Jocê Rodrigues

Viramos a nossa própria droga e nós estamos viciados

Vivemos cercados por círculos viciosos. E não é só de substâncias como nicotina e álcool que eu estou falando.

O descaso, o desprezo, o medo e a falta de alteridade acabaram por dominar grande parte da vida cotidiana. Primeiro, porque nos falta empatia para enxergar o outro, para reconhecermos o outro como nosso igual e semelhante. Segundo, porque passamos a nos enaltecer demais. Nossas virtudes, nossas manias, nossos gostos. Viramos a nossa própria droga e nós estamos viciados.

Não é uma questão de ter ou não autoestima. Isso é diferente. Autoestima pressupõe avaliar a si mesmo subjetivamente e descobrir aspectos positivos e negativos. Ter uma boa autoestima não é e nunca foi sinônimo de exclusão.

Sua roupa ou seu status social não deveria fazer o outro desaparecer. O que você tem e o que você acredita ser não são ingredientes de uma fórmula de invisibilidade que faz com que as pessoas ao redor automaticamente desapareçam da vista.

Aristóteles definiu a natureza do homem como a de um Zoon Politikon (Animal Político). No seu tratado sobre a política, o filósofo de Estagira escreveu: “O homem é um animal social. O homem que por si só se basta, não é homem”. Pois é, meu amigo. Quer você queira ou não, nascemos para viver em sociedade. O problema é que cada vez mais temos esquecido o Politikon, e isso tem nos tornado simples animais pela falta de capacidade de se comunicar racionalmente com outros de nossa espécie.

Foi utilizando essa base aristotélica que o poeta inglês John Donne escreveu o célebre poema onde diz: “Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente […] a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram também por ti”.

Talvez seja necessária uma reabilitação; talvez só precisemos olhar mais para o lado, ao invés do próprio umbigo. Quem sabe? A misantropia anda em alta e todo mundo quer ser cult e descolado, aderindo à moda. A gente só esquece que gostar de si mesmo não é odiar quem quer que seja. Não é preciso abrir mão da individualidade para viver bem com o outro. No entanto, é preciso reconhecer que ele existe, o que não deveria configurar nenhuma dificuldade.

Existir não é um privilégio apenas seu e daqueles de quem você gosta. Lembre-se disso.

Jocê Rodrigues

Editor, escritor e jornalista.

Share
Published by
Jocê Rodrigues
Tags: drogavício

Recent Posts

Mary Ann Bevan aceitou ser exibida em público, e o motivo tinha relação direta com seus quatro filhos

Durante boa parte do fim do século XIX e do início do século XX, pessoas…

19 horas ago

Algumas das fotos mais interessantes de Diana não são as mais famosas e contam outra parte da história

Poucas figuras públicas foram fotografadas com tanta frequência quanto a princesa Diana, né? Durante os…

20 horas ago

A inesperada ‘revelação’ de uma apresentadora da Fox surpreende os telespectadores

Holly Morris passou 25 anos diante das câmeras da FOX 5, em Washington, e construiu…

20 horas ago

Uma cena sensual virou um dos momentos mais famosos do clássico com Jamie Lee Curtis, e por um detalhe fora do esperado

Quando True Lies chegou aos cinemas, em 1994, James Cameron já tinha no currículo filmes…

3 dias ago

Diana chorou ao se despedir de Charles, mas só anos depois explicou o que tinha acontecido antes

Uma das imagens mais conhecidas do início do relacionamento entre Diana Spencer e o então…

3 dias ago

Após o parto, o silêncio na sala fez esta mãe perceber que algo estava diferente com a filha

Durante a gravidez, os exames de Eliza Bahneman não indicavam que sua filha nasceria com…

3 dias ago