Ivonete Rosa

Quando a ausência não é sentida, nem a chegada é festejada

Acredito que a solidão a dois seja uma das piores frustrações que uma pessoa possa experimentar. Sabe quando alguém se casa sem amar e sem ser amado? Falo daqueles “amores” arranjados, onde não há admiração, nem tesão, nem amor, tudo é movido pelo medo de ficar só,  não sabendo os envolvidos que  a solidão mais destruidora é aquela que se experimenta ao lado de alguém.

Deve ser horrível sentir que o seu abraço não encaixa no outro, pior ainda, é a certeza de que o outro não faz questão de ser abraçado por você. Deve ser desolador olhar uma boca e não sentir sede de beijá-la, mesmo regressando de uma longa viagem sem o parceiro.

Chega a constranger  aquele sexo sem afeto, sempre. Aquele toque que não diz nada, aquele  ritual cronometrado e previsível como quem ‘bate o ponto’. Aquele sexo puramente fisiológico, sem entrega, sem alma, cheio de reservas. E, depois, quando acaba, não existe aquela vontade de ficarem grudadinhos, sem falar nada ou falando o que vier à cabeça.

Eu falo sobre a ausência da sensação de pertencimento na própria relação, é o sentir-se o tanto faz para o outro, é se dar conta de que sua ausência não é sentida, tampouco a sua chegada é festejada. Certamente, tudo isso machuca e angustia  o outro lá no íntimo da alma. Não quero dizer que relacionamento feliz é aquele cheio de desejo o tempo todo, mas é fato que o desejo dá o ar da graça com uma certa frequência e isso é vital para qualquer união.

Esmaga a autoestima de qualquer pessoa se dar conta de que o parceiro não a conhece em sua essência e não faz nenhuma questão disso. Não há interesse em se aprofundar no outro, em olhar nos olhos de verdade, em decifrar os sorrisos ou os silêncios. Juntos e tão sozinhos, desolados numa relação que não oferece aquilo que tanto anseiam: amar e ser amado.

Solidão a dois é aquele sentimento de que o outro não tem a senha para acessar a nossa intimidade mais autêntica e genuína. É olhada, mas não ser enxergada; é ser poesia aos olhos de um analfabeto.

Ivonete Rosa

Sou uma mulher apaixonada por tudo o que seja relacionado ao universo da literatura, poesia e psicologia. Escrevo por qualquer motivo: amor, tristeza, entusiasmo, tédio etc. A escrita é minha porta voz mais fiel.

Recent Posts

Morar no exterior e sentir que não pertence a lugar nenhum: como a terapia online pode ajudar

Morar no exterior e sentir que não pertence a lugar nenhum: como a terapia online…

29 segundos ago

Terapia online e EMDR para brasileiros no exterior: cuidar da mente sem abrir mão da própria língua

Morar em outro país pode representar conquista, crescimento profissional, novas oportunidades e contato com culturas…

3 horas ago

EMDR para brasileiros no exterior: por que nunca é tarde para tratar traumas antigos

Morar em outro país pode representar uma conquista importante, mas também pode fazer com que…

1 dia ago

Existe idade para tratar um trauma? Por que nunca é tarde para procurar ajuda

Uma experiência dolorosa pode permanecer conosco durante décadas. Algumas pessoas chegam aos 50, 60, 70…

2 dias ago

O que acontece quando evitamos durante anos uma lembrança dolorosa

Quando determinada lembrança provoca sofrimento, tentar não pensar nela parece uma solução bastante lógica. Mudamos…

2 dias ago

Josie Conti fala sobre os efeitos de traumas não elaborados ao longo da vida

Algumas experiências passam. Outras parecem continuar acontecendo dentro de nós muito depois de terminarem. Uma…

2 dias ago