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No 83º andar da Torre Sul, ela soube que era o fim e fez um pedido inacreditável que emociona a todos até hoje

Em meio às imagens que registraram o 11 de Setembro, há também histórias preservadas somente por vozes. Telefonemas feitos às pressas, recados deixados em secretárias eletrônicas e conversas com atendentes de emergência revelaram o que acontecia dentro das Torres Gêmeas enquanto o restante do mundo acompanhava a tragédia pela televisão.

Uma dessas vozes pertencia a Melissa Cándida Doi.

Aos 32 anos, ela trabalhava como gerente na IQ Financial Systems, empresa instalada no 83º andar da Torre Sul do World Trade Center, em Nova York. Melissa morava no Bronx com a mãe, Evelyn Alderete, e era filha única.

Fora do escritório, gostava especialmente de atividades físicas. Havia estudado balé e costumava patinar pelo Central Park. Seus patins, preservados pelo Museu Memorial do 11 de Setembro, tornaram-se uma lembrança de quem ela era antes de sua vida passar a ser associada a uma das ligações mais dolorosas daquele dia.

Na manhã de 11 de setembro de 2001, Melissa chegou ao trabalho sem saber que, poucas horas depois, seu nome seria incluído entre as milhares de vítimas dos ataques.

A ordem para retornar ao escritório

Às 8h46, o voo American Airlines 11 atingiu a Torre Norte. O choque, a explosão e a fumaça foram percebidos imediatamente por quem estava no prédio ao lado.

Melissa e outros funcionários da Torre Sul começaram a descer. No entanto, mensagens transmitidas pelo sistema interno informavam que o edifício estava seguro e orientavam algumas pessoas a retornar aos seus locais de trabalho.

Ela acabou voltando para os andares superiores.

Às 9h03, o voo United Airlines 175 atingiu a Torre Sul. O avião atravessou os andares 77 a 85, atingindo diretamente a região onde ficava o escritório de Melissa. O impacto destruiu elevadores, danificou escadas e espalhou combustível em chamas pelos pavimentos.

Melissa ficou presa no 83º andar com outras pessoas. Ao redor do grupo, a fumaça se tornava mais espessa, o piso estava extremamente quente e as chamas impediam a passagem até uma saída segura.

Às 9h17, ela conseguiu ligar para o serviço de emergência de Nova York.

“Eles vão mandar alguém até aqui?”

Nos primeiros instantes da ligação, Melissa ainda tentava acreditar que os bombeiros conseguiriam alcançá-la. Informou repetidamente o andar em que estava e explicou que o pavimento havia sido tomado pelo fogo.

A atendente procurava mantê-la calma, orientando-a a permanecer abaixada para respirar melhor e garantindo que as equipes de resgate estavam subindo.

Melissa, porém, percebia que o tempo estava acabando.

Ela contou que o grupo estava no chão, com dificuldade para respirar, e que o calor se tornava insuportável. Em determinado momento, perguntou se alguém realmente chegaria até eles.

A gravação registra a mudança gradual em sua voz. A esperança de ser resgatada passa a dividir espaço com a compreensão de que talvez não houvesse tempo suficiente.

“Posso continuar na linha com você, por favor? Sinto que estou morrendo”, pediu ela durante a conversa.

Em um momento da ligação, Melissa e as outras pessoas disseram ter ouvido vozes. Ela começou a gritar por socorro, acreditando que os bombeiros estavam próximos.

Equipes realmente avançavam pelos andares da torre. Entre elas estava o batalhão comandado pelo chefe Orio Palmer, que conseguiu chegar à região do 78º andar. A distância vertical entre os bombeiros e o grupo de Melissa era pequena, mas os danos internos, a fumaça e o fogo tornavam o acesso extremamente difícil.

Ninguém conseguiu chegar ao 83º andar antes do desabamento.

O último pedido

Com a respiração cada vez mais comprometida, Melissa quis falar diretamente com a mãe. Pediu à atendente que realizasse uma ligação conjunta, mas o sistema usado pelo serviço de emergência não permitia completar aquela comunicação.

Restava deixar um recado.

Melissa informou o nome e o telefone de Evelyn e pediu que a atendente transmitisse uma mensagem caso ela não sobrevivesse:

“Diga à minha mãe que eu a amo e que ela é a melhor mãe do mundo.”

A ligação durou aproximadamente 24 minutos e terminou antes que Melissa pudesse voltar a falar. Mais tarde, a própria atendente telefonou para Evelyn e entregou o último recado deixado pela filha.

Não houve uma despedida direta entre as duas. Evelyn não escutou a voz de Melissa naquela manhã, mas soube que, cercada por fumaça e calor e diante da possibilidade concreta de morrer, a filha pensou nela.

A Torre Sul permaneceu em pé por 56 minutos

Às 9h59, apenas 56 minutos depois de ter sido atingida, a Torre Sul desabou. Melissa e as demais pessoas que ainda estavam nos pavimentos superiores morreram.

O colapso aconteceu antes do desabamento da Torre Norte, embora a Torre Sul tivesse sido atingida depois. Investigações posteriores concluíram que os danos estruturais e os incêndios provocados pelo combustível da aeronave comprometeram progressivamente a resistência do edifício.

Os restos mortais de Melissa seriam identificados anos depois. No Memorial do 11 de Setembro, seu nome está gravado no painel S-46, junto aos nomes de outras pessoas que estavam na Torre Sul.

A gravação apresentada ao tribunal

Durante anos, grande parte das chamadas realizadas ao serviço de emergência permaneceu longe do público. A ligação de Melissa ganhou repercussão em 2006, no processo de definição da pena de Zacarias Moussaoui.

Moussaoui havia se declarado culpado de acusações relacionadas à conspiração terrorista que resultou nos atentados. Durante o julgamento, gravações de vítimas foram usadas para demonstrar o impacto humano dos ataques.

A conversa de Melissa com a atendente foi apresentada aos jurados. Somente uma parte do áudio tornou-se pública, por questões de privacidade e respeito às vítimas, mas o trecho divulgado foi suficiente para tornar sua história conhecida em vários países.

A gravação permitia ouvir algo que números, relatórios e imagens aéreas não conseguiam mostrar: uma mulher tentando respirar, aguardando um resgate que não chegaria e procurando deixar uma última certeza para a pessoa mais importante de sua vida.

Os ataques de 11 de Setembro mataram 2.977 pessoas, sem contar os 19 sequestradores. Melissa Cándida Doi foi uma delas.

Seu telefonema continua sendo lembrado porque registrou, em tempo real, uma decisão profundamente pessoal. Quando percebeu que talvez não tivesse outra oportunidade de falar, Melissa usou seus últimos minutos para garantir que a mãe soubesse que era amada.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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