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Uma ousada série fotográfica desafia os padrões de beleza em relação aos pelos femininos

Durante décadas, pelos nas axilas femininas foram tratados como algo que deveria ser escondido. A lâmina, a cera, os cremes depilatórios e, mais recentemente, o laser passaram a fazer parte da rotina de muitas mulheres a ponto de a ausência de pelos parecer, para algumas pessoas, uma característica natural do corpo feminino.

É justamente essa percepção que o fotógrafo londrino Ben Hopper decidiu colocar diante das câmeras. Em sua série fotográfica “Natural Beauty”, mulheres aparecem com os pelos das axilas crescidos, em fotografias em preto e branco que contrastam a estética tradicionalmente associada à feminilidade com uma característica corporal que costuma ser considerada inadequada.

O resultado provoca estranhamento em parte do público. E esse desconforto é, em boa medida, parte da proposta do projeto.

Quando a depilação passou a ser uma obrigação?

A remoção dos pelos corporais é muito anterior aos padrões de beleza atuais. Existem registros de práticas de depilação em diferentes sociedades antigas, realizadas por motivos que iam desde costumes culturais até higiene e estética.

A transformação mais significativa na relação entre mulheres e pelos corporais, porém, ocorreu no início do século XX. Com mudanças na moda feminina, roupas que deixavam braços e pernas mais expostos e campanhas publicitárias voltadas especificamente para mulheres, a remoção dos pelos começou a ser apresentada como um cuidado pessoal esperado.

A questão deixou de ser simplesmente “depilar ou não depilar”. Aos poucos, a presença de pelos passou a ser associada à falta de cuidado, enquanto a pele sem pelos ganhou espaço como referência de aparência feminina.

Essa associação foi tão repetida que acabou parecendo uma escolha individual completamente espontânea, mesmo quando havia uma forte pressão social envolvida.

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O que Ben Hopper quis mostrar com “Natural Beauty”

Hopper iniciou o projeto “Natural Beauty” em 2007, fotografando mulheres que decidiram aparecer diante das câmeras sem remover os pelos das axilas.

As imagens exploram deliberadamente o contraste entre elementos tradicionalmente relacionados à fotografia de moda, como poses, iluminação e estética cuidadosamente construída, e a presença dos pelos corporais.

O fotógrafo explicou que queria investigar por que as axilas femininas com pelos ainda provocam uma reação tão intensa.

Para ele, a indústria da moda e o cinema ajudaram a consolidar padrões bastante específicos para a aparência das mulheres. Dentro desses padrões, a pele feminina costuma ser apresentada como lisa, uniforme e livre de pelos.

Ao retirar esse elemento da equação, as fotografias colocam o espectador diante de uma característica que sempre esteve ali, mas que raramente aparece em imagens produzidas para representar beleza.

O incômodo está justamente no contraste

As fotografias de Hopper não tentam esconder os pelos nem tratá-los como um detalhe secundário. Eles ocupam espaço na composição e entram em choque com a expectativa visual criada pela fotografia de moda.

É esse contraste que torna a série particularmente provocativa.

Uma mulher pode estar maquiada, usando roupas sofisticadas e posando de maneira semelhante à de modelos presentes em campanhas publicitárias. A diferença está nas axilas sem depilação.

Para quem está acostumado a associar feminilidade à ausência de pelos, a combinação pode parecer estranha. Para outras pessoas, a imagem simplesmente apresenta uma característica corporal que costuma ser removida antes mesmo de ser percebida.

A série, portanto, não precisa dizer ao público o que ele deve pensar. As próprias imagens criam a pergunta: por que algo tão comum no corpo humano provoca tanta rejeição quando aparece em uma mulher?

As mulheres fotografadas também têm percepções diferentes

As participantes de “Natural Beauty” não apresentam necessariamente a mesma relação com os pelos corporais. Algumas descrevem a decisão de deixá-los crescer como uma experiência de liberdade e confiança. Outras relatam simplesmente terem se sentido mais confortáveis.

Essa diferença é importante porque evita reduzir a discussão a uma única interpretação.

Para algumas mulheres, deixar os pelos visíveis representa romper com uma expectativa estética. Para outras, pode ser apenas uma preferência pessoal, sem intenção de transmitir qualquer mensagem política.

Uma das participantes, conhecida como Kyotocat, relatou que se sentiu aliviada e livre ao deixar os pelos crescerem. Sophie Rose, outra modelo do projeto, descreveu a experiência como uma forma de se sentir mais forte diante das expectativas sobre como deveria ser.

Gabriela Eva, que deixou os pelos crescerem especificamente para a sessão, contou que inicialmente se sentiu vulnerável, mas depois passou a enxergar a própria aparência de outra maneira.

Esses relatos mostram que a mesma escolha pode ter significados completamente diferentes para pessoas diferentes.

Deixar os pelos crescerem precisa ser um ato político?

Essa é uma das questões mais interessantes levantadas pelo projeto.

Uma das participantes, Sienna, questionou justamente a necessidade de transformar o corpo feminino em uma declaração política. Para ela, deixar os pelos das axilas crescerem pode significar simplesmente estar confortável consigo mesma.

A atriz sueca Emilie Bostdt seguiu uma linha semelhante ao observar que uma característica corporal natural ter se tornado uma espécie de declaração política é, por si só, algo bastante curioso.

A discussão ajuda a separar duas coisas que frequentemente são colocadas no mesmo pacote: a liberdade de escolher o que fazer com o próprio corpo e a obrigação de transformar essa escolha em uma bandeira.

Uma mulher pode depilar as axilas porque gosta da sensação da pele lisa. Outra pode preferir manter os pelos. Uma terceira pode alternar entre as duas opções dependendo da época ou da ocasião.

Nenhuma dessas escolhas precisa representar uma posição política.

O objetivo não é convencer mulheres a abandonar a depilação

Hopper também deixou claro que sua proposta não consiste em defender que todas as mulheres deixem de depilar as axilas.

A intenção de “Natural Beauty” é provocar uma reflexão sobre os padrões que determinam o que costuma ser considerado bonito, feminino ou aceitável.

A diferença é significativa. Questionar um padrão não significa necessariamente substituí-lo por outro.

Se a mulher sem pelos é apresentada como ideal, a alternativa não precisa ser transformar a mulher com pelos em um novo ideal. O ponto central pode ser simplesmente ampliar aquilo que é considerado aceitável na representação do corpo feminino.

Nesse sentido, a série de Hopper trabalha com uma pergunta simples, mas incômoda: quando uma escolha estética deixa de ser realmente uma escolha e passa a parecer uma obrigação?

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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