O filme Nise- O Coração da Loucura dirigido por Roberto Berliner e interpretado com beleza por Gloria Pires nos remete à história da psiquiatra alagoana, Nise da Silveira que depois de sair da prisão por motivos políticos, assume a direção da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação em meados de 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional.
Nise da Silveira é a pioneira do estudo da psicologia analítica no Brasil. Desde o período de formação na Faculdade de Medicina da Bahia, a psiquiatra alagoana procurou a psicanálise freudiana e finalmente a psicologia analítica de Carl Gustav Jung sua base teórica. Ela começa seu trabalho à frente da Seção de Terapêutica Ocupacional no Hospital de Engenho de Dentro em 1946. As noções de catarse e sublimação vieram ajudar a compreender e curar os internos esquizofrênicos dando um basta aos choques elétricos anteriores. Em poucos meses de trabalho, os doentes se expressaram através da pintura para construírem uma ponte para dentro, uma vez que estavam afásicos, sem nenhuma conexão com sua realidade psíquica. A esquizofrenia faz com que o indivíduo se desligue do mundo exterior e viva sem mais um elo de comunicação, o que o torna demente e alienado de si próprio..
As pinturas começaram a ser expostas e se destacaram tanto pela qualidade artística quanto pelos problemas científicos levantados nos trabalhos. Havia um material muito rico a ser pesquisado e analisado pela doutora Nise. Críticos de arte e terapeutas passaram a debater acerca da importância do trabalho de Nise pois as imagens rompiam com dogmas estabelecidos tanto no campo da arte quanto nos cânones psiquiátricos.
Na exposição 9 Artistas de Engenho de Dentro, Nise fala sobre três noções psicanalíticas: o sonho como meio de realização de um desejo, sublimação e estranheza inquietante. As explicações são dadas com embasamento na teoria de Carl G Jung principalmente no que concerne as mandalas em forma circular, como símbolos que mostram uma tentativa de reordenação psíquica. As mandalas com suas estruturas concêntricas remetem às imagens primordiais da totalidade psíquica e Nise viu neste método uma psicoterapia não verbal em pacientes esquizofrênicos, como se estivessem estabelecendo uma ponte para o inconsciente coletivo tão explorado por Jung.
Nise da Silveira em seu experimento, conseguiu explicar que as imagens plasmadas tinham um efeito catártico e a sublimação dos desejos inconscientes que anteriormente apareciam deformados como sintomas. Nise da Silveira entrou em contato com Jung através de cartas e lhe enviou mandalas dos pacientes. Na resposta, Jung aprova e admira o trabalho de cura da psiquiatra brasileira e a psicologia junguiana foi um instrumento produtivo para seu trabalho terapêutico.
Nise da Silveira consolidou uma das mais fecundas obras no campo de saúde mental e as concepções de Jung foram divulgadas pelas mãos firmes de uma das maiores pesquisadoras do Brasil, criadora de uma obra viva que ainda dará muito frutos.
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