No Sobell House, em Oxfordshire, na Inglaterra, a comida faz parte de um cuidado bastante específico. A instituição atende adultos com doenças que limitam a vida e oferece assistência paliativa e de fim de vida. É nesse ambiente que trabalha Spencer Richards, chef responsável por preparar refeições que, em alguns casos, acabam sendo as últimas saboreadas pelos pacientes.
Embora a palavra inglesa hospice às vezes seja traduzida literalmente como “hospício”, o Sobell House não é uma instituição psiquiátrica. Trata-se de um centro especializado em cuidados paliativos, ligado ao Oxford University Hospitals NHS Foundation Trust. A casa mantém uma cozinha própria, onde as refeições são preparadas diariamente e podem ser adaptadas às necessidades alimentares de cada pessoa.
Para Richards, essa adaptação vai bem além de trocar ingredientes. O chef procura descobrir o que cada paciente realmente gostaria de comer, mesmo que o pedido esteja distante do cardápio habitual.
Em entrevista repercutida pela imprensa britânica em 2025, ele resumiu sua visão sobre o trabalho: considera um privilégio poder servir a alguém sua última refeição.
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Entre pratos elaborados, sobremesas e receitas ligadas às lembranças pessoais dos pacientes, um pedido acabou se destacando: bolo de aniversário.
Richards contou que esse é um dos pedidos mais frequentes entre as pessoas atendidas no Sobell House. Um dos episódios que mais o marcou envolveu uma mulher de 93 anos que nunca havia experimentado um bolo de aniversário. A equipe preparou um para ela, e a paciente se emocionou ao receber a surpresa.
Segundo o chef, pedidos aparentemente simples podem ganhar uma importância especial para pacientes que passaram por períodos de isolamento ou solidão. A comida também pode estar associada a lembranças familiares e momentos importantes da vida.
Isso não significa, porém, que exista um único “último prato” escolhido por todos. Richards procura trabalhar a partir das preferências individuais. Em outra ocasião, um paciente de 21 anos não se interessava por nenhuma das opções disponíveis no cardápio. Quando a equipe descobriu que ele gostava de street food, preparou uma refeição inspirada nesse tipo de culinária.
A preparação dessas refeições também exige atenção às condições clínicas de cada paciente. Medicamentos, idade e tratamentos como a quimioterapia podem alterar o paladar, reduzir o apetite ou dificultar a mastigação e a deglutição.
Por isso, nem sempre a preferência do paciente pode ser atendida exatamente da maneira convencional. Texturas e temperos precisam ser ajustados, e opções como gelatina, sorvete e sobremesas mais macias podem se tornar adequadas dependendo da situação. O próprio Sobell House informa que sua cozinha atende necessidades alimentares específicas quando a equipe é avisada.
Richards também relatou ter percebido mudanças de preferência entre pessoas com câncer, incluindo maior procura por sabores doces e, em alguns casos, sensibilidade ao sal. Ele procura levar essas alterações em conta ao preparar cada prato.
O cuidado com a alimentação faz parte de uma estrutura maior de assistência. Fundado em 1976, o Sobell House foi um dos primeiros hospices modernos do Reino Unido e atualmente atende, segundo a própria instituição, mais de 4.500 pacientes e familiares por ano, tanto em sua unidade de Oxford quanto em hospitais e residências.
Para Richards, uma refeição pode recuperar uma lembrança específica ou simplesmente oferecer ao paciente algo que ele ainda deseja experimentar. Algumas famílias, segundo ele, chegam a retornar ao local meses depois para agradecer pelo cuidado recebido nos últimos dias de seus parentes.
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