Um telejornal da Albânia conseguiu transformar a roupa das apresentadoras em assunto internacional. Na Zjarr TV, jovens passaram a aparecer diante das câmeras usando blazers abertos, sem blusa ou sutiã por baixo, enquanto liam notícias sobre política, economia e outros temas normalmente associados à formalidade de uma bancada de jornal.
A estratégia começou a ganhar repercussão internacional entre 2015 e 2016 e, anos depois, imagens das transmissões ainda voltariam a circular pelas redes sociais. Em 2020, a própria AFP precisou desmentir publicações que apresentavam um vídeo antigo da emissora como se tivesse sido produzido durante a pandemia de Covid-19. As cenas, na realidade, já existiam muito antes.
A proposta incomum não surgiu por acidente. Ismet Drishti, proprietário da Zjarr TV, reconheceu que o visual fazia parte da estratégia da emissora e defendia a escolha como uma representação da ideia de apresentar a informação de maneira “nua”, sem interferências.
Em entrevista concedida à AFP em 2016, ele afirmou que a intenção era oferecer notícias sem a influência dos interesses políticos que, segundo sua avaliação, afetavam parte da mídia albanesa. Drishti também admitiu uma vantagem bem menos abstrata: o formato era uma boa publicidade para o canal.
Segundo o empresário, a audiência cresceu depois que as apresentadoras começaram a aparecer dessa maneira. Na época, a emissora chegou a estudar a possibilidade de levar o mesmo formato a boletins em inglês e francês.
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Um dos primeiros nomes associados ao formato foi Enki Bracaj. Aos 21 anos, ela estudava relações públicas quando participou de um teste para trabalhar como apresentadora da Zjarr TV.
Bracaj resolveu aparecer diante das câmeras com uma roupa aberta e um decote bastante pronunciado. A escolha chamou a atenção dos responsáveis pela emissora e acabou ajudando a jovem a conseguir uma vaga em um programa de notícias internacionais.
Na época, ela explicou que procurava uma maneira de se destacar em um mercado competitivo e disse ter conversado com os pais antes de participar do teste daquela forma. A apresentadora rapidamente ganhou notoriedade e seus vídeos passaram a circular fora da Albânia.
A saída de Bracaj da emissora, porém, ganhou versões diferentes na imprensa. A reportagem da AFP publicada em fevereiro de 2016 registrou que, oficialmente, ela teria deixado o canal por insatisfação com o salário, enquanto colegas diziam que a jovem havia conseguido trabalho como modelo para uma revista.
Outros veículos da época relacionaram seu afastamento a uma possível colaboração com a Playboy, mas houve relatos conflitantes sobre o episódio. O próprio proprietário da Zjarr TV chegou a negar, em entrevista reproduzida pela imprensa, que uma proposta da revista fosse a verdadeira razão para a dispensa.
Depois de Bracaj, quem ganhou destaque foi Greta Hoxhaj, então com 24 anos. Ela já trabalhava havia cinco anos na televisão local, mas contou à AFP que sua popularidade mudou rapidamente depois de assumir o posto na Zjarr TV.
“Em três meses, me tornei uma estrela”, disse a apresentadora à agência.
Hoxhaj aparecia no telejornal usando os mesmos blazers abertos que haviam se tornado uma espécie de marca da emissora. Fora do estúdio, no entanto, afirmou que se vestia normalmente e que aquela aparência era restrita ao trabalho diante das câmeras.
A exposição teve efeitos imediatos em sua carreira. Segundo a reportagem da AFP, Hoxhaj passou a receber atenção pública e até recebeu uma proposta de trabalho de uma emissora que seria lançada na Austrália. Na ocasião, ainda não havia decidido se aceitaria.
A repercussão trouxe exatamente o tipo de atenção que uma emissora pequena dificilmente conseguiria apenas com sua programação. Ao mesmo tempo, colocou a Zjarr TV no centro de uma discussão sobre os limites entre estratégia de audiência, liberdade de escolha e exploração da imagem feminina.
Comentários registrados pela imprensa na época iam de espectadores interessados no formato a críticas que o classificavam como sexista. Apesar da repercussão nas redes sociais, a AFP observou que a reação institucional de organizações de jornalistas e grupos feministas na Albânia havia sido relativamente limitada.
Another Zjarr TV newsreader. The story was on the Albanian potato crop…or was it Syria. Did I even have sound on? https://t.co/IrUggDTfdh
— A.C. Edwards (@thesecurityguy1) February 28, 2016
Leonard Olli, jornalista e especialista em relações públicas em Tirana, resumiu uma das posições daquele debate ao afirmar que havia diferentes opções disponíveis ao público e que qualquer pessoa poderia simplesmente mudar de canal.
Já Aleksander Cipa, então presidente da União dos Jornalistas Albaneses, demonstrou preocupação com o caminho escolhido pela emissora. Para ele, recorrer à nudez não solucionaria os problemas enfrentados pelos veículos de comunicação na disputa por público e receita.
Drishti, por sua vez, rejeitava a ideia de que estivesse simplesmente usando sexo para vender notícias. Para o proprietário da emissora, a roupa das apresentadoras funcionava como elemento simbólico e, ao mesmo tempo, como ferramenta de divulgação.
A força das imagens ajudou a mantê-las em circulação muito depois das transmissões originais. Em setembro de 2017, a própria Zjarr Televizion publicou no YouTube um vídeo reunindo apresentadoras associadas ao formato. Três anos depois, trechos desse material voltaram às redes acompanhados da falsa alegação de que a emissora estava usando mulheres com roupas reveladoras para convencer os albaneses a permanecerem em casa durante a pandemia.
A AFP localizou a gravação original e confirmou que ela era anterior à Covid-19. O episódio acabou acrescentando um capítulo curioso ao caso: uma estratégia televisiva criada anos antes para chamar atenção continuou produzindo repercussão muito depois
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