uma experiência emocional complicada para o adolescente porque é como se estes se mostrassem decepcionados com seu filho. Ele não possui defesas contra o olhar desses pais, sentindo-se assim com raiva e culpado. O adolescente passa a esconder, camuflar a parte do corpo que não corresponde ao esperado porque entende o próprio corpo como errado, e se não se intervém de alguma forma, este passa a se sentir responsável e culpado pela não correção.

Pode-se pensar que a pessoa transgênero ou intersexo suscita ainda mal-estar na sociedade porque não há clareza em sua definição, pois transgride a ideia habitual do que seja feminino ou masculino. Como aponta Luana Oliveira, a psique configurada de modo rígido, binário e polarizado acaba por se defender da diversidade e o faz a partir da exclusão e preconceito. Além disso, há na humanidade um espectro entre o masculino e feminino e ninguém deveria ser impelido a provar ser isso ou aquilo.

Em culturas distintas e de acordo com o momento histórico, as definições de gênero e de papéis atribuídos a eles também são singulares. Ou seja, o que define o gênero varia de cultura para cultura, e também pode se modificar ao longo do tempo. Além disso, uma pessoa pode também se identificar com um determinado gênero e não necessariamente cumprir todos os papéis designados culturalmente para aquele gênero, é o caso de uma mulher na nossa sociedade que decide permanecer solteira e não ter filhos, ou mesmo do homem que não deseja ser provedor da casa, embora tais papéis sejam esperados e cobrados social e culturalmente.

O que ocorre, contudo, é que não somos estimulados a questionar tais construções sociais e culturais sobre o mundo que nos cerca, e quando surge algo ou alguém que foge desses padrões, não somos capazes de entendê-los e aceitá-los.

Com aponta Marilena Dreyfuss, o resultado disso é a reprodução quase que automática de padrões que nos foram impostos, e no caso das questões de gênero, acontece uma naturalização, a necessidade de definir o indivíduo e sua sexualidade em categorias. Afinal, precisamos nos perguntar: De onde vêm, como foram criadas todas essas nossas concepções?

 Neste sentido, a psicóloga Luana Oliveira, que é especialista no assunto nos traz a importância do olhar e da escuta empática a esse “outro” que nos é desconhecido, mas que traz em si próprio as respostas para entendermos a dimensão humana na sua pluralidade de existência.

 Se pudermos integrar em nossas consciências esse leque todo de experiências entre o que seja gênero e sexualidade, e concomitantemente a variabilidade da expressão do humano possibilitaríamos maior mutabilidade de papéis e funções como também nos sentiríamos mais libertos, pois seríamos pessoas mais inteiras e realizadas. Esse é o caminho de Alex, nos mostrar a riqueza e possibilidades humanas sem a dogmatização do que seja certo ou errado, feminino ou masculino, bonito ou feio, do que deveria ou não ser feito.

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Este texto foi produzido pela Comissão Organizadora do Cine Sedes Jung e Corpo com base nas reflexões realizadas durante o evento realizado em Outubro de 2015, com os comentários da Professora e Psicóloga Junguiana Marilena Dreyfuss e das Psicólogas Luana Oliveira e Ana Maria Galrão Rios. A CONTI outra possui autorização para sua reprodução.

O Cine Sedes Jung e Corpo é uma atividade extracurricular do curso Jung e Corpo: Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

É um evento gratuito e aberto ao público geral organizado pelos professores do curso em conjunto com ex-alunos e ocorre todas as últimas sextas-feiras dos meses letivos do curso.

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