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Se console, mas não se conforme

Das tantas e tantas inquietudes e inconformidades que experimentamos na vida, jamais conseguiremos resolvê-las na totalidade. É praticamente impossível almejar esse resultado, levando em conta todas as variáveis envolvidas: As outras partes, o humor do momento, a palavra usada, a palavra calada, a palavra ouvida, a decisão de ir ou de ficar, a obediência ou a falta dela, os recursos, as carências…

Para algumas situações conseguimos conforto, consolo. Em abraços amados, em ombros queridos, em palavras amigas, lágrimas escondidas, mensagens nunca enviadas. Um alívio para a famosa e dolorosa pressão no peito, o escape da panela de pressão que atormentava a tempos com seu chiado constante. Na verdade, se não houver consolo, não haverá contrapartida e só conseguiremos enxergar a perda, o prejuízo. Mas consolo não é solução. É analgésico, é gelo na torção, é lenço de papel, é um sorriso confiável para seguirmos em frente.

Não há parada permanente no consolo de uma dor. Isso é ilusão.

Depois do consolo há o entendimento, a contagem dos danos, a reparação dos erros, o perdão dos malfeitos alheios, o pedido de perdão pelos próprios malfeitos, a nova tentativa, a forte e inalienável experiência conquistada a duras e dolorosas penas.

E, se o que queremos é seguir adiante, partimos mais fortes e mais corajosos a cada queda, no começo mancando, patinando, derrapando. A atitude definirá a porção de medo que terá permissão para nos acompanhar.

E, sem aviso ou qualquer dica, em algum momento estaremos inteiros novamente, lutando ainda com mais força e destemor, pois se há um reconhecimento positivo em todas as perdas e dores da vida, é essa saudável inconformismo que nos impede de ficar estagnados nas almofadas fofas e suaves dos breves consolos da vida.

Viver requer muito mais do que essa frágil troca.

Há uma infinidade de combinações e possibilidades de caminho. E que haja sempre um gelo e um lenço de papel oferecido por mãos amigas para enfrentarmos os tropeços desses tantos caminhos.

Consolar-se sim, faz bem, mas passa. conformar-se, nunca!

 

 

 

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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