– Ela é tão livre que um dia será presa.
– Presa por quê?
– Por excesso de liberdade.
– Mas essa liberdade é inocente?
– É. Até mesmo ingênua.
– Então por que a prisão?
– Porque a liberdade ofende.
Clarice Lispector

TRANSPARÊNCIA OFENDE
Por Josie Conti

Nos últimos dias, estive refletindo sobre qual é a diferença entre ser uma pessoa transparente, que não tem grandes coisas a esconder, simplesmente por que não tem vergonha de ser quem é (com todo o pacote de defeitos e qualidades que traz consigo) e, por outro lado, ser alguém que se expõe demais.

Cheguei a conclusão de que tudo depende das “lentes” de quem observa, do meio em que a pessoa está inserida e do grau de compreensão e censura que os observadores, de maneira geral, dedicam a quem tem coragem de dizer ao mundo quem é ou quem acha que o outro é, como no caso das polêmicas das biografias não-autorizadas que vêm sendo tão discutidas nos últimos dias.

Pensem comigo, na natureza, observamos que diversas espécies de animais ao longo da evolução adquiriram características semelhantes ao seu habitat para que passassem despercebidas frente aos seus predadores. Nesse caso, discrição é igual à vida.

Nas guerras, por exemplo, os soldados que partiam para o ataque no front eram os primeiros a morrer. Ou seja, quanto maior a coragem, maior a chance de morrer.

Culturalmente, também somos alicerçados em moldes de subserviência hierárquica, onde o lema ainda é “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Sendo assim, muitas vezes, calar-se num ambiente social ou laboral significa autopreservação.

Por outro lado, também existem em nós verdades internas, valores de vida que são formados ao longo de nossa existência e que, quando confrontados, também nos adoecem. Entenda por valores, tudo o que nos é precioso como seres humanos no mundo: a maneira como queremos ser tratados, como tratamos os outros, os limites sociais. Bem, basicamente creio que são os limites de respeito e reconhecimento que precisamos ter para conviver em sociedade de maneira civilizada. Ou, em outras palavras, as ações que teremos e com as quais poderemos deitar e dormir em paz durante a noite.

Vocês já se perguntaram por que admiramos tanto a arte? Vocês conhecem artistas que sentem de menos?
Quem sente extrapola, derrama, transborda, choca, incomoda e, principalmente, não cala.

A fala dos sentimentos aparecerá. No artista, em sua arte (seja pintando, escrevendo, esculpindo). Em nós, seres humanos normais, os sentimentos também falarão e, se sua voz não vier à tona em palavras, devido aos limites sociais que geram pactos de silêncio coletivo frente às injustiças do dia a dia (inclusive as que acontecem conosco e com nossos amigos), falarão por doenças, pois nossa mente não suporta a dor de não ser quem é.

A sociedade atual é uma bomba-relógio de transtornos mentais. Depressões e quadros ansiosos são os mais comuns. Os números da Previdência Social, mesmo que sub-notificados, indicam claramente o crescimento dessas doenças, desses doentes, de nossa perda da razão.

Sucumbir ao que nos agride pode sim parecer o mais adequado socialmente num primeiro momento, porém, estamos criando uma sociedade de doentes mentais, de pessoas que não aguentam mais viver com tanta dor e com o aniquilamento constante das próprias vontades e sentimentos.

Se a transparência ofende, que ofenda.

Josie Conti

JOSIE CONTI é psicóloga com enfoque em psicoterapia online, idealizadora, administradora e responsável editorial do site CONTI outra e de suas redes sociais. Sua empresa ainda faz a gestão do site Psicologias do Brasil. Contato para Atendimento Psicoterápico Online e EMDR com Josie Conti pelo WhatsApp: (55) 19 9 9950 6332

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