Fabíola Simões

“Quando alguém julgar o seu caminho, empreste a ele os seus sapatos”

Nós somos a soma do que falamos, do modo como agimos, da maneira como tocamos uns aos outros. Mas também somos a soma de nossas emoções, pensamentos, alegrias guardadas e angústias não declaradas.

Ninguém sabe ao certo o que vai dentro do coração do outro. Ninguém tem a mínima noção dos fantasmas que assombram, da bagagem que carrega, das alegrias e saudades que abriga, das batalhas que trava, dos silêncios que suporta, das vitórias que celebra.

Porém, muita gente se acha apto para julgar o caminho alheio. Muita gente se considera assertivo para condenar as escolhas de terceiros.

Mas a verdade é que ninguém conhece por inteiro as batalhas que travo intimamente. Ninguém percorreu meu caminho com meus sapatos para saber onde apertam os meus calos. E por mais que imaginem conhecer, alguns passos dessa dança são só meus; e por mais que desejem ajudar, algumas pontes só eu posso atravessar.

Precisamos uns dos outros. Precisamos do olhar do outro que nos apoia silenciosamente ou nos faz recuar diante da gravidade das coisas e do mundo. Porém, não precisamos de juízes. Não precisamos de magistrados que decidem o modo como devemos viver ou habitar nossa própria história.

Cada um sabe o que carrega na bagagem. Cada um sabe de suas lutas íntimas e vitórias silenciosas. Cada um sabe onde seu sapato aperta, machuca, causa bolhas. Cada um sabe a hora de descalçar ou continuar. Cada um conhece seus limites, a necessidade de preservar a própria essência, a necessidade de ser coerente com seu coração. Então não é justo que alguém que nunca carregou aquela bagagem nem nunca calçou aqueles sapatos ache-se no direito de bater o martelo, intimar, condenar ou especular qualquer caminho ou escolha.

É preciso coragem para trilhar nossa história com coerência e autenticidade. Coragem para romper com aquilo que esperam de nós em contrapartida ao que queremos de fato. É preciso valentia para optar pelo amor próprio, pela honestidade. É preciso valentia para crescer e assumir nossos erros, incompletudes, abismos e asperezas do mesmo modo que nos orgulhamos de nossa doçura, leveza e capacidade de amar.

“Quando alguém julgar o seu caminho, empreste a ele os seus sapatos”. Só você sabe como chegou até aqui. Só você entende as batalhas e triunfos silenciosos que fizeram parte do seu caminho. E por mais que estejam junto de você, algumas pessoas simplesmente não entendem. E cobram por aquilo que não conhecem; julgam por aquilo que não experimentam. Talvez devessem olhar melhor para as próprias vidas, e se perguntar por que se incomodam tanto. Talvez devessem ser mais tolerantes consigo mesmos, afrouxando os cadarços de seus próprios calçados.

Já me deparei com erros pequenos ou grandiosos de pessoas que eu amo. Já escutei mentiras e acreditei nelas. Já me feri com atitudes que desviavam daquilo que eu acredito mas sobrevivi.

Às vezes as pessoas optam por um caminho que irá nos ferir, mas isso tem muito mais a ver com a vida delas do que com a nossa.

Então não cabe a nenhum de nós apontar o dedo. Não cabe a nenhum de nós expor o outro ao nosso julgamento, muitas vezes imparcial, já que somos “as vítimas”. Cabe sim ajudarmos a construir uma pessoa melhor, com amor, tolerância às diferenças, perdão e aceitação. Ninguém está livre de erros e, principalmente, ninguém sabe ao certo onde o sapato do outro aperta…

Imagem de capa: Creaturart Images/shutterstock

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Fabíola Simões

Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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