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Mudança no Mar Morto leva fiéis a relacionarem fenômeno a profecia bíblica; ciência explica?

Há um detalhe decisivo nas imagens de peixes e vegetação registradas perto do Mar Morto: a vida não surgiu nas águas hipersalinas do lago. Ela se desenvolveu em pequenas lagoas de água doce formadas ao redor da costa, algumas delas ocupando depressões abertas pelo recuo acelerado da água.

A diferença pode parecer pequena para quem vê um vídeo curto nas redes sociais, mas muda completamente a interpretação do fenômeno. Enquanto grupos religiosos associam essas lagoas a antigas profecias bíblicas sobre a recuperação do Mar Morto, geólogos apontam para um processo conhecido e preocupante: a dissolução de camadas subterrâneas de sal e a formação de milhares de dolinas.

Localizado entre Israel, Cisjordânia e Jordânia, o Mar Morto apresenta concentração de sal superior a 30%, quase dez vezes maior que a encontrada nos oceanos. Nessas condições, peixes, plantas aquáticas e outros organismos maiores não conseguem sobreviver. Ainda existem microrganismos adaptados ao ambiente extremo, mas a superfície principal do lago permanece incompatível com a presença de peixes.

Peixes foram encontrados perto do Mar Morto, não em suas águas

Parte da repercussão começou em 2016, quando o fotógrafo israelense Noam Bedein, fundador do Dead Sea Revival Project, registrou pequenos peixes nadando em uma lagoa próxima à costa. As imagens voltaram a circular em diferentes momentos e passaram a ser apresentadas, em algumas publicações, como prova de que o Mar Morto estaria “voltando à vida”.

Os animais, porém, estavam em uma poça alimentada por água doce e separada da salmoura. Não houve uma colonização do lago por peixes nem uma alteração capaz de tornar sua água habitável para essas espécies. O registro de Bedein documentou um pequeno ecossistema costeiro surgido em meio às mudanças ambientais da região.

Algumas dessas lagoas possuem vegetação ao redor e atraem insetos, aves e pequenos animais. O contraste com a paisagem árida e com a água carregada de sal ajuda a explicar por que as imagens causaram tanta curiosidade.

Recuo da água revela nascentes e modifica o terreno

O Mar Morto vem perdendo água há décadas. A redução do fluxo do Rio Jordão, o uso de recursos hídricos na região, a exploração industrial e a intensa evaporação contribuíram para que o nível do lago passasse a cair aproximadamente um metro por ano em determinados períodos.

Com o recuo da margem, também ocorre uma mudança no equilíbrio das águas subterrâneas. Águas menos salgadas vindas de aquíferos passam a alcançar depósitos de sal escondidos sob o solo. Aos poucos, essa circulação dissolve o material subterrâneo e abre cavidades.

Quando a camada superior perde sustentação, o terreno desaba e forma uma dolina, também chamada de sumidouro. Algumas dessas depressões recebem água de nascentes, chuvas ou aquíferos e se transformam em lagoas de água doce ou salobra.

Pesquisas geológicas relacionam diretamente o avanço das dolinas à queda do nível do Mar Morto e à substituição da água subterrânea muito salgada por água com menor concentração de sal. Essa água dissolve as camadas subterrâneas e enfraquece o terreno.

O processo está longe de ser inofensivo. Milhares de dolinas já foram identificadas na costa israelense, e outras também apareceram na Jordânia e na Cisjordânia. Estradas, áreas agrícolas, praias e empreendimentos turísticos precisaram ser interditados por causa do risco de novos desabamentos. Em 2018, já havia mais de 6 mil formações documentadas somente no lado ocidental do lago.

Estudos mais recentes também identificaram estruturas semelhantes a chaminés no fundo do Mar Morto. Elas se formam quando águas subterrâneas atravessam sedimentos carregados de sal, dissolvem parte do material e liberam uma solução salina que volta a se cristalizar. A localização dessas estruturas pode ajudar pesquisadores a prever regiões com maior risco de formação de dolinas.

Fenômeno foi relacionado a uma passagem de Ezequiel

Para parte dos fiéis, as lagoas de água doce e a presença de peixes próximas ao Mar Morto lembram uma visão descrita no capítulo 47 do livro de Ezequiel.

Na passagem, o profeta relata a existência de um rio que sai da região do templo, segue em direção ao leste e alcança águas que seriam restauradas. O texto afirma que seres vivos passariam a existir por onde o rio corresse e menciona pescadores, árvores frutíferas e água antes imprópria sendo transformada.

Por estar localizado a leste de Jerusalém, o Mar Morto costuma ser identificado por intérpretes religiosos como o mar mencionado no relato. A semelhança entre a descrição bíblica e as imagens atuais de vegetação e peixes contribuiu para que publicações nas redes sociais apresentassem o fenômeno como possível sinal profético.

O tema ganhou nova repercussão com vídeos de canais religiosos, entre eles o The Power of the Word, que relacionaram as lagoas ao eventual cumprimento da visão de Ezequiel.

Outra associação frequente envolve o capítulo 14 do livro de Zacarias. O trecho fala sobre “águas vivas” que sairiam de Jerusalém, seguindo uma parte em direção ao mar oriental e outra ao mar ocidental. Em determinadas interpretações, o mar oriental corresponderia ao Mar Morto.

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Interpretação religiosa não significa comprovação da profecia

A aproximação entre o fenômeno e os textos bíblicos pertence ao campo da interpretação religiosa. Do ponto de vista científico, não há evidência de que as águas do Mar Morto tenham sido restauradas ou de que estejam se tornando adequadas à presença de peixes.

As lagoas ficam fora do corpo principal do lago e são abastecidas por fontes de água com composição diferente. Caso um peixe fosse colocado diretamente na água hipersalina do Mar Morto, não conseguiria sobreviver.

Também não existe um rio correndo de Jerusalém até o lago e alterando suas características, como aparece na visão de Ezequiel. O que se observa atualmente é a exposição de aquíferos, nascentes e terrenos anteriormente cobertos pela água.

Mesmo entre os defensores da leitura profética, há quem reconheça que o cenário descrito nas Escrituras envolveria uma sequência muito mais ampla de acontecimentos. Dependendo da tradição religiosa, essa sequência incluiria conflitos em Jerusalém, um período de tribulação, o retorno de Cristo e o Juízo Final.

As lagoas podem ser vistas por fiéis como uma imagem simbólica ou um possível sinal, mas não demonstram que o Mar Morto esteja biologicamente recuperado.

Surgimento das lagoas revela um problema ambiental

Embora as imagens mostrem pequenos núcleos de vida, sua origem está ligada à rápida retração do Mar Morto. A formação de novas lagoas não representa necessariamente uma melhora ambiental. Em muitos casos, ela indica que a margem recuou, que o equilíbrio dos aquíferos foi alterado e que o solo passou a sofrer dissolução subterrânea.

A presença de plantas, aves e peixes demonstra que a água doce consegue sustentar ecossistemas locais. Ao mesmo tempo, as dolinas evidenciam a instabilidade crescente do terreno e oferecem risco para moradores, turistas e atividades econômicas.

O fenômeno registrado na costa reúne, portanto, duas leituras diferentes. Para grupos religiosos, ele recorda passagens sobre águas restauradas e o retorno da vida a uma região estéril. Para a ciência, as lagoas são consequência do recuo do lago, da circulação de água subterrânea e da dissolução de depósitos de sal.

Até o momento, o Mar Morto continua extremamente salgado, seu nível segue em declínio e os peixes permanecem restritos às lagoas de água doce formadas ao redor de sua margem.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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