Não me leve a mal, mas eu preciso dizer o quanto você me faz bem.

Eu sei. Há coisas mais profundas por discutir. Questões de primeira ordem, perguntas importantes, assuntos urgentes. Mas lá fora um ventinho manso me convida a olhar o céu e procurar você entre as Três Marias. Aí é covardia. Eu já escolhi.

Essa gente toda entrando em detalhes só me dá vontade de sair com você por aí. Deus me livre de precisar defender a teoria geral das coisas, pregar verdades definitivas, postular perfeição. Eu só preciso dizer o quanto você me faz feliz.

Que nos perdoem a crise, o dólar, a política, o êxodo rural, o caos nas cidades. Urgente agora é pegar sua mão e dar no pé. Bater perna, cair no mundo. Tem coisa que a gente precisa fazer agora. Antes que o meteoro venha, que o segundo passe, que o mundo acabe.

Olha só a cara desse povo, tão preocupado em durar para sempre, tão incapaz de ocupar seu instante. Aí vem o segundo seguinte, leva tudo e lá se foi a vida inteira. Eu, hein! Quero mais é nadar com você nessa água toda. A gente nunca sabe. Melhor viver logo e depois se vê o que faz.

Faz um segundo que você chegou e eu já conheço seu rosto há tanto tempo! Pareço com você. Vai explicar… não liga, não. Eu só preciso repetir o quanto você me faz feliz.

Tem coisa que a gente já nasce sabendo. Já vem ao mundo fazendo. Ninguém ensina. Lá pelas tantas esquece e só vai lembrar mais tarde. Estou me dando conta do que você me lembrou agorinha: que o amor já nasceu comigo. Estava aqui desde o seio materno, transpirando ternura por minha mãe. Hoje transpiro amor pelas palmas da mão, caminhando ao seu lado por aí.

Ando achando que o amor não chega para ninguém. Ele já está em todo mundo. Sempre esteve. Esquecido no fundo de uma gaveta, perdido no vão do sofá entre botões e moedas, guardado com velhos papéis em um envelope puído, dormindo em cavernas como um urso imenso, solitário, o amor está lá. À espera.

Então acontece de alguém chegar, alguém partir, e o amor desperta na gente. Em mim, acordou faminto como quem dormiu a vida inteira. Levantou, lavou-se com tempo, assaltou a geladeira, escovou os dentes e ganhou a rua.

Um ventinho manso o convidou a olhar o céu. E bem ali ele viu você, papeando com as Três Marias, sorrindo, sorrindo. Você não me leve a mal. Eu só preciso dizer o quanto você me faz feliz.

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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