É da nossa natureza adiar confrontos, deixar pra depois, esperar que tudo se resolva com o tempo. Ahhhhhh… o tempo! Esse modulador exigente de nossas vidas.
O tempo é senhor de nossa aparência exterior e da nossa disposição interna. O tempo desenha histórias em nosso rosto, arredonda nossas formas femininas, põe limites em nossas ousadias, diminui nossa necessidade de sono e aumenta nossa necessidade de repouso.
Antagonista por natureza, esse senhor do destino também traz presentes, que só podem ser conquistados no decorrer de sua passagem. É o tempo que nos ajuda a esquecer das perdas, que nos torna menos reativos, que nos recheia de sabedoria e nos cobre com a certeza de que não há certezas nessa vida.
E é por isso que cabe a nós tentar estabelecer com esse companheiro de jornada, uma relação mais presente e repleta de diálogos íntimos. A falta de intimidade com o tempo nos torna reféns dele. E o cativeiro do tempo é implacável e injusto.
Nascer também nos coloca numa perspectiva inteiramente nova. Se antes a relação de interdependência entre nós e nossa mãe era intrínseca à nossa condição, aqui fora a coisa muda de figura.
Ao nascer temos de contar com a sorte de ter sido estabelecido um laço afetivo entre a mulher que nos gerou e a nossa vida que se inaugura. Vínculos formados garantem que receberemos cuidados, afeto, alimento e os estímulos necessários para que sejamos instrumentalizados para seguir por conta própria, num futuro relativamente distante.
E se os vínculos não se estabelecerem, ficamos expostos às agruras da vida, desprotegidos e vulneráveis. Acabaremos dando um jeito de nos adaptar, seguiremos aos trancos e barrancos e acolheremos em nosso corpo e nossa alma, as deformações inevitáveis que o abandono inflige.
O fato é que de nada adianta ficar chorando pelo leite que azedou, porque se tivesse derramado, ainda haveria opção de resgate. Não serve de nada ficar ruminando o passado, a falta de afeto, a carência, a desatenção.
A vida se descortina, cheia de novas oportunidades a cada vez que temos a ousadia de sair da cama e enfrentar o mundo, e aprender a fazer escolhas, e deixar os pesos no chão, para poder caminhar de ombros e costas libertas. Lutemos pelo direito de descaber, porque de gente encaixotada o mundo já está cheio demais.
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