Antes de o nome Julio Iglesias aparecer em capas de discos, programas de televisão e grandes casas de espetáculo, ele tinha outros planos. Aos 19 anos, estudava Direito e tentava construir uma carreira como goleiro nas categorias de base do Real Madrid. A música ainda estava longe de ocupar o centro de sua vida.
Esse caminho mudou de forma brusca depois de um acidente de carro que comprometeu seus movimentos e encerrou suas pretensões no futebol. Anos depois, o jovem que precisou reaprender a andar acabaria vendendo centenas de milhões de discos e se transformando em um dos artistas espanhóis de maior alcance internacional.
Nascido em Madri, em 23 de setembro de 1943, Julio José Iglesias de la Cueva conciliava os estudos universitários com o futebol.
Ele atuou como goleiro nas categorias inferiores do Real Madrid no início da década de 1960. Algumas versões de sua biografia aumentaram bastante essa passagem pelo clube ao longo dos anos, chegando a apresentá-lo como goleiro do time principal. O mais correto é dizer que Julio fazia parte da formação madridista e alimentava a expectativa de seguir profissionalmente no esporte.
Naquela época, cantar profissionalmente sequer estava nos planos.
Tudo mudou quando ele ainda era muito jovem.
Em setembro de 1962, Julio Iglesias sofreu um grave acidente automobilístico em Madri. O carro em que estava com amigos saiu da estrada, e as consequências acabaram sendo muito mais sérias do que pareciam inicialmente.
Problemas na região da coluna comprometeram sua mobilidade. Julio passou um longo período entre hospitalização, repouso e tratamento, chegando a enfrentar a possibilidade de não voltar a caminhar normalmente.
Para alguém que pretendia viver do futebol, o diagnóstico significava também o desaparecimento de uma carreira que mal havia começado.
Em relatos posteriores, o próprio Julio descreveu aqueles anos como um período de recuperação física exaustiva. Ele precisou reconstruir movimentos básicos e passou horas praticando exercícios, incluindo natação, para recuperar força e coordenação.
O futebol profissional, porém, ficou para trás.
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Foi justamente durante essa fase que a música começou a ganhar espaço.
Segundo uma das histórias mais conhecidas sobre sua recuperação, um enfermeiro chamado Eladio Madaleno lhe deu uma guitarra. A intenção inicial teria sido ajudá-lo a exercitar os dedos e ocupar o tempo durante a longa convalescença.
Julio começou a aprender acordes e, pouco depois, passou a escrever.
O instrumento que surgiu quase como parte de uma rotina terapêutica acabou revelando uma habilidade que até então estava escondida. Sem perspectivas de voltar ao futebol, ele começou a transformar experiências pessoais em letras e melodias.
Entre as composições daquele período estava “La vida sigue igual”.
O título acabaria se tornando especialmente significativo diante do que havia acontecido com ele.
A recuperação demorou anos.
Julio voltou a caminhar, embora tenha carregado consequências físicas do acidente durante a vida. A natação tornou-se uma parte importante de sua rotina e, segundo relatos do próprio cantor, chegou a ocupar várias horas de seus dias durante a reabilitação.
Enquanto recuperava a independência física, também escrevia cada vez mais músicas.
Em vez de tentar retomar o antigo projeto de se tornar jogador, começou a enxergar outra possibilidade de carreira.
E ela ganhou forma definitiva em 1968.
Em 17 de julho de 1968, Julio Iglesias participou do Festival Internacional da Canção de Benidorm com “La vida sigue igual”.
Ele venceu.
A vitória foi o ponto de partida de sua carreira profissional como cantor e compositor. O próprio site oficial do artista registra aquela apresentação como o início de sua trajetória musical pública.
Curiosamente, há relatos de que Julio inicialmente pretendia atuar principalmente como compositor, deixando suas músicas para outros intérpretes. A recepção obtida em Benidorm, porém, apontou para outro caminho.
Dois anos depois, em 1970, ele representou a Espanha no Festival Eurovision com “Gwendolyne” e terminou a competição em quarto lugar.
A partir dali, sua carreira avançou rapidamente para fora da Espanha.
Uma das estratégias que ampliaram seu alcance foi gravar repertório para diferentes mercados.
Julio lançou músicas em espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, português e outros idiomas, o que ajudou a transformar sua carreira espanhola em um fenômeno comercial internacional.
Nas décadas seguintes, passou a realizar turnês em vários continentes e construiu uma audiência especialmente forte na Europa, América Latina e Estados Unidos.
Seu estilo romântico e a facilidade para adaptar repertórios a diferentes idiomas fizeram dele um dos artistas latinos com maior circulação internacional durante boa parte do século XX.
O contraste com aquele rapaz que passou anos tentando recuperar os movimentos dificilmente poderia ser maior.
Ao longo da carreira, Julio Iglesias ultrapassou a marca de 300 milhões de discos vendidos em todo o mundo, segundo dados divulgados pela Recording Academy, responsável pelo Grammy. A instituição o descreve como o artista latino masculino de maior venda da história.
São números alcançados depois de uma carreira que atravessou décadas e mercados muito diferentes entre si.
Seu sobrenome também ganharia outra geração de destaque na música por meio de Enrique Iglesias, seu filho, que construiu uma carreira internacional própria.
Mas a história de Julio poderia ter seguido numa direção completamente diferente.
Aos 19 anos, ele estava ligado ao Real Madrid e pensava em futebol. Aos 24, subia ao palco do Festival de Benidorm com uma canção escrita durante sua recuperação. A partir daquele momento, as luvas de goleiro deram lugar definitivamente ao microfone.
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