Durante meses, crianças apareceram amarradas, espancadas e feridas em pontos isolados nos arredores de Boston. Os relatos tinham algo em comum: o agressor também era jovem. Alto para a idade, ele se aproximava das vítimas com naturalidade, conduzia-as para locais afastados e atacava quando ninguém podia interferir.
Quando a polícia finalmente descobriu quem estava por trás da violência, encontrou um garoto que ainda nem havia completado 13 anos. Seu nome era Jesse Harding Pomeroy.
O caso provocaria uma discussão que os tribunais norte-americanos ainda não sabiam enfrentar: como responsabilizar uma criança capaz de demonstrar tamanha crueldade?
Jesse nasceu em 29 de novembro de 1859, em Charlestown, no estado norte-americano de Massachusetts. Era filho de Ruth Ann e Thomas Pomeroy e cresceu em uma família instável. Diferentemente do que algumas versões posteriores afirmariam, seu pai não morreu quando ele era criança: registros históricos indicam que Thomas abandonou a família antes de Ruth se mudar com os filhos para South Boston, em 1872.
Desde pequeno, Jesse chamava atenção por uma alteração visível em um dos olhos, coberto por uma camada esbranquiçada. O aspecto fazia com que fosse alvo de comentários e humilhações. Também existem relatos de que o pai aplicava castigos físicos violentos nos filhos.
Esses episódios passaram a ser usados para tentar explicar seu comportamento. Nenhuma dessas circunstâncias, porém, oferece uma resposta definitiva para a violência planejada que ele começou a praticar.
Entre 1871 e 1872, Jesse atacou pelo menos sete garotos menores. Ele costumava oferecer doces, dinheiro ou algum passeio e, depois de conquistar a confiança das crianças, levava-as para terrenos vazios, cabanas abandonadas e áreas próximas aos pântanos.
As vítimas eram amarradas, espancadas e feridas com objetos cortantes. Alguns ataques também envolveram violência sexual. Os jornais começaram a chamar o agressor desconhecido de “menino torturador” e “demônio de Boston”.
Em setembro de 1872, o menino de sete anos Joseph Kennedy foi atraído para uma construção abandonada próxima aos pântanos de South Boston. Ele conseguiu sobreviver e forneceu à polícia uma descrição detalhada do agressor.
Poucos dias depois, Jesse apareceu diante da janela de uma delegacia. Joseph estava no local e o reconheceu imediatamente. Outras vítimas também confirmaram que aquele era o garoto responsável pelos ataques.
Jesse confessou as agressões e foi condenado a permanecer por seis anos na House of Reformation, uma escola correcional localizada em Westborough. Como tinha apenas 12 anos, as autoridades acreditavam que disciplina, trabalho e acompanhamento poderiam modificar seu comportamento.
Na instituição, Jesse mostrou uma conduta que surpreendeu os responsáveis. Cumpria ordens, evitava conflitos e parecia controlado. Policiais e agentes públicos passaram a defender sua libertação antecipada.
Em fevereiro de 1874, depois de aproximadamente 17 meses internado, ele recebeu permissão para voltar à casa da mãe. O adolescente considerado extremamente perigoso havia convencido os adultos de que estava recuperado.
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Ruth Ann Pomeroy administrava uma pequena loja de costura e uma banca de jornais na Broadway Street, em South Boston. Jesse e o irmão, Charles, ajudavam no atendimento e na organização do estabelecimento.
Em 18 de março de 1874, Katie Curran, de dez anos, saiu de casa para comprar um caderno. A menina entrou na loja da família Pomeroy e nunca mais foi vista com vida.
Cartazes foram espalhados pela cidade, rumores circularam e a polícia chegou a examinar o estabelecimento, mas nada foi encontrado naquele momento. Jesse continuou trabalhando normalmente enquanto a família de Katie procurava por qualquer informação sobre seu paradeiro.
Pouco mais de um mês depois, outro desaparecimento colocou o adolescente novamente no centro das atenções.
Em 22 de abril de 1874, Horace Millen, de quatro anos, foi visto caminhando ao lado de um garoto maior. Horas depois, seu corpo foi encontrado na região de Savin Hill Beach, próxima à Baía de Dorchester.
A criança havia sido morta com extrema violência. A brutalidade do crime chocou até investigadores acostumados a lidar com homicídios.
Testemunhas indicaram que Horace estivera acompanhado por um adolescente. A polícia se lembrou imediatamente de Jesse e de seu histórico de ataques. Naquela mesma noite, agentes foram até a casa dos Pomeroy e o levaram para a prisão de Charles Street.
A situação revoltou South Boston. A família de Horace era tão pobre que não tinha dinheiro para comprar o caixão. Policiais, trabalhadores e moradores fizeram doações para que o menino pudesse ser enterrado.
Enquanto Jesse aguardava julgamento, a mãe precisou deixar o prédio onde funcionava sua loja. O novo proprietário iniciou uma reforma no imóvel e percebeu um odor forte vindo do porão.
Em 18 de julho de 1874, trabalhadores removeram uma pilha de cinzas e encontraram o corpo de Katie Curran enterrado no local. Dois dias depois, Jesse confessou verbalmente ter matado a menina.
O julgamento começou em dezembro de 1874. A defesa alegou que Jesse sofria de “insanidade moral”, expressão usada na época para descrever pessoas que compreendiam seus atos, mas seriam incapazes de controlar impulsos violentos.
A acusação apresentou uma interpretação diferente. Para os promotores, os métodos usados para atrair as crianças, escolher locais isolados e esconder os crimes demonstravam planejamento e consciência.
Jesse alternava negativas com frases ambíguas. Dizia que alguma coisa o obrigava a agir ou que não conseguia evitar. Anos mais tarde, alegaria não se lembrar daquele período.
Em 11 de dezembro de 1874, ele foi considerado culpado pelos assassinatos de Katie Curran e Horace Millen. O júri recomendou clemência por causa de sua idade, mas a legislação previa a pena de morte para homicídio em primeiro grau.
Jesse tinha 15 anos quando recebeu a sentença de enforcamento, tornando-se a pessoa mais jovem condenada por assassinato em primeiro grau na história de Massachusetts.
Para que a execução acontecesse, o governador de Massachusetts precisava assinar a ordem que determinaria a data do enforcamento. William Gaston se recusou a fazê-lo.
O Conselho do Governador chegou a votar mais de uma vez pela manutenção da pena de morte. Mesmo pressionado, Gaston não assinou o documento. Executar um adolescente provocava resistência política, jurídica e moral, ainda que seus crimes tivessem causado indignação pública.
Em agosto de 1876, uma nova votação finalmente transformou a sentença em prisão perpétua com isolamento. No mês seguinte, Jesse foi transferido para a Penitenciária Estadual de Charlestown. Tinha 16 anos.
Ele passou décadas quase sempre sozinho. Durante o período na prisão, realizou tentativas de fuga, estudou diferentes assuntos e aprendeu idiomas. Em 1917, as regras foram parcialmente flexibilizadas, permitindo que tivesse os mesmos privilégios concedidos a outros presos condenados à prisão perpétua.
Já idoso e debilitado, Jesse foi transferido em 1929 para o Hospital de Bridgewater. Morreu na instituição em 29 de setembro de 1932, aos 72 anos, depois de permanecer encarcerado por aproximadamente 58 anos.
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