Uma dor de cabeça insistente, quando entra na rotina, costuma ser tratada como incômodo “normal”: estresse, cansaço, crise de enxaqueca, falta de descanso. O problema é que, em alguns casos, o corpo está avisando algo bem mais sério — e o tempo perdido entre uma consulta e outra pode mudar tudo.
Foi o que aconteceu com Tayla Sanchez. Aos 25 anos, ela passou cerca de um ano e meio procurando atendimento por dores de cabeça intensas. A resposta, repetida em diferentes consultas, era sempre a mesma: enxaqueca.
Até que, em setembro de 2016, a situação deixou de parecer “só” uma crise forte. Tayla teve convulsões dentro do hospital, foi intubada, entrou em coma induzido e ficou internada em estado crítico. Em uma sexta-feira, o médico que acompanhava o caso ligou chorando para uma prima dela. A orientação era dura: a família precisava ser avisada de que Tayla provavelmente não passaria daquele fim de semana.
Na segunda-feira seguinte, ela abriu os olhos.
“Literalmente morri”, contou Tayla. “As pessoas pensam que é no sentido figurado da palavra, mas não. Eu morri e voltei.”
O diagnóstico, que veio com atraso e dificuldade, foi acidente vascular cerebral isquêmico, desencadeado por uma trombose venosa cerebral. No caso dela, havia ainda sinais de sangramento, indicando uma combinação de processos graves no cérebro.
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A trombose venosa cerebral acontece quando um coágulo obstrui veias ou seios venosos responsáveis por drenar o sangue do cérebro. O sangue chega pelas artérias, irriga os tecidos e precisa sair pelas veias. Quando essa saída fica bloqueada, a pressão dentro do crânio aumenta.
E o crânio não tem espaço extra. Diferente de uma perna, que pode inchar para fora, a cabeça é uma estrutura rígida. Com o sangue represado, a pressão sobe, a circulação fica comprometida e regiões do cérebro podem deixar de receber oxigênio adequadamente.
Esse processo pode causar um AVC isquêmico, quando células cerebrais morrem por falta de circulação. Em quadros mais graves, a pressão também pode romper vasos menores e provocar sangramentos. Segundo a American Heart Association, a trombose venosa cerebral atinge com mais frequência mulheres jovens, e anticoncepcionais orais e gestação/puerpério estão entre os principais fatores de risco reconhecidos.
No hospital, Tayla enfrentou ao menos cinco convulsões. Ficou cerca de 20 dias internada, sendo 18 em UTI. Durante esse período, passou por dois ciclos de intubação e viveu o que descreve como três experiências de quase morte.
Tayla usava anticoncepcional hormonal havia dez anos. Depois do AVC, exames indicaram que ela tinha uma tendência genética à trombose — algo que ela desconhecia e que tornava o uso de anticoncepcional combinado uma questão bem mais delicada.
Anticoncepcionais combinados são aqueles que unem estrogênio e progesterona sintética. O ponto de atenção está no estrogênio, que pode favorecer a coagulação do sangue em algumas mulheres. A Anvisa já alertou sobre o risco de eventos trombóticos e tromboembólicos associado a contraceptivos orais combinados, especialmente em formulações de 3ª e 4ª geração.
Isso não significa que toda mulher que usa pílula terá trombose. O risco absoluto, para muitas pacientes, segue baixo. O problema aparece quando existem fatores somados: histórico familiar, tabagismo, obesidade, sedentarismo, enxaqueca com aura, trombofilias ou episódios anteriores de coágulos.
No caso de Tayla, a predisposição genética só foi descoberta depois. Antes disso, a dor de cabeça foi tratada como enxaqueca por meses e meses.
A dor de cabeça é um dos sintomas mais comuns da trombose venosa cerebral. Ela pode ser persistente, intensa, diferente do padrão habitual e resistente a analgésicos comuns. Também pode vir acompanhada de náusea, vômito, confusão mental, perda de força, alteração visual, sonolência ou convulsões.
O CDC lista dor de cabeça súbita e forte, sem causa conhecida, como um dos sinais de alerta para AVC, junto com fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, confusão, alteração na visão, tontura e perda de equilíbrio.
A Mayo Clinic também aponta que uma dor de cabeça intensa e repentina pode acompanhar vômitos, tontura e mudança no nível de consciência em casos de AVC.
No relato de Tayla, havia justamente uma mudança importante: a dor não era pontual, não passava como esperado e foi piorando ao longo do tempo. Ainda assim, a investigação por imagem demorou. Segundo a fonte original, o aparelho de tomografia do hospital estava quebrado, e o convênio inicialmente negou autorização para que o exame fosse feito em outro serviço.
Essa demora pesou. Em casos de trombose venosa cerebral, o tratamento precisa começar rapidamente e costuma envolver anticoagulação, controle de convulsões e monitoramento da pressão dentro do crânio. A Johns Hopkins Medicine descreve que o tratamento deve ser hospitalar e pode incluir anticoagulantes, medicamentos para convulsões, controle da pressão intracraniana, cirurgia em situações específicas e acompanhamento da atividade cerebral.
Quando saiu do coma, Tayla não voltou imediatamente à vida de antes. Ela havia perdido o movimento do lado direito do corpo e precisou reaprender tarefas básicas: falar, andar, escrever e digitar.
Para uma jornalista e escritora, reaprender a digitar tinha um peso extra. A velocidade que ela tinha antes do AVC nunca voltou por completo.
A recuperação foi favorecida pela idade. Cérebros mais jovens tendem a ter maior capacidade de reorganização, o que ajuda na reabilitação motora e cognitiva. Ainda assim, isso não apaga o trauma, nem elimina todas as sequelas.
Dez anos depois, Tayla segue em acompanhamento com hematologista, faz exames periódicos de coagulação e nunca mais usou anticoncepcional hormonal.
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A história de Tayla não transforma anticoncepcional em vilão automático. O ponto é outro: método hormonal precisa ser indicado com avaliação individual, e dor de cabeça fora do padrão não pode ser empurrada para a gaveta da “enxaqueca comum” sem investigação.
Antes de iniciar ou manter anticoncepcional combinado, vale conversar com o médico sobre histórico pessoal e familiar de trombose, episódios de abortos de repetição na família, enxaqueca com aura, tabagismo, obesidade, pressão alta e possíveis exames quando houver suspeita de trombofilia.
E, diante de dor de cabeça súbita, muito forte, diferente do habitual ou acompanhada de vômitos, confusão, desmaio, alteração visual, fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou convulsão, a orientação é procurar atendimento de urgência.
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