Tem música que envelhece de um jeito curioso: ela pode até desaparecer das conversas do dia a dia, mas basta tocar os primeiros segundos para alguma coisa acender na memória. Às vezes não vem o nome da banda, nem o refrão inteiro. Vem uma sensação. Um ritmo estranho, uma voz meio falada, um videoclipe difícil de esquecer. É exatamente esse o caso de “Once in a Lifetime”, do Talking Heads.
Lançada no álbum “Remain in Light”, de 1980, a faixa virou um dos trabalhos mais marcantes da banda liderada por David Byrne. Ela tem uma batida repetitiva, quase hipnótica, misturada com rock, new wave, funk e influência de ritmos africanos. O resultado era bem diferente do pop mais direto que tocava nas rádios da época — e talvez por isso mesmo tenha ficado tão grudado em quem ouviu.
A música também chama atenção pela forma como Byrne canta. Em vez de seguir uma interpretação tradicional, ele parece discursar, questionar, provocar. A letra fala de uma pessoa que olha para a própria vida e se pergunta como foi parar ali: numa casa, num emprego, num casamento, numa rotina que talvez nem tenha escolhido com tanta consciência assim.
Esse estranhamento aparece em uma das frases mais lembradas da canção: “And you may ask yourself, well, how did I get here?”. Em português, seria algo como: “E você pode se perguntar: bem, como eu vim parar aqui?”. É simples, mas bate fundo, porque conversa com aquela sensação de acordar um dia e perceber que a vida foi acontecendo no automático.
O clipe ajudou muito a transformar “Once in a Lifetime” em uma lembrança visual também. David Byrne aparece com movimentos secos, meio desajeitados, usando gestos inspirados em rituais e performances corporais. Para quem viu na TV, era impossível confundir com outro artista. Não tinha glamour fabricado, coreografia bonitinha ou pose de astro. Era esquisito, inquieto e muito original.
Apesar de hoje ser tratada como uma das grandes músicas do Talking Heads, “Once in a Lifetime” não foi aquele hit gigantesco nos Estados Unidos quando saiu. Curiosamente, seu reconhecimento cresceu com o tempo. No Reino Unido, ela chegou ao Top 20, alcançando a 14ª posição, e depois passou a aparecer com frequência em listas de músicas mais importantes do século 20.
A força da canção está justamente nessa mistura: ela soa dançante, mas a letra é quase uma crise existencial em forma de música. Você pode ouvir distraído e curtir o ritmo; ou pode prestar atenção e perceber que ela fala sobre consumo, rotina, identidade e aquela pergunta incômoda que muita gente evita fazer.
O Talking Heads nunca foi uma banda comum. Formado por David Byrne, Tina Weymouth, Chris Frantz e Jerry Harrison, o grupo tinha um jeito próprio de juntar arte, rock e experimentação sem transformar tudo em algo inacessível. “Once in a Lifetime” talvez seja o melhor exemplo disso: diferente o bastante para causar estranheza, mas forte o suficiente para atravessar décadas.
E se você não reconheceu pelo nome, talvez reconheça ao ouvir. A batida entra, a voz começa, e de repente aquela música de quase 50 anos atrás parece menos distante do que deveria.
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