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Para um sono ansioso, um travesseiro de concreto.

Enfim, chega o esperado momento do descanso, aquele soninho bom, a gente tranca as portas, pega a água, escova os dentes e parte para o sono dos justos. Mas, no que deita, a cabeça começa com o zigue-zague insistente, descontrolado, desnorteado, jorrando pensamentos, resoluções, saudades, pendências, listas, planilhas, mágoas, lembranças… E, vira pra lá, vira pra cá, os olhos esbugalhados, o sono se foi para outro planeta e está longe de querer voltar.

Começa então a conversa com o travesseiro: – Nossa, tenho que me organizar amanhã, pagar as contas, comprar as pilhas do controle, ligar para marcar médico, responder duzentos e-mails, fazer a lista da feira… Ah, vou trocar a foto do perfil, cancelar aquela assinatura…

E o travesseiro fica desconfortável, parece de pedra, mal humorado, irritado com tanta ladainha, num momento que era para ser relaxante, suave e tranquilo. Nem com umas batidinhas e afofadas ele se rende. Agora está em estado de total protesto! Não me acha merecedora de uma boa noite de sono e deixa claro que que não vai compartilhar com esse momento neurótico. E mais, meu malandro travesseiro fica de tal forma impassível e rígido que me desperta enfim para a lição que eu preciso aprender nesta noite insone: Tudo pode esperar, nem tudo é tão urgente nem importante a ponto de sequestrar meu sono, nada pode ser tão avassalador para travar uma coluna cervical, salvas raras e justificadas exceções . Não, não será possível agendar médicos, exames, manicures, atendimentos neste horário; Não, ninguém quer ver a foto nova do perfil neste momento; Não e não, resolver brigas e mal entendidos agora não! Também não, ainda que as contas tenham vencido, elas terão que esperar para o dia seguinte. Então, para que tanta ansiedade? Há algo trocado nas agendas, pois que o que deveria ter sido vivido no dia, toma o espaço da noite com fúria e suores e bruxismos! Penso na minha covardia ao enfrentar o dia. E ele chega. E o literal pesadelo começa na manhã seguinte da tal noite mal dormida, o pescoço doendo, o raciocínio lento, as urgências da madrugadas embaralhadas e esquecidas e o travesseiro lá, lindo e fofo, mostrando que tudo poderia ter sido diferente e confortável. O dia urge! Quem sabe mais tarde, se eu tiver aprendido a lição. Urgente sou eu!

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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