Um dos mais aclamados fotógrafos da atualidade, o brasileiro Sebastião Salgado pode, ao longo de sua vida, entender muito bem as origens da miséria humana. Ao longo de sua carreira, viajou o mundo todo registrando imagens de momentos de crise e de guerra e acompanhou como se deu o início de uma série de conflitos que culminaram em graves consequências até os dias atuais.
Uma dessas consequências, que ganhou notoriedade principalmente nos últimos meses, é a crise de refugiados que tem levado milhões de sírios, líbios, iraquianos, africanos e cidadãos de outros países a buscarem abrigo em pátrias que não são as suas. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, neste domingo (4), Salgado fez uma análise da atual crise de refugiados e atribuiu o problema à intervenções militares dos Estados Unidos e de países da Europa.
Para o fotógrafo, há a impressão de que trata-se de um problema novo por conta dos atuais fluxos migratórios de refugiados que chegam à Europa principalmente através da Itália. Ele pontua, contudo, que a crise começou muito antes.
“Como essas pessoas estão chegando à Europa, parece que a história é nova, mas não é nova, não. É velha, é a história da globalização, da reorganização da família humana, da concentração em centros urbanos, das geopolíticas. Quando eu conheci o Iraque, era um país rico, onde as pessoas trabalhavam, tinham aposentadoria, residências e viviam em paz. Um país [Estados Unidos] imaginou que lá havia armas de destruição em massa, atacou o lugar e o trouxe para a idade da pedra. No Iraque hoje ninguém tem casa, bomba explode todos os dias, é um país fisicamente destruído. Para onde você quer que esse povo vá?”, questionou.
Em sua análise, Salgado citou ainda outro exemplo de intervenção, mas dessa vez de países europeus na Líbia.
“Era uma estabilidade, de uma ditadura, mas os líbios tinham casa, escola, viviam de uma maneira razoável. Tomou-se a decisão de botar o [ex-ditador líbio] Gadaffi para fora. Bombardeios, tropas francesas e britânicas entraram com os rebeldes, mas eles não tinham ideia da casa de marimbondo em que estavam mexendo. A ponto de ninguém assumir o controle daquilo, nem os líbios, virou um negócio terrível. De onde saem milhares de refugiados que hoje atravessam em direção à Itália? Você joga com a história dos outros e depois sofre com as consequências”, avaliou.
Fonte indicada:Revista Fórum
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