“O problema não é crescer, mas esquecer…”

Tomei a frase-título emprestada do filme “O Pequeno Príncipe” _ a nova animação, dirigida por Mark Osbourne faz uma emocionante releitura do clássico de Saint-Exupéry e nos abraça com a história de amizade entre o aviador e uma menina, pra quem ele conta a história do principezinho, repleta de ensinamentos em forma de poesia.

É para a menina que o aviador fala: “O problema não é crescer, mas esquecer”. E entendemos que ele tem razão, ao constatarmos que o amadurecimento impõe despedidas, e nesse processo muitas vezes esquecemos quem fomos e os vínculos que construímos no decorrer do caminho. Como o principezinho, cativamos e fomos cativados ao longo da vida, mas muitas vezes preferimos esquecer para poder crescer.

No último fim de semana, comemorando o aniversário de quarenta anos do meu irmão, me comovi diante do painel que reunia mais de trezentas fotos de sua vida, do momento do nascimento, passando pela infância e adolescência (em que fomos muito mais que irmãos), e finalmente chegando à vida adulta, celebrada em fotos com sua esposa e os dois filhos. Embalados pelo clima de nostalgia da festa _ muitos parentes e amigos de longa data estavam presentes _ recordei histórias antigas, elos fortes que construímos nos primeiros anos, e nos abraçamos num gesto emocionado.

Fazia tempo que não me permitia estar assim. Fazia tempo que não era para meu irmão a irmã que um dia eu fui. Fazia tempo que eu não me lembrava.

Recordar certas histórias nos traz de volta. Aproxima e aquece. Não permite que fragmentos do que fomos se percam pelo caminho nem fiquem renegados a um canto abandonado de nossa existência.

E vamos descobrindo que precisamos nos despedir para crescer, mas nunca nos esquecer daquilo que um dia fez parte do que fomos, a matéria prima de tudo o que nos tornamos.

Recordar nossos amigos, nossa família-base, nossos afetos e tudo o que envolveu esses encontros é aprender a conciliar dois mundos _ o presente e o passado_ e fazer deles uma construção nova, que nos torna pessoas melhores e mais afetuosas.

Dizem que não devemos mexer em certas dores. Mas é remexendo antigos baús que podemos esclarecer e decodificar o presente de uma forma mais amorosa com nós mesmos.

Meu irmão e eu crescemos, e nosso distanciamento natural, provocado pelas novas famílias que formamos, foi momentaneamente quebrado naquela tarde de seu aniversário. Naquele momento, comovida pelo mural de fotos, lembrei do tempo em que éramos crianças, e quebramos o gelo com nossa lembrança. Com a possibilidade de resgatar quem fomos agarrando-nos às nossas memórias.

“O problema não é crescer, mas esquecer”. Que a gente aprenda a buscar nossa afetividade no presente, mas também no tempo que deixamos pra trás. Que possamos nos lembrar de como era bom ter amigos no portão e ouvir a mãe chamando pro jantar. Que recordemos antigos aromas, como o da chuva numa tarde de maio e do bolo com café numa reunião de família. Que não esqueçamos antigos sons, como a voz da avó cantando “Se alguém te convidar pra tomar banho em Paquetá, pra piquenique na Barra da Tijuca ou pra fazer um programa no Joá…” e os irmãos torcendo pro time campeão. E que, inesperadamente, possamos resgatar essas lembranças e nos comover como há tempos não fazíamos. E descobrir, finalmente, que não estamos sozinhos. Ao contrário, nossos dias estão povoados com aquilo que deixamos, com o que partiu, com o que aparentemente não existe mais…

Fabíola Simões

Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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