O perigo de não se importar

Passamos a vida sendo aconselhados a ignorar, a “deixar pra lá”, como no caso das pessoas que nos aborrecem, das paixões não correspondidas, das tristezas aparentemente superficiais. Nesses e em outros vários contextos, dizem-nos para esquecermos, não darmos importância e seguirmos em frente. No entanto, até que ponto é suportável acumular tanta contrariedade aqui dentro? Para onde vai tudo isso?

Fico pensando naqueles programas televisivos que tratam dos acumuladores, cujas residências se transformam em depósitos de inutilidades amontoadas e que vão ocupando todos os espaços possíveis, causando danos à saúde e à vida do proprietário dos entulhos e daqueles que o amam. O entulho obstrui, enfeia, sufoca, imobiliza e prende a pessoa ao que não lhe acrescenta nada, àquilo que ela procura sem ao menos saber o motivo. Da mesma forma, ao tentarmos passar por cima das contrariedades passivamente, sem externarmos nenhuma reação que seja, vamos nos tornando acumuladores de angústias, as quais, assoberbadas, obstruem o nosso bem estar e a resolução pessoal de nossa vida como um todo. Caminhamos, assim, com pendências que nos ferem aos poucos, imperceptivelmente, mas de forma ininterrupta, latente e nociva ao nosso bem estar.

Viver com pendências sentimentais é viver pela metade, com um peso que se vai acumulando e um dia tem que escapulir de alguma forma, uma vez que nosso íntimo não consegue abarcar tanta negatividade em seus limites sensoriais. Daí a somatização, as depressões, as explosões de raiva e tudo o mais, inevitáveis consequências que só machucam a nós mesmos e àqueles que nos amam, justamente quem não tem nada a ver com isso, na maioria das vezes. No entanto, preocupar-se demasiadamente com os fatos, com o que já aconteceu ou pode vir a acontecer, também faz mal, assim como o faz, igualmente, irritar-se e esbravejar contra tudo e contra todos, sem papas na língua, dizendo o que se pensa, sem dar atenção aos sentimentos alheios. Porque uma coisa é ser sincero, outra coisa é ser agressivo e deselegante – e não poucas vezes confundimos tudo isso, machucando, no final das contas, menos os agredidos do que a nós próprios.

Tenho comigo que aquelas pessoas que externam apenas um ar “blasé” frente a qualquer situação e para com qualquer pessoa acabam se tornando muito chatas, ocas e isentas de emoção alguma, pelo menos externamente. E o perigo maior em sermos indiferentes demais é a armadilha que nos armamos ao relegar tudo ao segundo plano, aí incluídas as pessoas que nos são mais caras – marido, esposa, filhos, irmãos, amigos -, visto que, assim, poderemos estar nos condenando ao distanciamento sem volta de quem mais precisamos, fugindo aos encontros essenciais da vida em comum.

No mais, o ponto crucial que nos desabilita às interações sinceras e edificantes em nossa jornada vem a ser a desonestidade, o fingimento, quando adotamos posturas que fogem completamente ao que existe dentro de nós. Enganamos a nós próprios, às vezes para evitar contendas e indisposições com o outro. Entretanto, temos de entender que conflitos são muitas vezes imprescindíveis e não necessariamente inúteis, pois precisamos aparar as arestas que empacam nossos relacionamentos, seja com o parceiro, com o filho, com o amigo, com o colega de trabalho, com o chefe. Saímos mais gente, mais humanos e mais verdadeiros desses embates. Nossos dias, afinal, preenchem-se com essas relações e, caso estejam entravadas em algum aspecto, teremos nossa jornada adulterada em suas verdades, pois estaremos largando mão de chances preciosas de aprimoramento pessoal, de crescimento e de descobrimento. Escamotearmos os sentimentos implica, pois, negarmo-nos a encarar e a superar aquilo que nos impede de ao menos tentar buscar a felicidade.

Faz-se mister, como se vê, encontrarmos um jeito de lidar com nossos sentimentos, de forma a torná-los amigos da vida lá fora, harmonizando-os com o meio – umas vezes aconchegante, outras vezes inóspito – em que vivemos. E, caso precisemos de algum tipo de ajuda – de um familiar, de um amigo, de um profissional -, não podemos nos furtar de procurá-la, pois ninguém é obrigado a se safar sozinho de seus abismos, a ponto de tornar sua jornada ainda mais solitária e triste do que já possa lhe parecer.

Viver é uma arte, uma rota entremeada de atalhos e armadilhas, de conquistas e de frustrações, o que deveria nos tornar propensos a ficarmos cada vez mais fortalecidos e confiantes, mas não é sempre assim. Muitas vezes nos amedrontamos e nos acovardamos durante esse caminhar, paralisados emocionalmente, como que acuados num beco sem saída. Nesses momentos, quem nos salvará, oferecendo conforto, consolo e motivação, serão as pessoas com quem nos relacionamos de forma verdadeira, compartilhada, com quem construímos uma interação de confiança e entendimento mútuo, ou seja, quem ficou conosco após nossas misérias e virtudes terem sido cruamente expostas e aceitas, sem fingimento e sem anulação. Um conselho: cultivemos as relações sinceras, com quem vale a pena, com quem nos ama a ponto de entrar em nossas escuridões e nos resgatar de lá com vida e com amor.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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