Em 1973, uma vencedora do Miss Mundo recebia uma coroa, compromissos públicos e, junto com eles, um conjunto bastante rígido de expectativas sobre como deveria se comportar fora dos palcos. Marjorie Wallace descobriu isso da maneira mais pública possível. Em pouco mais de três meses, ela passou de primeira norte-americana a conquistar o título a protagonista de manchetes sobre sua vida amorosa. E os responsáveis pelo concurso decidiram que aquilo era incompatível com o cargo.
A história ganhou ingredientes irresistíveis para os jornais da época: um cantor casado e mundialmente famoso, um piloto de Fórmula 1, um dos maiores astros do futebol britânico e uma jovem Miss Mundo que parecia pouco disposta a deixar que os organizadores administrassem sua vida pessoal.
Marjorie Sue Wallace tinha 19 anos quando venceu o Miss Mundo em 23 de novembro de 1973, no Royal Albert Hall, em Londres. Representando os Estados Unidos, superou outras 53 concorrentes e se tornou a primeira norte-americana a receber a coroa do concurso.
O reinado, porém, duraria somente 104 dias.
Antes mesmo de conquistar o título, Marjorie já havia chamado atenção por um comportamento pouco compatível com o modelo de rainha da beleza cuidadosamente controlada que os concursos daquele período procuravam vender ao público.
Depois da separação dos pais, quando era adolescente, ela começou a levar uma vida mais independente. Trabalhou como modelo e, ainda jovem, passou a frequentar ambientes ligados à música e ao entretenimento.
Quando chegou a Londres como Miss Mundo, sua vida pessoal rapidamente virou material para os tabloides.
Um dos homens associados a ela foi George Best, jogador do Manchester United e uma das maiores celebridades do futebol britânico dos anos 1960 e 1970. A aproximação entre os dois ganhou enorme repercussão, inclusive depois de um episódio em que Best chegou a ser acusado de retirar objetos do apartamento de Marjorie. O caso acabou ampliando ainda mais a exposição em torno da jovem vencedora.
Mas outros dois homens teriam papel ainda maior na história: Peter Revson e Tom Jones.
Marjorie mantinha um relacionamento com o norte-americano Peter Revson, piloto que disputava tanto a Fórmula 1 quanto as 500 Milhas de Indianápolis.
A imprensa da época chegou a tratar os dois como possíveis noivos. Era um relacionamento suficientemente conhecido para que qualquer envolvimento paralelo de Marjorie despertasse atenção imediata.
E foi justamente nesse período que ela se aproximou de Tom Jones.
O cantor galês estava no auge da fama. Também era casado desde 1957 com Linda Trenchard, sua namorada da adolescência, com quem permaneceria até a morte dela, em 2016.
Jones nunca construiu uma imagem exatamente discreta quando o assunto era sua vida extraconjugal. Décadas depois, ele próprio falaria abertamente sobre a quantidade de mulheres com quem se relacionou durante seus anos de maior sucesso.
Marjorie, contudo, aparentemente deixou de ser mais um encontro passageiro.
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Os dois teriam se conhecido em dezembro de 1973, pouco depois da vitória dela no Miss Mundo, nos bastidores de uma apresentação de Jones no London Palladium.
A relação começou a chamar atenção rapidamente.
Em 1974, os dois estiveram em Barbados, onde Marjorie participava de atividades relacionadas ao Miss Mundo. Fotografias e relatos de demonstrações públicas de carinho entre ela e o cantor circularam pela imprensa.
A situação era particularmente delicada porque Jones era casado e Marjorie continuava publicamente ligada a Peter Revson.
Para os responsáveis pelo concurso, o problema já havia deixado de ser simplesmente quem Marjorie encontrava em seu tempo livre. A publicidade constante sobre seus relacionamentos estava, na visão da organização, prejudicando a imagem associada ao título. Registros posteriores sobre o episódio mencionam seus envolvimentos com Jones, Revson e George Best como parte da controvérsia que cercou aqueles meses.
Os responsáveis pelo Miss Mundo tinham regras e expectativas bastante conservadoras sobre a conduta de suas vencedoras.
Eric Morley, fundador do concurso, teria advertido Marjorie sobre a exposição causada pelas relações com celebridades. O ponto de atrito era simples: ela era tratada pela organização como representante pública do Miss Mundo durante praticamente todo o reinado, enquanto Marjorie aparentemente não aceitava que isso significasse entregar aos organizadores o controle de sua vida privada.
A tensão chegou ao limite em março de 1974.
Em 7 de março, apenas 104 dias depois de sua coroação, Marjorie Wallace perdeu o título.
A justificativa divulgada pelos organizadores foi cuidadosamente vaga: ela havia “falhado em cumprir os requisitos básicos do trabalho”. Nenhuma nova vencedora foi imediatamente coroada para substituí-la.
Marjorie tornou-se, assim, a primeira vencedora do Miss Mundo a não completar seu reinado daquela maneira. No ano seguinte, o concurso enfrentaria outra crise quando Helen Morgan, vencedora de 1974, renunciou poucos dias depois da coroação.
A explicação oficial evitava mencionar diretamente sexo, infidelidade ou qualquer relacionamento específico. Na prática, porém, a intensa publicidade sobre a vida amorosa de Marjorie estava no centro da controvérsia.
Décadas depois, o episódio também funciona como um retrato bastante revelador das regras sociais aplicadas às mulheres que participavam desses concursos naquele período. A própria cobertura sobre Wallace frequentemente descrevia seus relacionamentos como questão de conduta pública, algo que hoje provavelmente seria discutido sob critérios bem diferentes.
Se perder a coroa já havia transformado 1974 em um ano difícil para Marjorie, o que aconteceu duas semanas depois tornou a situação muito mais grave.
Em 22 de março de 1974, Peter Revson sofreu um acidente durante os treinos para o Grande Prêmio da África do Sul de Fórmula 1, em Kyalami. Ele morreu a caminho do hospital.
A morte aconteceu apenas 15 dias depois de Marjorie perder o título. Segundo relatos reproduzidos posteriormente, Revson carregava um medalhão de ouro dado por ela.
Para uma mulher de 20 anos recém-completados, foram acontecimentos enormes concentrados em poucas semanas: exposição pública, perda da coroa e a morte do homem com quem mantinha sua relação mais séria.
Nos meses seguintes, Marjorie também enfrentaria problemas emocionais.
Ela foi hospitalizada depois de ingerir uma quantidade excessiva de comprimidos para dormir. Na época, familiares e representantes deram diferentes explicações para o episódio. A própria Marjorie afirmou posteriormente que estava deprimida, mas negou ter tentado tirar a própria vida.
O romance não terminou simplesmente com a retirada da coroa.
Jones permaneceu ligado à história de Marjorie depois daqueles acontecimentos. Quando ela foi hospitalizada, ele enviou flores e uma mensagem desejando sua recuperação, segundo relatos publicados sobre o episódio.
A relação amorosa acabou, mas o contato entre os dois sobreviveu por muito mais tempo.
Anos depois, Marjorie afirmou que continuava amiga de Jones e que eles ainda conversavam ocasionalmente por telefone. Ela evitava, porém, transformar o antigo caso em assunto permanente, dizendo não ter interesse em reabrir uma história ocorrida décadas antes.
Marjorie também seguiu carreira longe dos concursos. Trabalhou como modelo e apresentadora, participou de produções televisivas e, em 1981, esteve entre os primeiros nomes a apresentar o programa de entretenimento Entertainment Tonight.
A coroa que deveria permanecer com ela durante um ano ficou em sua cabeça por pouco mais de três meses. O episódio envolvendo Tom Jones foi a parte mais famosa do escândalo, mas a queda de Marjorie Wallace nasceu de algo maior: o choque entre uma jovem que conduzia publicamente seus relacionamentos como queria e uma organização que, em 1974, ainda acreditava ter autoridade para decidir como uma Miss Mundo deveria viver fora das câmeras.
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