… e teria me arrependido depois, não por você obviamente, mas por mim, que não mereço carregar palavras duras, pesadas, odiosas como minhas.
Fiz o certo, fiquei de boca fechada e não entrou mosca. Também não saiu nenhuma ofensa, nenhum xingamento, nem uma única insinuação. E, acredite, eu tinha uma trança de coisas para dizer, mas nenhuma delas faria a menor diferença no desfecho da história, porque era um enredo fraco, com personagens sem sintonia e faltou talento para esquentar a cena.
Dizer o que me desapontou não te fará mudar um milímetro do que é e tem certeza de ser. E o que me desapontou é problema meu.
Justificar porque desapontei é desnecessário, já que isso é problema seu e você preferiu não tocar nesse terreno.
Como é difícil calar quando tudo o que se quer é falar, esbravejar, discutir e desarrumar o tabuleiro. Como é difícil não chamar a atenção para si, para sua decepção, para que assimilem suas razões, sintam compaixão de suas decepções, tomem partido, levantem bandeiras, não deixem a briga esfriar.
Porém, passada a fase aguda, que alívio, que enorme prazer! Que gostosa a certeza de que eu conheço as minhas certezas e não é preciso gritar na janela, jogar no ventilador, escrever uma longa e dolorosa mensagem, desabafar, se esparramar em argumentos.
Se eu não tivesse optado por calar, teria dito coisas horríveis e estaria agora arrastando as correntes da vergonha, do arrependimento, do ridículo que teria passado e feito passar.
Creio que nada que não fosse merecido ouvir, mas não por mim. Recuso esta tarefa.
De todas as conclusões, e também depois de comemorar a sábia decisão, fico com a serena conclusão de que não falei o que sentia por opção. Você, que seria o alvo da missão abortada, muito antes preferiu calar, por não ter realmente nada a me dizer.
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