Categories: COLABORADORES

O amor começa tarde

Drummond dizia que “amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência, herdada, ouvida; amor começa tarde”. Penso que confundimos a vontade de desvendar o outro, a sede insaciável da presença e a admiração, com o amor. O amor, mesmo, é o que começa tarde.

O amor começa não na magia embriagante que é, munidos de uma curiosidade que reduz o mundo ao outro, tocar uma vida pela primeira vez; mas no encantamento que resiste – e aumenta – quando a convivência já houver recheado nossa memória com registros de todas as variações minúsculas de gestos e sorrisos que dela provêm; quando as marcas de loucura já tiverem sido captadas e tomadas como poesia e o sofrimento alheio escorrido de nossos olhos.

O amor começa não nos diálogos agradáveis e engraçados, não no bem estar e admiração mútuas que as palavras trocadas são capazes de fornecer: isso é o que nos convida a abrir a porta e ir deixando alguém entrar. O amor começa tarde. Começa quando nem todos os momentos compartilhados requerem palavras que externem aquilo que se sente, simplesmente por estarmos tão conectados a alguém a ponto de olhar nos olhos e apenas com uma troca de sorrisos carregar a tranquilidade que o nosso coração sente ao confirmar que o do outro está sentindo o mesmo, de que ele está ali, compartilhando daquele momento com a mesma intensidade e o enxergando através das mesmas lentes: aquelas moldadas pelos arquivos diários e silenciosos do amor.

O amor começa não só na euforia das noites de sexta-feira, mas nos tédios compartilhados de domingo; não só na sinfonia do encontro de timbres, mas no descobrimento da paz que mora dentro dos silêncios cotidianos. O amor começa depois. Depois que aquela vida que nos tira o ar tantas vezes, for também a mesma que, simplesmente por existir e respirar, nos dá coragem e vontade de continuar fazendo o mesmo.

Patrícia Pinheiro

Patrícia Pinheiro tem 25 anos, é natural de Santa Maria - RS, morando em Florianópolis -SC. É formada em Psicologia e amante das palavras. Poeta e escritora, compartilha seu trabalho em suas redes sociais e é colunista do site Conti outra.

Recent Posts

EMDR para brasileiros no exterior: por que nunca é tarde para tratar traumas antigos

Morar em outro país pode representar uma conquista importante, mas também pode fazer com que…

1 dia ago

Existe idade para tratar um trauma? Por que nunca é tarde para procurar ajuda

Uma experiência dolorosa pode permanecer conosco durante décadas. Algumas pessoas chegam aos 50, 60, 70…

2 dias ago

O que acontece quando evitamos durante anos uma lembrança dolorosa

Quando determinada lembrança provoca sofrimento, tentar não pensar nela parece uma solução bastante lógica. Mudamos…

2 dias ago

Josie Conti fala sobre os efeitos de traumas não elaborados ao longo da vida

Algumas experiências passam. Outras parecem continuar acontecendo dentro de nós muito depois de terminarem. Uma…

2 dias ago

O alimento comprovado pela ciência que elimina 87% dos microplásticos do seu corpo

A ciência acabou de provar: existe um ingrediente simples e baratinho capaz de se ligar…

3 dias ago

O ator que enfrentou um câncer em estágio avançado e retomou a carreira em Hollywood aos 81 anos

Esta rara foto de paparazzi mostra um ator icónico aos 81 anos visto durante um…

3 dias ago