Celebridades

Por que o Oscar de 1972 continua sendo um dos melhores da história

Existem cerimônias do Oscar lembradas por um vencedor, um discurso ou uma confusão no palco. A edição de 1972 teve algo bem mais difícil de repetir: vários momentos que entraram para a história aconteceram na mesma noite. Gene Hackman conquistou seu primeiro Oscar, Jane Fonda venceu como melhor atriz, Isaac Hayes quebrou uma barreira histórica e Charlie Chaplin retornou aos Estados Unidos depois de duas décadas longe do país.

Tudo isso aconteceu em 10 de abril de 1972, no Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles. Oficialmente, era a 44ª edição do Oscar e premiava os filmes lançados em 1971. Visto mais de meio século depois, o evento registra um período especialmente interessante do cinema americano, quando nomes consagrados dividiam espaço com diretores e atores que estavam mudando a maneira de Hollywood contar histórias.

Uma lista de indicados difícil de repetir

Basta olhar para os concorrentes ao prêmio de melhor filme para entender por que aquela edição envelheceu tão bem.

Operação França (The French Connection), Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), Um Violinista no Telhado (Fiddler on the Roof), A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show) e Nicolau e Alexandra (Nicholas and Alexandra) disputaram a principal categoria.

São produções muito diferentes entre si. Havia o policial urbano e áspero de William Friedkin, a provocação distópica de Stanley Kubrick, um musical de grande produção, o retrato melancólico da juventude americana dirigido por Peter Bogdanovich e um drama histórico de proporções épicas.

Operação França terminou como o grande vencedor. Recebeu oito indicações e ganhou cinco estatuetas: melhor filme, ator para Gene Hackman, direção para William Friedkin, montagem para Jerry Greenberg e roteiro adaptado para Ernest Tidyman.

O filme ajudou a consolidar um estilo policial mais cru, filmado em locações e distante da aparência cuidadosamente controlada de muitas produções de estúdio. A famosa perseguição pelas ruas de Nova York se tornaria uma das sequências mais reconhecidas do gênero.

Gene Hackman, então com 42 anos, saiu dali com seu primeiro Oscar. Seu personagem, o detetive Jimmy “Popeye” Doyle, também ajudou a transformá-lo definitivamente em protagonista de primeira linha em Hollywood. A própria Academia destaca que o sucesso do longa tornou Hackman e seu colega Roy Scheider grandes estrelas do cinema americano.

Jane Fonda, Cloris Leachman e uma geração ganhando espaço

A categoria de melhor atriz também produziu um resultado importante. Jane Fonda venceu por sua interpretação de Bree Daniels em Klute, suspense dirigido por Alan J. Pakula. Foi o primeiro Oscar da carreira da atriz, que ainda voltaria a conquistar a categoria alguns anos depois por Amargo Regresso.

Entre os coadjuvantes, A Última Sessão de Cinema conseguiu uma dobradinha: Ben Johnson venceu como melhor ator coadjuvante e Cloris Leachman levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante. O filme havia recebido oito indicações ao todo, incluindo melhor filme, direção, fotografia e roteiro adaptado.

Uma das fotografias mais conhecidas daquela noite registra justamente Cloris Leachman, segurando sua estatueta, ao lado de Gene Hackman e Raquel Welch. A própria Academia preserva esse encontro entre seus “momentos memoráveis” da cerimônia.

A imagem chama atenção porque reúne três trajetórias bastante diferentes. Hackman acabara de receber o prêmio que alteraria o rumo de sua carreira; Leachman tinha sido reconhecida por uma atuação dramática que surpreendeu parte do público acostumado a vê-la também na comédia; e Welch estava entre as figuras mais fotografadas e reconhecidas do cinema daquele período.

Sem poses elaboradas para redes sociais, campanhas preparadas meses antes ou dezenas de câmeras registrando cada ângulo, a fotografia acabou se tornando um retrato bastante espontâneo daquela edição.

Isaac Hayes transformou o palco do Oscar

A música proporcionou outro daqueles momentos que continuam aparecendo nas retrospectivas da Academia.

Isaac Hayes venceu o Oscar de melhor canção original por “Theme from Shaft”, composta para o filme Shaft. Com a vitória, tornou-se o primeiro artista negro a conquistar um Oscar em uma categoria musical.

Sua apresentação também fugiu completamente da sobriedade associada às cerimônias daquele período. Hayes surgiu no palco sem camisa, usando correntes douradas, cercado por dançarinos e por uma produção elaborada para interpretar o tema do filme.

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A própria Academia classifica a performance como um dos momentos marcantes da 44ª edição.

Hoje isso pode parecer compatível com o tipo de espetáculo musical que o Oscar costuma produzir. Em 1972, porém, colocar soul e funk dessa forma no centro da maior premiação do cinema americano tinha outro peso cultural.

Então Charlie Chaplin entrou no palco

Se fosse necessário escolher uma única cena capaz de explicar por que aquela cerimônia continua reaparecendo em listas de momentos históricos do Oscar, provavelmente seria a chegada de Charlie Chaplin.

Ele estava com 82 anos.

Chaplin havia passado cerca de 20 anos afastado dos Estados Unidos. Em 1952, durante uma viagem ao exterior, seu direito de reentrada no país foi revogado em meio às suspeitas e acusações de simpatia pelo comunismo que o perseguiam durante o clima político da Guerra Fria. O cineasta acabou estabelecendo residência na Suíça e só retornaria aos Estados Unidos em 1972 para receber a homenagem da Academia.

Quando apareceu no palco do Dorothy Chandler Pavilion, a cerimônia praticamente parou.

Chaplin recebeu um Oscar honorário em reconhecimento ao impacto de sua obra sobre o cinema. A reação da plateia se estendeu por cerca de 12 minutos, episódio ainda lembrado pela própria Academia como uma das maiores ovações de sua história.

Para quem assistia em 1972, havia uma camada que as imagens atuais dificilmente conseguem transmitir por completo. Não era simplesmente um cineasta veterano voltando para receber uma homenagem. Era um dos responsáveis por transformar o cinema silencioso em entretenimento de massa retornando ao país do qual havia sido afastado vinte anos antes.

Chaplin, visivelmente emocionado, agradeceu brevemente à Academia e ao público.

E isso bastou.

O velho e o novo Hollywood estavam no mesmo prédio

Talvez esteja justamente aí o aspecto mais curioso do Oscar de 1972.

Charlie Chaplin representava praticamente as origens do cinema americano. Gene Hackman, Jane Fonda, William Friedkin e Peter Bogdanovich pertenciam a uma geração que estava mudando Hollywood por dentro. Stanley Kubrick concorria com um filme desconfortável e provocador como Laranja Mecânica. Isaac Hayes levava o soul ao palco. Raquel Welch representava uma cultura de celebridades que já começava a funcionar de maneira diferente daquela das grandes estrelas contratadas pelos antigos estúdios.

Até a lista de vencedores mostra essa mistura.

Um Violinista no Telhado recebeu oito indicações e venceu três categorias, enquanto A Última Sessão de Cinema teve outras oito e ganhou duas. Laranja Mecânica, uma das produções mais controversas do período, disputou quatro categorias, incluindo melhor filme e direção.

Na mesma cerimônia era possível encontrar grandes musicais, dramas históricos, cinema policial realista e filmes experimentando temas e linguagens que poucos anos antes dificilmente ocupariam espaço tão central na premiação.

Uma fotografia que ganhou outro significado com o tempo

Entre tantas imagens daquela noite, a fotografia de Raquel Welch, Gene Hackman e Cloris Leachman tornou-se especialmente interessante quando vista décadas depois.

Hackman morreria em 2025 depois de construir uma das filmografias mais respeitadas de sua geração. Leachman, falecida em 2021, seguiria trabalhando durante décadas no cinema e na televisão. Welch, que morreu em 2023, permaneceria como uma das figuras mais reconhecíveis da cultura popular das décadas de 1960 e 1970.

Naquele momento, porém, nada disso estava escrito.

A fotografia registra simplesmente três pessoas em uma festa do cinema: Hackman depois de vencer como melhor ator, Leachman segurando o Oscar de melhor atriz coadjuvante e Welch, que participou da entrega dessa categoria. A Academia ainda mantém registros fotográficos e em vídeo dos três entre os destaques oficiais daquela cerimônia.

É justamente essa combinação que ajuda a explicar a longevidade do Oscar de 1972. Em poucas horas, uma cerimônia conseguiu registrar grandes filmes de uma fase de transformação do cinema, premiar artistas no começo de carreiras históricas, quebrar uma barreira com Isaac Hayes e receber Charlie Chaplin de volta aos Estados Unidos diante de uma plateia que permaneceu vários minutos de pé.

Difícil colocar tanta história dentro de uma única noite de premiação.

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Gabriel Pietro

Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.

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