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Ela fingiu ser amiga da rival para cometer um crime sem precedentes no Brasil

Durante várias horas, uma menina de quatro anos caminhou pelas ruas do Rio de Janeiro ao lado de uma mulher em quem confiava. Ganhou doces, visitou uma casa e seguiu aquela conhecida sem demonstrar medo. Enquanto isso, sua mãe percorria delegacias tentando descobrir quem havia retirado a filha da escola.

A mulher era Neyde Maria Maia Lopes. A criança, Tânia Maria Coelho Araújo, conhecida pela família como Taninha. Até o fim daquela noite de 30 de junho de 1960, o nome de Neyde passaria a ocupar as manchetes policiais e receberia um apelido que atravessaria décadas: a “Fera da Penha”.

O crime não começou com o sequestro. Antes dele, houve um relacionamento extraconjugal, uma sequência de mentiras e uma aproximação cuidadosamente planejada da família que seria atingida.

O encontro com um homem que escondia a própria família

Neyde tinha pouco mais de 20 anos e trabalhava no centro do Rio de Janeiro quando conheceu Antônio Couto Araújo, no fim da década de 1950.

Os dois iniciaram um relacionamento, mas Antônio omitiu uma informação decisiva: era casado com Nilza Coelho Araújo e tinha duas filhas pequenas.

Segundo relatos posteriormente reunidos sobre o caso, Neyde descobriu a verdade por meio de uma pessoa que conhecia Antônio. A partir daí, começou a investigar a vida dele e chegou ao endereço onde o casal morava, no subúrbio carioca.

Ainda assim, o relacionamento continuou por alguns meses. Antônio teria feito promessas de separação, embora permanecesse ao lado da esposa.

Uma das versões mais repetidas sobre o caso afirma que Neyde engravidou e foi levada por Antônio a uma clínica, onde teria sofrido um aborto sem consentimento. Esse episódio, porém, nunca foi comprovado de maneira conclusiva.

A história aparece em relatos atribuídos à própria Neyde e em reconstruções posteriores, mas pesquisadores do caso ressaltam que ela permaneceu cercada de dúvidas. Por isso, o suposto aborto deve ser tratado como uma alegação, e não como um fato confirmado.

O que está documentado é que o relacionamento terminou e Neyde passou a agir com o objetivo de atingir Antônio por meio da família dele.

A falsa amiga que entrou na rotina da casa

Em vez de confrontar a esposa do amante, Neyde escolheu se aproximar dela.

Apresentou-se a Nilza como uma antiga colega de escola. Também teria demonstrado interesse por Nelson, irmão de Nilza, criando uma justificativa para continuar frequentando a residência.

A estratégia funcionou.

Neyde passou a circular pela casa, conversar com Nilza e conviver com as duas meninas. Para a família, ela era uma conhecida simpática. Para as crianças, tornou-se uma presença familiar, tratada como “tia”.

Essa proximidade teve um papel central no crime. Tânia não saiu da escola acompanhada por uma desconhecida. Saiu com uma mulher que já havia visto dentro de casa e em quem havia aprendido a confiar.

Em determinado momento, Neyde descobriu que Taninha era especialmente ligada ao pai. Algumas reconstruções afirmam que ela perguntou diretamente a Nilza qual das filhas era a preferida de Antônio. Outras indicam que essa informação foi obtida durante o período em que observava a rotina familiar.

Não há segurança suficiente para reproduzir cada diálogo como se houvesse um registro literal. O ponto confirmado é que Neyde escolheu Tânia justamente por acreditar que a morte da menina causaria o maior sofrimento possível ao ex-amante.

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O telefonema para a escola

Na manhã de 30 de junho de 1960, Neyde telefonou para o Instituto Joemar, onde Tânia estudava, no bairro de Piedade.

Passando-se por Nilza, informou que uma mulher chamada Odete buscaria a menina mais cedo. Naquela época, as escolas não adotavam os procedimentos de identificação e autorização utilizados atualmente.

Quando chegou ao colégio, Neyde apresentou-se como a pessoa mencionada no telefonema e conseguiu retirar a criança.

Tânia não resistiu nem pediu ajuda. Reconheceu a mulher que frequentava sua casa e saiu com ela normalmente.

Por volta das 14 horas, Nilza foi ao instituto e descobriu que a filha havia sido entregue a outra pessoa. A polícia foi avisada, e a família iniciou uma busca desesperada.

Enquanto todos tentavam encontrar a menina, Neyde caminhava com ela por diferentes pontos da cidade.

Horas circulando com a criança

Durante a tarde, Neyde comprou doces e pipoca para Tânia. Também passou por uma loja onde adquiriu álcool, material que seria usado mais tarde para tentar destruir o corpo.

Uma versão bastante difundida afirma que ela comprou clorofórmio em uma farmácia e dopou a menina. Essa informação, no entanto, não aparece de forma consistente nas fontes mais confiáveis sobre o caso.

Os registros mais detalhados apontam que Neyde permaneceu várias horas com Tânia acordada, conversando com ela e levando-a até a casa de uma conhecida chamada Zizélia, no conjunto residencial do IAPI da Penha.

Para justificar a presença da menina, disse que ela era filha de uma amiga.

Na casa, Neyde cortou uma mecha do cabelo de Tânia. A conhecida teria estranhado o gesto, mas não compreendeu o que estava acontecendo. A polícia avaliou posteriormente que o cabelo poderia ser usado como prova de que Neyde realmente estava com a criança.

Há relatos de que ela também fez telefonemas para a casa da família durante aquelas horas, dizendo que havia sequestrado Tânia e pressionando Antônio.

A situação já havia deixado de ser uma tentativa de assustá-lo. Neyde seguia em direção ao Matadouro da Penha levando uma arma e uma garrafa de álcool.

O crime no antigo matadouro

Ao anoitecer, Neyde levou Tânia até um galpão ou uma área abandonada do Matadouro da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Com um revólver calibre 32, atirou contra a menina. Depois, usou álcool para incendiar o corpo, numa tentativa de dificultar a identificação e esconder os vestígios do assassinato.

A vítima tinha quatro anos.

O corpo foi encontrado depois que trabalhadores da região perceberam o fogo. Uma das narrativas preservadas sobre a descoberta afirma que um funcionário passava a cavalo pelas proximidades quando o animal se assustou com as chamas. Ao verificar o que havia acontecido, ele se deparou com o corpo da criança.

O crime provocou revolta imediata. A morte de uma menina retirada da escola por alguém conhecido da família expôs uma combinação difícil de compreender: convivência, planejamento e violência praticada contra uma criança sem qualquer responsabilidade pelo relacionamento dos adultos.

Antônio revelou o nome da ex-amante

Ao investigar o desaparecimento, a polícia recebeu da escola a descrição da mulher que havia levado Tânia.

Antônio então admitiu que mantivera um relacionamento extraconjugal com Neyde e indicou seu nome aos investigadores.

Ela foi localizada e levada para prestar depoimento. Inicialmente, negou envolvimento, mas os testemunhos começaram a reconstruir seu caminho durante o dia: a retirada da criança no colégio, as compras, a visita à conhecida e o deslocamento até a Penha.

A arma usada no crime também foi encontrada durante as investigações.

Pressionada pelas evidências, Neyde acabou confessando.

A confissão ganhou repercussão nacional por causa da presença de jornalistas e radialistas na delegacia. Entre eles estava Saulo Gomes, que participou da cobertura e entrevistou Neyde pouco depois da descoberta do corpo.

A ela é atribuída uma das declarações mais conhecidas do caso:

“Só não matei a família inteira porque não tive tempo.”

A frase foi transmitida e reproduzida pela imprensa. A partir daquele momento, Neyde passou a ser chamada de “Fera da Penha”.

A população tentou alcançá-la

A reação popular foi tão intensa que a polícia precisou mudar Neyde de delegacia e organizar estratégias para evitar que ela fosse atacada.

Centenas de pessoas cercaram unidades policiais e exigiram vingança. Em uma das transferências, uma viatura usada para despistar a multidão foi depredada.

A polícia chegou a planejar a reconstituição do crime, mas desistiu diante do risco de linchamento. Moradores da região haviam se mobilizado para tentar alcançar Neyde no local onde Tânia fora assassinada.

O episódio ocorreu em uma época em que programas de rádio, jornais impressos e revistas policiais disputavam detalhes do caso. Fotografias da vítima, dos pais e da acusada circularam amplamente, transformando o processo em um dos acontecimentos criminais mais acompanhados do início dos anos 1960.

A condenação a 33 anos de prisão

O primeiro julgamento começou em 4 de outubro de 1963 e avançou pelo dia seguinte. Após cerca de 16 horas de sessão, Neyde foi considerada culpada pelo sequestro e pelo homicídio.

A sentença estabeleceu 30 anos de prisão pelo assassinato e três anos pelo sequestro, totalizando 33 anos.

Como a legislação da época previa uma nova análise para condenações superiores a 20 anos, outro julgamento foi realizado em abril de 1964. A pena foi mantida, e a decisão acabou confirmada definitivamente pela Justiça em 1966.

Neyde permaneceu presa por aproximadamente 15 anos. Sua pena foi reduzida por indulto, e ela recebeu liberdade em 9 de outubro de 1975.

Relatos divulgados ao longo do tempo afirmam que, dentro da prisão, ela cuidava de uma boneca como se fosse um bebê. O comportamento foi associado por algumas pessoas ao suposto aborto, mas essa interpretação carece de comprovação médica e deve ser vista com cautela.

O destino de Neyde e da família de Tânia

Depois de deixar a prisão, Neyde retornou ao convívio dos pais e adotou uma vida reclusa no Rio de Janeiro.

Evitava entrevistas, não costumava falar sobre o crime e raramente aparecia em público. Após a morte dos pais, continuou vivendo de maneira discreta.

Neyde Maria Maia Lopes morreu em 2 de maio de 2023, aos 84 anos — e não aos 85, como aparece em algumas publicações. Nascida em 17 de dezembro de 1938, ela ainda não havia completado o aniversário de 2023. A causa informada foi um acidente vascular cerebral.

Nilza permaneceu casada com Antônio mesmo depois da revelação do relacionamento extraconjugal. O casal teve outras três filhas e passou a evitar a exposição pública.

Tânia Maria foi enterrada no Cemitério de Inhaúma, no Rio de Janeiro. Com o passar dos anos, seu túmulo tornou-se um ponto de visitas, flores e homenagens. Pessoas de diferentes crenças passaram a atribuir graças e milagres à menina, mantendo viva a memória de Taninha muito depois de o processo judicial ter terminado.

O caso ainda aparece em livros, documentários, programas policiais e produções inspiradas em seus elementos. Em 2003, foi reconstituído pelo programa “Linha Direta Justiça”, da TV Globo. A história também costuma ser associada ao filme “O Lobo Atrás da Porta”, de 2013, embora a produção seja uma obra ficcional e não uma reprodução exata do crime.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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