Quando Tremembé estreou no Prime Video, muita gente saiu do episódio correndo para o Google com a mesma dúvida: “quem é, afinal, a atriz por trás da Sandrão?”.
Fora da cadeia cenográfica, Letícia Rodrigues não tem nada da figura intimidante que domina o presídio na série – e essa quebra de expectativa ajudou a colocar seu nome em destaque nas redes e na imprensa.
Letícia é paulistana, atriz, bailarina, performer, dramaturga e roteirista, com formação sólida em teatro e pós-graduação em dramaturgia e roteiro pela Escola Superior de Artes Célia Helena.
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Antes de virar assunto nacional como Sandrão, ela vinha construindo uma carreira consistente nos palcos e no audiovisual, passando por produções como Manhãs de Setembro, Notícias Populares, Enterre Seus Mortos, Tarã e Raul Seixas: Eu Sou.
Nos palcos, Letícia assina um trabalho autoral que ajuda a entender seu jeito de criar. Em 116 Gramas: Peça para Emagrecer, solo que ela escreveu, co-dirigiu e protagonizou, a atriz usa o próprio corpo como centro da cena para falar de identidade, pressão estética e gordofobia, misturando humor ácido com crítica social.
Essa familiaridade com temas espinhosos e com a exposição do corpo em cena seria um tipo de “treino” para o que viria em Tremembé.
Para viver Sandrão, Letícia topou uma transformação física que muda completamente sua aparência.
Ela raspou o cabelo, adotou um moicano descolorido e gravou sem maquiagem, com um visual propositalmente bruto, construído em conjunto com a equipe de caracterização e figurino da série.
Em entrevistas, contou que sair na rua com esse estilo durante o período de gravações foi um desafio: as pessoas reagiam ao corte de cabelo e à expressão dura, e essa estranheza ajudava a manter a chave mental da personagem ligada o tempo todo.
Essa entrega faz sentido quando se olha para o peso dramático do papel. Em Tremembé, Letícia interpreta Sandra Regina Ruiz Gomes, conhecida como Sandrão, figura real ligada a um crime de grande repercussão e a relações de poder dentro da prisão.
A série reconstrói episódios envolvendo detentos que ficaram famosos no noticiário, misturando realidade e ficção para tratar de violência, desejo, culpa, exposição midiática e limite ético do interesse público.
Não é um tipo de personagem que se “tira” facilmente ao fim do expediente. Letícia já contou que a reconstituição do crime de Sandrão foi a sequência mais pesada de todo o trabalho, a ponto de ela adoecer depois das gravações.
O corpo respondeu como se tivesse passado por um trauma real, com exaustão e sintomas físicos, resultado de dias lidando com textos, imagens e emoções que reabrem memórias ainda muito recentes na sociedade.
Ao mesmo tempo, a resposta do público tem sido um contraponto afetivo a esse desgaste. Em entrevistas e nas redes, Letícia comenta o choque das pessoas ao verem sua versão “vida real”: uma mulher vaidosa, com outros cortes de cabelo, looks coloridos e um jeito bastante diferente da líder de presídio que aparece na tela.
Muitos espectadores só se dão conta de que se trata da mesma pessoa quando veem comparações de fotos do set e de tapetes vermelhos.
Esse contraste entre artista e personagem também joga luz sobre o tipo de carreira que Letícia vem lapidando.
Em vez de ficar em papéis discretos, ela se aproxima de trabalhos que testam limite emocional: personagens que lidam com corpo, violência, desejo, culpa e desigualdade social, seja em monólogos sobre gordofobia, seja na pele de uma detenta que concentra medo e fascínio do público.
Com Tremembé, Letícia ganha sua primeira protagonista em uma produção de grande alcance, dividindo espaço com nomes já muito conhecidos da TV, como Marina Ruy Barbosa e Bianca Comparato – e, ainda assim, conseguindo roubar a cena em vários momentos.
O resultado é um daqueles casos em que o espectador sai da série com uma vilã forte na memória… e termina, poucos minutos depois, seguindo a atriz nas redes para tentar entender quem é essa mulher que topou raspar a cabeça, adoecer por causa de uma cena e transformar tudo isso em um trabalho que não passa despercebido.
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Fontes: CNN / Metrópoles
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