Talvez teria sido melhor se eu não tivesse questionado tanto

Talvez teria sido melhor se eu não tivesse questionado tanto.

Talvez teria sido melhor se eu tivesse calado (com algum placebo psicológico) uma voz interna. Talvez teria sido melhor eu não ter sido, desde criança, alguém que tentasse entender o porquê das coisas do mundo (não tivesse inventado uma lupa de olhar pelas fechaduras).

Talvez teria sido melhor eu ter abafado esse olhar que nasceu empático. Talvez teria sido melhor eu ter permanecido na superfície das pessoas, dos sentimentos, das situações.

Talvez teria sido melhor eu ter vestido papéis que me ensinaram (mas sempre me pinicaram a pele). Talvez teria sido melhor eu ter sentado na bolha protetora, dentro da zona de conforto do mundinho redondo e raso que sabe bem anestesiar as dores e inflar os egos do grupinho dos privilegiados.

Talvez teria sido melhor eu não ter notado num horizonte (mesmo que distante, e de caminho árduo de percorrer) a liberdade.

Talvez teria sido melhor se eu não tivesse aberto caixas de pandoras, armários que guardam segredos, se eu não tivesse dado espaço para selvagerias da alma.

Talvez teria sido melhor se eu tivesse me comportado (mesmo com uma dorzinha sempre latente no fundo da alma). Se eu tivesse feito da minha vida um roteiro óbvio a ser seguido (era só pegar o livro das grandes verdades), se eu tivesse confundido a mim mesma com os rótulos disponíveis por aí.

Se eu não tivesse brincado de ser legista de tudo que cai na minha mão.

Talvez teria sido melhor…

Só que não…. só que nunca.

A vida sempre pulsou (mesmo quando tentou ser ofuscada).

A vida sempre pulsa.

(E meus olhos sempre souberam que por mais que eu fingisse, meu caminho seria esse mesmo – árduo, profundo, corajoso, rumo à autolibertação).

E cá
e aqui estou.

Clara Baccarin

Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.

Recent Posts

Morar no exterior e sentir que não pertence a lugar nenhum: como a terapia online pode ajudar

Morar no exterior e sentir que não pertence a lugar nenhum: como a terapia online…

44 minutos ago

Terapia online e EMDR para brasileiros no exterior: cuidar da mente sem abrir mão da própria língua

Morar em outro país pode representar conquista, crescimento profissional, novas oportunidades e contato com culturas…

4 horas ago

EMDR para brasileiros no exterior: por que nunca é tarde para tratar traumas antigos

Morar em outro país pode representar uma conquista importante, mas também pode fazer com que…

1 dia ago

Existe idade para tratar um trauma? Por que nunca é tarde para procurar ajuda

Uma experiência dolorosa pode permanecer conosco durante décadas. Algumas pessoas chegam aos 50, 60, 70…

2 dias ago

O que acontece quando evitamos durante anos uma lembrança dolorosa

Quando determinada lembrança provoca sofrimento, tentar não pensar nela parece uma solução bastante lógica. Mudamos…

2 dias ago

Josie Conti fala sobre os efeitos de traumas não elaborados ao longo da vida

Algumas experiências passam. Outras parecem continuar acontecendo dentro de nós muito depois de terminarem. Uma…

2 dias ago