Psicologia-diversos

“Não me pergunte as razões, mas preciso chorar”, por Ita Portugal

Não me pergunte as razões, mas preciso chorar. Isso não é coisa de um coração magoado ou dor de algum amor inacabado. Não, não é!

É explosão dos guardados. Excesso de opção. É pó acumulado onde não deveria mais estar. Preciso chorar, isso é fato! Desenterrar algumas verdades. Semear alguma metáfora sobre ser gente sensível e repetir com as infalíveis lágrimas a limpeza da alma.

Preciso chorar com a mesma força com que os colibris sugam as flores. Desmanchar todos os precipícios e aumentar a possibilidade de envelhecer por entre os olhos. Preciso chorar nem que seja um choro de paz, dando dicas de que ou virá primavera por aí, ou o outono aumentará sua força derrubando as folhas que ainda sobraram de minha sombra.

Preciso chorar sem fazer nenhum barulho. Sem discurso explicativo e improvisado. Preciso desse mau costume.

Milhares de vezes, preciso chorar. Ser silêncio engasgado. Palavra não dita. Seria até muito árduo explicar e eu não convenceria a humanidade, mas se consola saber, preciso chorar para aliviar, corrigir, respirar.

Sem nenhum pesadelo que me inocente do ato, sem arrumar desculpas e sem sofrer de dúvidas; preciso chorar. Recolher as histórias indecentes, os pensamentos impróprios, a preguiça social e continuar com o incerto com a coragem apenas para chorar.

Chorar uma inundação e sequer ficar marcas do vendaval. Nos próximos dias, sem muitas reações, sem abandono da vida, preciso chorar. Mastigar as lágrimas e soprar para o vento os últimos respingos. Esperar o choro tal como se espera uma ressaca de um porre e sobreviver sem nenhum efeito colateral.

Feito terra fértil, preciso verter o choro e deixa-lo se desfazer devagar. Sem essa de pressa, preciso chorar lentamente. Devastar as flores mortas.

Preciso chorar e ficar cinza. Me apossar dessa perturbável vontade que hoje é um luxo até que a missão do choro esteja cumprida e definitivamente traga uma satisfação intima.

Desde já, eu me autorizo a chorar.

***

Abaixo, a página e publicação original da autora.

Imagem de capa: Akulinina/shutterstock

CONTI outra

As publicações do CONTI outra são desenvolvidas e selecionadas tendo em vista o conteúdo, a delicadeza e a simplicidade na transmissão das informações. Objetivamos a promoção de verdadeiras reflexões e o despertar de sentimentos.

Recent Posts

Terapia por IA: quando a verdadeira terapia online acontece com um psicólogo em tempo real

A expressão “terapia por IA” ganhou espaço nas buscas da internet. Com a popularização dos…

1 dia ago

Ela foi símbolo de uma era da televisão e, seis décadas depois, ainda é reconhecida nas ruas

Ela era presença constante na televisão, mas hoje poucos sabem como vive a atriz de…

2 dias ago

Extravirgem no rótulo, mas não no laudo: análise aponta problemas em marcas de azeite conhecidas

Seu azeite pode não ser tão extravirgem quanto parece; laudo aponta marcas reclassificadas

2 dias ago

Pareciam ovos de algum animal, mas as bolinhas brancas perto da cama escondiam outra explicação

Essas pequenas esferas brancas apareceram ao lado da cama e deixaram muita gente intrigada

2 dias ago

Seu ano de nascimento termina com qual número? A resposta pode revelar um traço surpreendente

Há um detalhe no seu ano de nascimento que pode revelar algo curioso sobre sua…

2 dias ago

Qual bebê chamou sua atenção primeiro? A resposta pode revelar um traço marcante da sua personalidade

Entre os 4 bebês, qual você escolheria primeiro? A resposta pode revelar um traço que…

2 dias ago