“O PSICANALISTA NÃO FALA, SÓ ESCUTA” – Verdade?

Por Flavia Bonfim

A ideia do analista sempre silencioso é uma caricatura. Isso não quer dizer, contudo, que o silêncio não tenha sua função no processo analítico. Se fosse “verdade” que o analista não fala, ainda assim teríamos aí uma questão que mereceria melhores esclarecimentos. Pois como a “verdade é sempre não-toda“, nos diz Lacan, essa afirmativa por si não seria capaz de dar conta de dizer tudo sobre a práxis do analista. Por outro lado, vale dizer que “escutar”, ou melhor “a escuta de um psicanalista” em si já não é pouca coisa, pois permite ao sujeito falar daquilo que há de mais íntimo, sem ser censurado e julgado segundo critérios morais: do bem e do mal, do certo ou errado, além de contar com o sigilo de seus maiores segredos.

Escutar o paciente, antes de falar e fazer suposições, trata-se de uma posição ética, que supõe um saber do lado do analisando a respeito de si próprio (mesmo que ele ainda não saiba) a ser construído no processo analítico. Além disso, isso aponta para o fato de que qualquer intervenção e interpretação do analista só é mediante a prévia escuta do paciente.

Não se trabalha com um saber pronto, produzido de ante-mão, que caberia para todo sujeito. A teoria psicanalítica orienta e jamais o analista pode prescindir dela, mas ela não substitue o singular e só se confirma e se autentifica medicante o caso a caso. A psicanálise é a clínica do particular.

Desse modo, o analista trabalha essencialmente com a fala do paciente, pois é na fala que o inconsciente pode emergir. É isto que Lacan quer assinalar com seu famoso aforismo, que marcou sua releitura da obra freudiana: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem”. O inconsciente não está dentro, nem fora, mas se encontra na própria fala do analisando, cabendo ao analista intervir para que o inconsciente exista. É o analista que enfatiza aquilo que o analisando desconsidera (as manifestações do inconsciente: atos falhos, chistes, sonhos, sintoma) e aponta para seu estatuto de representante da verdade do sujeito. Daí, a tese de Lacan: O inconsciente não é sem o analista.

De modo mais preciso, afirmamos que a psicanálise trabalha com os ditos do paciente, questionando a posição do sujeito frente a eles, o lugar do enunciante frente ao seu enunciado,–  permitindo reformular sua queixa e introduzir o mal-entendido. Isso o guia ao encontro do inconsciente, levando-o ao questionamento de seu desejo e do que pretende dizer quando fala.  O ato analítico consiste em implicar o sujeito em sua queixa, de modo que possa avançar, deslizando da queixa a respeito do outro, para a pergunta: “Qual minha parte nisto?”, produzindo, então, uma retificação subjetiva, uma responsabilização do sujeito sobre seu sintoma. Convém destacar que responsabilizar não é de modo algum culpabilizar o paciente pelo seu sofrimento. Responsabilizar é o primeiro passo para permitir que o analisando – apesar do assujeitamento do Outro, do determinismo inconsciente e dos dramas pessoais – possa se autorizar pelas escolhas de sua vida e encontrar outras vias de se posicionar frente ao mundo, bem como outros modos de satisfação, construindo, assim, soluções inéditas para si.

Finalizando, devo dizer que  ética da psicanálise é regulada pelo desejo e toda intervenção/interpretação analítica incide na tentativa de apontar para a dimensão desejante do sujeito. Logo, o psicanalista fala. O que ele não fala é sobre si, já que isso produz apenas identificações imaginárias que só tendem a contribuir ainda mais para a alienação do sujeito – indo na contramão do processo analítico. Ele também não diz ao paciente como agir, pois quem pode dizer o que é melhor para o outro? Quanto a isso, Freud há tempos nos alertou , escrevendo que “A felicidade constitui um “problema da economia da libido do indivíduo.” Não existe uma “regra de ouro” para todos. Cada sujeito deve descobrir o seu caminho que conduz ao prazer.” Nesse sentido, Lacan, por sua vez, foi bem claro ao formalizar que o analista dirige o tratamento, não o paciente.

Fonte indicada: Flávia Bonfim Psicanálise

CONTI outra

As publicações do CONTI outra são desenvolvidas e selecionadas tendo em vista o conteúdo, a delicadeza e a simplicidade na transmissão das informações. Objetivamos a promoção de verdadeiras reflexões e o despertar de sentimentos.

Recent Posts

Terapia EMDR para brasileiros no exterior: como funciona e para quem é

Morar em outro país pode representar liberdade, crescimento profissional, novas experiências e a realização de…

7 horas ago

Privatização de estatais: o que muda para o acionista minoritário na prática?

Os processos de desestatização geram mudanças estruturais profundas na governança corporativa, na alocação de capital…

1 dia ago

“Fui trancada para não comer”: Deborah Secco revela episódio extremo vivido com ex

Deborah Secco abre o jogo sobre relação tóxica e conta episódio extremo que viveu com…

2 dias ago

Você costuma viajar de camiseta? Comissário de bordo explica por que vale repensar esse hábito

Comissário de bordo alerta sobre camiseta no avião e explica o risco que quase ninguém…

2 dias ago

Essa ruiva de olhos azuis marcou as revistas nos anos 80 — veja como ela está hoje

Poucos esqueceram esse rosto dos anos 80 — veja como a famosa modelo está hoje

2 dias ago

Meu padrasto nunca me abandonou. Só no hospital descobri por que ele quase foi embora um dia

Meu padrasto me criou como filha desde pequena. No fim da vida, contou algo que…

2 dias ago