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Vingança – Um olhar psicológico e filosófico

De todos os sentimentos negativos, a vingança é, sem dúvidas, o mais controverso e rende os debates mais acalorados nos ramos da filosofia, sociologia e psicologia. Isso porque, mesmo tendo um objetivo destrutivo, ele desperta o sentimento empático de muitas pessoas ao redor, enquanto tantas outras repudiam a mesma atitude.

O sentimento de vingança surge quando passamos por alguma espécie de trauma e sentimos que houve um desequilíbrio dentro de alguma relação. Esse desnível resulta em um sofrimento considerado pelo vingativo como injusto, e este quer responsabilizar o outro pelo que sente, com aquele frase “Ah, mas isso não vai ficar assim, não”. Desse modo, começa a elaborar alguma espécie de “acerto de contas” para que haja um ressarcimento emocional dos danos causados.

De acordo com um estudo realizado por pesquisadores suíços, há uma recompensa neural quando a vingança é concretizada. Essa conclusão veio quando cérebros de pessoas que tinham sido prejudicadas durante um jogo de laboratório foram escaneados quando elas decidiram punir a outra pessoa por um minuto como uma vingança.

No entanto, a mesma pesquisa concluiu que, por mais que haja efeitos benéficos de curto prazo, foi descoberto que o sentimento de hostilidade oriundo do desejo de vingança não acaba quando concretizamos o que queremos. Pelo contrário, ela prolonga o dissabor da infração e acaba funcionando como uma bola de neve: quanto mais você se vinga, mais vontade de vingança tem e mais raiva vai sentir. Ou seja, a satisfação pretendida pela vingança tem uma duração muito pífia.

Isso porque o desejo por esse sentimento revive as feridas emocionais do passado, como se você não deixasse o seu corpo cicatrizar um ferimento no seu corpo, já que você “futuca” sempre aquele machucado, o que aumenta cada vez mais a sua dor. No entanto, se ela é tão negativa, por que parece ser boa?

Um outro estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Miami em parceria com a da Pensilvânia, concluíram que a vingança desencoraja um potencial agressor, já que ele pode ser retaliado, além de dar o sentimento de “poder” a aqueles que querem se vingar.

Tanto que a vingança não é exclusiva dos seres humanos. Foi descoberto que leões, elefantes, coiotes e várias espécies de primatas também utilizam a vingança como uma forma compensatória numa tentativa de dominar a situação. Isso indica que há um componente biológico para a retaliação quando nos sentimentos ofendidos, lesados ou injustiçados.

O problema, segundo a psicóloga Ghina Machado é que a vingança “Não têm limite moral e pode realmente perseguir esse desejo de vingança até a última consequência. Um exemplo muito comum são os crimes passionais, em geral cometidos por homens, quando a mulher pede a separação ou encontra um novo parceiro”

Segundo a filósofa Martha Nussbaum, o sentimento de vingança está diretamente relacionado ao instinto de justiça, mas ambos são coisas diferentes: “O senso primitivo do justo — notadamente constante de diversas culturas antigas a instituições modernas  . . . — começa com a noção de que a vida humana. . . é uma coisa vulnerável, uma coisa que pode ser invadida, ferida, violada de diversas maneiras pelas ações de outros.

Para esta penetração, a única cura que parece apropriada é a contra invasão, igualmente deliberada, igualmente grave. E para equilibrar a balança verdadeiramente, a retribuição deve ser exatamente, estritamente proporcional à violação original. Ela difere da ação original apenas na sequência temporal e no fato de que é a sua resposta em vez da ação original — um fato freqüentemente obscurecido se há uma longa sequência de ações e contra-ações”.

Se a retaliação só piora as coisas, a melhor solução é usar essa poderosa energia de raiva e rancor para outra finalidade, e é uma energia que precisa ser bem conduzida, já que em casos mais graves nenhum evento externo, nem mesmo ganhar na mega sena hoje, fará apagar esse sentimento. Quer ficar com um corpo sarado na academia? Use essa energia pra malhar mais “pesado”; quer enriquecer com o seu trabalho? Desconte o máximo dessa força na sua produtividade. A ideia é que você se auto reconstrua

Também ressignifique a situação, que basicamente é entender o que você pode tirar de positivo daquela circunstância. As pessoas que conseguem administrar seus sentimentos negativos possuem o que chamamos de “Inteligência Emocional”, ou seja, aquela “puxada de tapete”, por exemplo, pode ser uma oportunidade de você ir atrás dos seus verdadeiros sonhos, ou ter outros objetivos em mente.

Perdoar aquela pessoa que te fez mal não é, necessariamente, algo romântico e “bondoso”, como se fosse algo religioso. Você não será bobo se perdoar alguém, mas a renúncia a esse desejo é algo que traz benefícios a aqueles que desejam a vingança. Já diria William Shakespeare: “O desejo de vingança é um veneno que tomamos com a vontade que o outro morra”.

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