Pessoas com transtorno bipolar (TB) frequentemente relatam lapsos de memória, esquecimentos e dificuldade em reter informações importantes do dia a dia. A ciência confirma que déficits cognitivos — especialmente em memória verbal e episódica, atenção e funções executivas — são comuns mesmo em fases de estabilidade do humor. Esses prejuízos impactam diretamente o cotidiano, as relações e o trabalho de quem convive com o transtorno.
Estudos mostram que há alterações estruturais no hipocampo, uma região cerebral fundamental para o armazenamento de memórias, associadas à pior performance cognitiva em pessoas com TB (Chepenik et al., 2012). Isso ajuda a explicar por que lembranças recentes, compromissos e até passagens marcantes da vida podem se tornar fragmentadas ou distorcidas.
Além da vulnerabilidade cognitiva intrínseca, muitos pacientes com TB apresentam histórico de experiências traumáticas. A pesquisa científica demonstra que o trauma altera a forma como o cérebro armazena e recupera lembranças — fragmentando ou fixando de modo intenso determinadas memórias (American Psychiatric Association, 2020).
Um estudo publicado na Journal of Affective Disorders analisou como traumas na infância podem piorar a evolução do transtorno bipolar, intensificando oscilações de humor e comprometendo funções cognitivas (Etain et al., 2013).
Esses achados indicam que a linha entre memória afetiva e memória traumática é, em muitos casos, tênue — e que trabalhar essas lembranças pode auxiliar no equilíbrio emocional e cognitivo.
A terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) — reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Conselho Federal de Psicologia — é amplamente utilizada no tratamento de traumas e transtornos relacionados ao estresse. Seu foco é acessar memórias perturbadoras e reprocessá-las por meio de estimulação bilateral (movimentos oculares, sons ou toques alternados), permitindo ao cérebro integrar essas lembranças de modo mais adaptativo.
Pesquisas recentes apontam que o EMDR pode ser uma ferramenta coadjuvante promissora para pacientes com TB. Um estudo multicêntrico publicado no Journal of Affective Disorders em 2024 avaliou o uso do EMDR como complemento à psicoterapia tradicional e encontrou redução significativa nos sintomas traumáticos e emocionais entre pacientes bipolares (Tural et al., 2024).
Outras revisões sistemáticas, como a de Landin-Romero et al. (2018), sugerem que a técnica contribui não apenas para dessensibilizar emoções negativas, mas também para reorganizar a codificação neural das lembranças, impactando redes cerebrais envolvidas em memória e regulação afetiva.
Pesquisas mostram que a consolidação da memória depende diretamente de um sono reparador e de atenção adequada durante a codificação de informações. Distúrbios do sono — comuns no TB — interferem na transferência das memórias de curto para longo prazo, enquanto a falta de concentração prejudica o registro inicial de experiências (Gisabella et al., 2021).
A psicóloga Josie Conti, observa que:
“Quando atenção e sono estão alterados, o cérebro tem menos oportunidade de codificar e consolidar eventos corretamente — isso significa que memórias importantes podem ficar fragmentadas, enquanto lembranças carregadas de emoção (como traumas) permanecem vívidas e intrusivas.”
Essas distorções na consolidação da memória podem perpetuar sintomas emocionais, dificultando a estabilidade do humor e a recuperação cognitiva — um círculo que o EMDR pode ajudar a interromper ao reorganizar a experiência traumática de forma segura e integradora.
Embora o EMDR mostre resultados promissores, os especialistas alertam que ele deve ser aplicado como tratamento complementar, sempre sob supervisão de profissionais habilitados e dentro de um contexto clínico seguro. Ele não substitui estabilizadores de humor nem psicoterapia voltada à regulação emocional e à reabilitação cognitiva.
Revisões recentes reforçam a importância de protocolos adaptados para pacientes com transtorno bipolar, a fim de evitar possíveis ativadores de mania ou hipomania durante o processo de reprocessamento (Carletto et al., 2020).
Em uma era em que as neurociências desvendam cada vez mais a relação entre memória, emoção e trauma, terapias como o EMDR se destacam como pontes entre o passado e o presente — permitindo que pacientes com transtorno bipolar possam reconstruir narrativas emocionais de forma mais coerente, segura e saudável.
Quando o passado não se organiza e o presente oscila, ativar e dar novo significado às memórias pode ser o caminho para reconstruir o futuro.
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